São Paulo, 05 de julho de 2004
As manilhas húngaras
Então eu fiz minha primeira viagem pela Europa. Arrumei minha mochila, coloquei a escova de dentes elétrica, duas latas de leite em pó, umas pantufas que Boleslav, o Piedoso, havia me presenteado e saí, no meio da madrugada, de telhado em telhado.
Viajar por telhados não é a mesma coisa que viajar por terra. Há todo um processo geográfico que nos impele para onde as canaletas das telhas apontam. Mas, enfim, eu tinha um mapa. E uma bússola. Um isqueiro zippo e um charuto cubano que de vez em quando eu dava uma fumada. E um bloco de anotações. Eu não sabia ao certo se minha viagem seria longa. Na verdade, nos primeiros dias, eu me senti um “gato do mundo”. E por mim teria continuado pelo mundo, não fossem os meus negócios com Boleslav e com o dono da olaria. Que só me daria o restante dos dólares quando eu terminasse o Livro. Aproveitei para abrir uma conta na Suíça e outra nas ilhas Seychelles, já prevendo um destino dourado para mim.
Minha primeira parada seria na casa de meu primo, Švewveøvekve, que mora em Budapeste. Não seria tanto por ele, já que ele tem fama de beberrão e dissoluto, mas mais pela fama dos salames húngaros que eu sempre ouvia falar pelas esquinas de Praga.
Ai, Budapest! Os seus telhados são múltiplos e existem de todos os tipos e em grande profusão! Tão diferentes dos verdolentos telhados de Viena e dos inclinados telhados de Praga.
O período de aclimatação foi um pouco extenuante. A súbita mudança de telhados tchecos para telhados húngaros, com suas diferenças de espessura das chapas, cantos cortados, assentamento longitudinal, perfis de estrutura de apoio complexas, horizontalidade em detrimento da queda abrupta das inclinações dos telhados tchecos, fibras de vidro embebidas em emulsão asfáltica, isolantes térmicos diferentes dos de Praga, baixa condutividade térmica, e até mesmo a grande novidade de materiais incombustíveis! Com isso tudo e mais os ângulos de queda das calhas, a falta de madeiramento convencional, e as jazidas próprias para a fabricação de telhas, eu me senti extremamente confuso e horas depois da minha chegada fui tomado por um indescritível estresse e uma fantástica azia.
Švewveøvekve, por sua vez, não morava em telhados, como eu imaginara. Menos ainda na rua. Havia se mudado para um monumento, um daqueles magníficos monumentos antigos de Budapeste. Achei-o um pouco largado e muito bem nutrido o que me levou a crer, mais do que nunca, na fama dos salames. Por sorte eu estava com uma pollaroid que me permitiu bater uma foto dele:
Por um dessas coisas estranhas da vida dos felinos eu mais comi goulash do que salames. E andei à noite pelas casas ditas suspeitas de lá. Com alguma reserva, é claro, e muito boa educação. Boleslav, se me visse como um lord, teria se orgulhado de mim. Pude então fazer um longo e demorado estudo sobre as manilhas húngaras, e como são utilizadas em Budapeste para o escoamento das chuvas, sobre a absorção da água e distância entre as ripas. Usei como referência o marco altimétrico da igreja de Santo Estevão, que está no livro de atas da missa da referida igreja. E assim as dividi:
Manilhas convexas e côncavas. com pouca curvatura e muita ondulação. Manilhas espessas e pouco espessas, as últimas com câmara de eco. Manilhas de cerâmica e de barro cozido ao modo do Hindustão. Manilhas curtas e semibloqueadas, manilhas longas e largas.
Feita essa classificação, guardei tudo na mochila, despedi-me de Švewveøvekve, prometendo a ele que mandaria alguns mails de vez em quando e resolvi voltar para casa. Para os inclinados telhados de Praga, suas chaleiras e fantasmas.
Šwøk é um gato que, desde 1792, quando nasceu, vive nos telhados de Praga, com o fantasma do rei Boleslav II, o Piedoso. Contratado pela mais famosa olaria da cidade, está escrevendo O Grande Livro dos Telhados, do qual este texto faz parte.
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