São Paulo, 07 de dezembro de 2004

 

O véu estrutural da neve


Šwøk

 

 

Nevava. Nevava sobre os longos e pequenos telhados de Praga e sobre outros tantos longos e pequenos telhados de países com abundante produção de neve nesta época do ano.

Eis que nevava, nada mais que isso: pequenos flocos em formas de cristais e de estrelas sobre os nossos pêlos e casacos, estes últimos no caso dos homens. Nevava sobre as bufarentas chaminés de Praga e de outras tantas cidades que possuem um razoável número das mesmas.

Nevava pela manhã, pela tarde e pela madrugada. Limitei-me a cerrar discretamente os olhos, com meus longos cílios formando um anteparo aos flocos que caíam sabe-se lá de onde.

Nevava sobre todas as chapas com largura de 0,930 m. Sobre todas as espessuras de 0,006 ou 0,008. Sobre todas as alturas das ondas de 0,051. Sobre todas as arestas laterais de 0,047. E, sobretudo, sobre os comprimentos da onda que assinalavam 0,177.

Sim, era a neve. A profícua e insondável neve dos telhados. Aquela que esparramava-se sobre as ondas das minhas telhas, impedindo-me de ali dormir e escrever.

Nevava sobre as cantoneiras, sobre as escoras, sobre as meias-tesoura e sobre as tesouras. Nevava sobre as terças, os frechais e as cumeeiras. Sobre ripas e caibros. Sobre a trama e a armação. Sobre as bitolas comerciais das serrarias. Sobre as pontas e bitolas dos caibros. Sobre os chanfros de 45°. Sobre a trama apoiada na alvenaria. Sobre as emendas das peças que trabalham à compressão. Sobre peças fletidas e sobre calços. Sobre cunhas e forros. Sobre as porcentagens das rampas. Sobre os beirais e as fiadas. Sobre os oitões. Sobre os 14 cm de superposição entre as chapas. Sobre as chapas de cantos cortados e sobre as de cantos não-cortados. Sobre a minha principal anotação sobre as chapas:

lembrar que o corte das chapas é feito pela hipotenusa do triangulo retângulo cujos catetos sempre serão os recobrimentos lateral e longitudinal.

— Ãhn....Šwøk ...você está com um floco de neve no nariz.

Bocejei. O que ele queria que eu tivesse no nariz? Filtro solar?

— Boleslav, onde você vai passar o Natal?

— Aqui mesmo. Estou achando um barato este telhado. E por falar nisso, correspondência para você. Jingle Bell!!!

— Ah! O cartão de natal do meu primo Švewveøvekve. Ele sempre foi um gato gregário e dado à gentilezas.

 



— Porque você não o convida pra passar o Natal aqui com a gente?

— Boleslav, nem eu e nem você somos “a gente”. Eu sou um gato e você um fantasma.

— É força de expressão.

— Eu pretendia descansar nas festas de fim de ano. O meu primo tem insônia, bebe, etc...

— Mas é seu primo, Šwøk, e é Natal.

Odeio fantasmas com espírito natalino. Fechei os olhos e pus-me a imaginar Boleslav, com a sua mania de grandeza, armando uma árvore de natal na chaminé. E depois pude vê-lo com o gorro e as barbas do Papai Noel. E nas costas um saco de presen...comida? nozes? castanhas cozidas? Bolo de chocolate??

— Miau, Boleslav! Pega o machado e vamos procurar um pinheiro que se adeque a gente, tá?

— Nós não somos “a gente”, Šwøk. Eu sou um fantasma e você um gato. E tem mais: gatos e fantasmas não derrubam pinheiros com machados.

— E como vamos fazer a nossa árvore, Boleslav? Como você vai se vestir de Papai Noel?

— Não vou me vestir de Papai Noel, a não ser que você se vista de rena...Ho!ho!Ho!

— Sem graça...

Então eu pulei na beirada da chaminé e ali coloquei o cartão do Švewveøvekve. Depois pulei do telhado para as ruas procurando um gorro de Papai Noel. Acompanhado pelo Boleslav que flanava. Mas, olhando bem..seria ele mesmo???

 

 



Šwøk é um gato que, desde 1792, quando nasceu, vive nos telhados de Praga, com o fantasma do rei Boleslav II, o Piedoso. Contratado pela mais famosa olaria da cidade, está escrevendo O Grande Livro dos Telhados, do qual este texto faz parte.

e-mail: swok@uol.com.br

O Grande Livro dos Telhados