São Paulo, 26 de julho de 2006



O ponto abissal

 

Šwøk

 

 

 

Isso foi bem antes de existirem as coifas como serão conhecidas, os contra-rufos, as platibandas e as pingadeiras, os zimbórios e os lambrequins, as fasquias solitárias, os pálmeres e parafusos micrométricos. Já o mundo tinha avançado. Não se usavam mais mandíbulas e costelas de baleia para fazer telhados. As águas-mestras dos trapezoidais e as duas águas dos tacaniças conheciam dias de paz e benfazejas esperanças.

Era uma tarde em que eu divagava, filosoficamente, sobre como as pessoas constroem suas casas e, conseqüentemente, telhados. Fatores do clima, drenagem das águas pluviais, propensões estéticas exageradas?

Estava eu, assim, pensativo, quando Boleslav, muito vermelho, esbaforido, vinha correndo pelo telhado, e me disse, assim, sem mais nem menos, à queima-roupa:

— Olha lááááá...pegaaaaaa!!!!!!

Olhei e dei uma cuspida de nojo:

— Aquilo é um rato....

— Pergue-o, Šwøk, pegue-o!!!!!!!

— Eu, não! Ficou louco???

— Mas..você é um gato....Deveria..

— Deveria porquê? Me dê um bom motivo.

Boleslav cofiou a barbicha, e pensou um pouco:

— É, não tem porquê mesmo.

— Não se preocupe, é um rato lemuriano, da ilha de Madagascar... Foi a má declividade de alguns telhados da cidade...

Foi então que um fator meramente matemático, mas que há tempos eu procurava, com algum tormento, me veio à mente: a orientação da declividade dos planos deveria ser indicada por setas ortogonais, ao lado dos polígonos da cobertura. Oh...por Saturno!!!! E junto a ela, que, de uma vez por todas, e contrariando todas as leis da Europa, que fosse especificada, com rigorosa precisão, o ângulo que a cobertura faz com o declive, ou seja, a tangente trigonométrica da inclinação. Que seria eternamente medida pela multiplicação da tangente geométrica de um determinado ponto (P) e o eixo das abcissas. Ah...por isso a noção de derivada causa tantos problemas a Leibniz....

E me apressei em colar no meu caderno de anotações, em sinal de respeito, óbvio, uma reprodução de um óleo que mostrava Leibniz:

Por Saturno! Retas tangentes e secantes à uma curva...Quase que esqueço as minhas anotações matemáticas...

— Boleslav, passe o chá, por favor.

 

 


Šwøk é um gato que, desde 1792, quando nasceu, vive nos telhados de Praga, com o fantasma do rei Boleslav II, o Piedoso. Contratado pela mais famosa olaria da cidade, está escrevendo O Grande Livro dos Telhados, do qual este texto faz parte.

e-mail: swok@uol.com.br

O Grande Livro dos Telhados