Às margens do Moldava, confluente do Elba, que por sua vez nasce nos bosques montanhosos da Boêmia, Praga se estende, repleta de pontes, lampiões e cartões-postais, pelas curvas sinuosas do rio e pelas colinas que erguem-se no horizonte, chova ou faça sol. E mais chove do que faz sol, diga-se de passagem.
Um dos seus principais encantos é o Café Šwøk, sempre cheio de gente, onde Björk se apresentava quando ainda não era famosa e cantava Stranger in Paradise acompanhada apenas de um rabecão meio desafinado. A área útil de Praga é de quase 500 km quadrados, mas se medíssemos a área útil de todos os telhados, poderíamos exigir que a sua metragem oficial fosse alterada. Porque os seus telhados representam um significativo espaço para todos os gatos e fantasmas que por aqui residem. Que são muitos. E que deram origem à boa parte de suas lendas.
É uma cidade cheia de lendas. Dentre elas duas merecem destaque. Que são contadas, à boca pequena, preferencialmente depois da meia-noite, quando todos os homens são pardos. A primeira refere-se à Púschkin e sua célebre novela A Dama de Espadas. Diz-se que, quando Praga livrou-se da dominação austríaca, no século 19, Púschkin tinha aqui uma namorada, e de tanto vir-e-ir de barco, acabou, no trajeto, escrevendo A Dama de Espadas. Também diz-se, que a protagonista existiu mesmo, e tornou-se no livro a velha senhora Ana Fedotovna, que aqui esteve quando era uma jogadora contumaz e precisava dos favores do conde Saint-Germain. Aí, claro, tudo fica envolto na bruma espessa que cerca Praga, sobretudo porque o Conde nem morava aqui.
Outra lenda é a do Lampião Enevoado do Rei.
Conta-se que certo Rei, o mais másculo, mais belo, mais querido, mais justo de tantos que aqui reinaram, costumava passear pela cidade ao amanhecer e exercitar-se nas pontes. Costumava usar o parapeito das mesmas para fazer alongamento. Certa feita, o gato do Rei, a quem ele queria mais do que a própria vida, acompanhando-o de má vontade, adormeceu sobre o parapeito, e cair no rio. O Rei, desesperado, jogou-se na água em busca do pobre animalzinho. Só que o Rei não sabia nadar, e o gato sabia. Deu-se então o inverso. Foi o gatinho que saiu em seu socorro e conseguiu arrastá-lo até a margem do Moldava, salvando sua miserável vida. Até hoje, pessoas que passam pelo local ao amanhecer, ouvem o barulho da queda do corpo do rei na água e os aflitos miados do gato. Nesse exato momento, em que barulhos e miados cortam os ares da cidade, um espesso nevoeiro envolve a ponte.
Com o passar do tempo, às lendas da cidade acrescentaram-se os loucos da cidade, que passaram a disputar a atenção do povo com as velhas e boas lendas. Pois foi com enorme contrariedade que, fazendo apontamentos para o Grande Livro dos Telhados, me deparei com um deles, que revestiu o seu telhado de papel-alumínio.
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Porque alguém faria isso em Praga comprometendo toda a sua arquitetura e, o que é pior, o meu livro? Quando perguntei ao doido o porquê, a resposta foi que o alumínio apresenta baixo peso específico (2,7 kg/dm³), e que suas ligas estruturais são resistentes às cargas de ventos e têm características especiais de isolamento térmico, pois refletem o calor incidente. Nem dei resposta. Além do mais, no caso da foto acima, tudo indica o sujeito apenas comprou, no supermercado, rolos de folhas de alumínio e recobriu as telhas, ele mesmo, sem nenhuma orientação técnica.
É mentira que o alumínio é isolante térmico. Ele é, isso sim, um excelente condutor de calor. Prova disso é a tabela dos seus potenciais de ionização:
1º ="577,5" kJ/mol
2º ="1816,7" kJ/mol
3º ="2744,8" kJ/mol
4º ="11577" kJ/mol
5º ="14842" kJ/mol
6º ="18379" kJ/mol
7º ="23326" kJ/mol
8º ="27465" kJ/mol
9º ="31853" kJ/mol
10º ="38473" kJ/molO alumínio, um metal encontrado em abundância na crosta terrestre (8,1%), raramente é encontrado livre. Suas aplicações serão produzidas em escala industrial a partir do final do século XIX. Quando foi descoberto verificou-se que a sua separação das rochas que o continham era muito difícil. Por isso, nos seus primórdios, foi considerado um metal precioso, mais valioso que o ouro. Depois o mundo evoluiu, o seu processo de extração modernizou-se, os preços baixaram e deu nisso que está aí hoje: capas de telhados.
— Šwøk?
— O que foi,Boleslav? Diga...
— Essa lenda do Rei...não foi bem desse jeito que aconteceu...Você modificou a lenda...
— Eu, não! Estou apenas contando o que ouvi por aí, só isso.
— Mas, Šwøk....
*bocejo*
Šwøk é um gato que, desde 1792, quando nasceu, vive nos telhados de Praga, com o fantasma do rei Boleslav II, o Piedoso. Contratado pela mais famosa olaria da cidade, está escrevendo O Grande Livro dos Telhados, do qual este texto faz parte.
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