São Paulo, 21 de setembro de 2007


Os chafuzes violetas



Šwøk

 

 

Como todos devem saber — pelo menos todos que acompanham O Grande Livro dos Telhados — o Chafuz é a peça que dá suporte à Terça. Diferentemente da Empena, que é uma peça estratégica da Tesoura. E o chafuz leva com ele um grande segredo, que só os iniciados na construção dos telhados podem apreender.

Diferente do que se pensa, o telhado em si nada vale. Pois de quê mesmo adiantaria um telhado pairando no ar? Então o segredo começa na construção das paredes e no arremate dado a elas. Quer por sua vez, depende de um pedreiro atento, convicto e circunspecto. Para que o local em que for colocada a Tesoura esteja de tal maneira alinhado aos estados d´alma das madeiras que as vigas de amarração se tornem apenas os condutores psíquicos dos telhados.

Depois do concreto colocado sobre a canaleta, coloca-se a viga de apoio, de tal modo que a linha de centro da Empena, a linha de cento da Linha e a linha de centro da Viga de apoio devam se cruzar num único, e apenas em um, ponto.

Isso requer engenho e arte, como diria o poeta.

Continuando: o Chafuz é a peça que dá suporte às Terças, que por sua vez, são peças que servem para apoiar os caibros. Sem elas os caibros ficariam muito abaulados. O comprimemto do chafuz deve ser pelo menos o dobro da altura.

Reparem que eu estou falando de conceitos básicos em uma boa construção de telhados. Ainda não me arvorei nos pequenos e sutis detalhes, que os diferenciam uns dos outros. Mesmo que essa diferença exista apenas nos cantos mais escondidos e só seus donos e construtores a conheçam.

Casas, edificações, templos, costumam ter os seus inesperados visitantes. Que devido ao enorme tempo disponível, costumam passar alguns dias no lugar que lhes convém.

Gatos, por exemplo. Fantasmas, por exemplo.

Imaginem um gato andando pelo chafuz, um chafuz sujo e cheio de buracos, talvez feito com uma madeira ordinária e remendada. Imaginaram? Imaginem agora um fantasma, flutuando por chafuzes mal-cheirosos e desagradáveis de se olhar. O que não pensará ele da vida cá da Terra? Já chegam as circunstâncias atmosféricas que, eventualmente, imprimem ao chafuz, uma má impressão, tais como: tempestades, tsunamis, tremores de terra, vulcões em erupção.

Lembro-me de alguém, em uma velha taberna em Praga...Homessa! esqueci o gentílico de Praga...Deve ser o frio do inverno...Mas, dizia eu, nessa velha taverna, essa pessoa, um pouco embriagada, fazia admiráveis comparações entre o espírito e a casa das pessoas. Impressionado, estendi um pouco as considerações, e considerei que as pessoas também têm seus gatos e fantasmas, inclusive o Michael Jackson. De onde se deve deduzir que o lugar em que eles habitam, deva ser prazeroso.

Passado algum tempo, quando comecei a escrever O Grande Livros dos Telhados, lembrei-me daquela madrugada, e por isso resolvi acrescentar detalhes minuciosos onde antes eles não existiam.

Um desses detalhes, refere-se à cor dos chafuzes. Porque mesmo deixar lá madeira crua? Se ela pode ser lixada, envernizada, e até mesmo pintada? Se ela pode ser agradável ao toque e à vista? Se ela pode induzir gatos e fantasmas a momentos de meditação e altruísmo?

Então fiz uma votação. Eu, Boleslav, e o meu primo Švewveøvekve, aquele que às vezes bebe, escolhemos, por absoluta unanimidade, a cor violeta. Porque é uma cor que vibra muito alto, que purifica. E os homens precisam dessa transmutação. Também é a cor da clarividência. Da fidelidade. Da inspiração e da instabilidade. Dos gatos.


Šwøk é um gato que, desde 1792, quando nasceu, vive nos telhados de Praga, com o fantasma do rei Boleslav II, o Piedoso. Contratado pela mais famosa olaria da cidade, está escrevendo O Grande Livro dos Telhados, do qual este texto faz parte.

e-mail: swok@uol.com.br

O Grande Livro dos Telhados