São Paulo, 09 de fevereiro de 2004

À guisa de um poema de Pushkin

 

 

Šwøk

 

 

"O gato que outrora fui, o mesmo ainda serei: leviano, ardente"
— Pushkin — (1799-1837)

 

 

Bem-vindo ao local que divide o mundo em: Oriente e Ocidente!

Aqui é o Conjunto de Telhados Centrais de Praga, onde sopram ventos alísios, brisas, monções, sirocos, ventos sazonais, a despeito do que pensam e dizem meteorologistas & físicos que não habitam telhados. De onde estou, posso ver os alquimistas da Rua Dourada, os cristais da Boêmia, o banheiro do Michael Jackson e, com um pouco de sorte, a Baía dos Porcos. Também todas as rosas-dos-ventos, anemômetros, cristais de gelo, chuvas orográficas e sondas meteorológicas das imediações. Alguns remanescentes moinhos & Quixotes pelas noites, e as alcovas de Praga.

As aveludadas alcovas de Praga.

O ano é 1781. Aqui começa a minha história. Que passou por todos os líquidos da rua do Ouro e nunca terminou.

Por muitos anos tive como companhia no telhado um Radar Doppler em miniatura. Creio que o primeiro que Christian Doppler imaginou e tentou construir e que, presumo, não tenha dado muito certo, por isso ele, o radar, tenha sido chutado, da Áustria, até aqui. Depois de anos, conversando com ele e absorvendo suas palavras, em uma noite de inverno, quando as nevascas atingiam 10º F, comecei a escrever os primeiros apontamentos do que seria o Manual dos Complexos Convectivos de Mesoescala.

Nasci com o dom da escrita, como podem observar.

Mal eu havia rabiscado a introdução e apareceu, sentado na chaminé, o fantasma de Boleslav II, o Piedoso que, como todos sabem, herdou a Boêmia, a Morávia, a Silésia, a Polônia e a Eslováquia em um único reino. Pelo menos julgo que tenha sido o seu fantasma. Ele pediu-me então, que escrevesse o Grande Livro dos Telhados, o seu grande sonho que a morte impediu. E já que eu tinha essa inclinação para as letras e tempo ocioso...Impressionado com a desenvoltura, bom-humor e refinados modos do fantasma, deslizando suavemente por telhas e águas-furtadas, sorrindo a tudo e todos, caso ali houvesse mais alguém além de mim, fiquei de pensar e dar-lhe uma resposta.

Enquanto eu pensava, procurou-me o dono de uma Cadeia de Olarias da Linha Divisória do Ocidente e Oriente, e fez-me o mesmo pedido, desta feita com um talão de cheques grafado em USD.

Em respeito ao fantasma de Boleslav II, aceitei.

Séculos depois, uma desastrada viagem à Sorocaba, interior de São Paulo, Brasil, fez com que eu perdesse boa parte do Grande Livro dos Telhados, razão pela qual, agora, passo a reescrevê-lo.

E dedico-o ao fantasma de Boleslav II e ao dono da cadeia de Olarias.

 

 


Šwøk é um gato que, desde 1792, quando nasceu, vive nos telhados de Praga, com o fantasma do rei Boleslav II, o Piedoso. Contratado pela mais famosa olaria da cidade, está escrevendo O Grande Livro dos Telhados, do qual este texto faz parte.

e-mail: swok@uol.com.br

O Grande Livro dos Telhados