São Paulo, 10 de outubro de 2006


Razões das tangentes trigonométricas



Šwøk

 

 


Isso foi bem antes das coifas, dos contra-rufos, das platibandas e das pingadeiras, dos zimbórios e dos lambrequins, das fasquias solitárias, dos pálmeres e parafusos micrométricos. Já o mundo deveria tinha avançado no uso das mandíbulas e costelas de baleia para fazer seus telhados. As águas-mestras dos trapezoidais e as duas águas dos tacaniças conheciam dias de paz e benfazejas esperanças.

Eu divagava, filosoficamente, sobre como as pessoas constroem suas casas e, conseqüentemente, telhados. Fatores do clima, drenagem das águas pluviais, propensões estéticas exageradas?

Estava eu, assim, pensativo, quando Boleslav, muito vermelho, venho correndo pelo nosso telhado, e me disse, assim, sem mais nem menos, à queima-roupa:

— Olha lááááá...pegaaaaaa!!!!!!

— Dei uma cuspida de nojo:

— Aquilo é um rato, eu lhe disse.

— Rato??? Pergue-o, Swok, pegue-o!!!!!!!

— Eu, não! Ficou louco???

— Mas..você é um gato....Deveria..

— Deveria porquê? Me dê um bom motivo.

Boleslav cofiou a barbicha, e pensou um pouco:

— É, não tem porquê mesmo.

— Não se preocupe, é um rato lemuriano, da ilha de Madagascar... Foi a má declividade de alguns telhados da cidade...

Foi então que um fator meramente matemático, mas que há tempos eu procurava, com algum tormento, me veio à mente: a orientação da declividade dos planos deveria ser indicada por setas ortogonais, ao lado dos polígonos da cobertura. E junto a ela, que, de uma vez por todas, e contrariando todas as leis da Europa, que fosse especificada, com rigorosa precisão, o ângulo que a cobertura faz com o declive, ou seja, a tangente trigonométrica da inclinação. Que seria eternamente medida pela multiplicação da tangente geométrica de um determinado ponto (P) e o eixo das abcissas. Ah...por isso a noção de derivada causa tantos problemas a Leibniz....

E me apressei em colar no meu caderno de anotações, em sinal de respeito, uma reprodução de um óleo que mostrava Leibniz.

Por Saturno! Retas tangentes e secantes à uma curva...Quase que esqueço as minhas anotações matemáticas...

— Boleslav, passe o chá, por favor.

 

 


Šwøk é um gato que, desde 1792, quando nasceu, vive nos telhados de Praga, com o fantasma do rei Boleslav II, o Piedoso. Contratado pela mais famosa olaria da cidade, está escrevendo O Grande Livro dos Telhados, do qual este texto faz parte.

e-mail: swok@uol.com.br

O Grande Livro dos Telhados