São Paulo, 14 de fevereiro de 2005

 

Manifesto apócrifo a respeito da Sobreposição Longitudinal

 

 

Šwøk

 

 

Eu não diria que foi o melhor dos meus natais e revéillons.

Boleslav e Švewveøvekve se embebedaram, vomitaram e tiveram de procurar um pronto-socorro na última noite do ano. Que não atendia gatos e fantasmas e mandou-os embora. E ambos sem Seguro Saúde, porque são imprevidentes e fanfarrões.

Foi um enorme azar, uma vez que eu estava com problemas filosóficos sérios. Quanto ao caimento das telhas e largura das cumeeiras.

Isso porque tratava-se de uma experiência inovadora, tratando-se de Praga. Falar de caimento mínimo de 30 % ao máximo de 35% poderia deixar as pessoas inquietas. Como eu iria então apresentar cumeeiras de 171mm de largura, se um simples caimento mínimo já provocava alvoroço? Cumeeiras impraticáveis em uma cidade com telhados que possuem inclinação de 80%. E o que dizer então dos projetados 40cm de balanço longitudinal máximo? E o vão livre? E a sobreposição longitudinal mínima? Eu não poderia sair pelas tascas e tabernas lançando essas idéias sem ser chamado de subversivo. E o vão livre então! Como abordar o vão livre sem ser lançado às fogueiras inquisitoriais de Torquemada??? 3m de vão livre em coberturas com telhas estruturais?

Bolas! Por Saturno! Todos esses problemas me rondando e um primo aboletado na entrada da chaminé com um fantasma por cima, rindo feito uma hiena. Acho o fim do mundo fantasmas que não se dão ao respeito, sobretudo quando foram reis.

De nada me adianta escrever um livro sobre telhados, se ele não tiver a ousadia dos deuses, e a inventividade de um Jimmy Hendrix. Mexer com a cabeça das pessoas, é essa a idéia! Fazer com que elas pensem e planejem uma nova Praga, uma Praga Cibernética voltada para o futuro, a Woodstock européia que ouvirá, dos seus telhados com isolantes térmicos perfeitos, Jimmy Page e Robert Plant tocando uma nova versão de Kashmir.

Com dizer ao povo de Praga? Que os telhados achatar-se-iam, como se o martelo, a bigorna, e outras ferramenta de Thor, se abatesse sobre eles? Como falar a eles sobre as visões do futuro? E o futuro me acenava em sonhos com telhas de fibrocimento com 4mm de espessura!

O futuro das telhas estava ali, nas minhas horas de sono, quando eu roncava demais e meu bigode deslizava pra dentro da terrina de leite com conhaque, que Švewveøvekve mantinha no canto da lareira...

A fibrocalha com cumeeira ondulada e placa de vedação!!!!!! Quantas noites eu não dormi ronronando: "...a placa de vedação....a placa de vedação....."

Até que, e apesar de estar com “visitas no telhado”, eu tive a brilhante idéia de fazer uma filipetas e panfletos e lançar telhados abaixo, por toda Praga. Não..não era uma boa idéia...Podia vir uma dessas ONGs medievais remanescentes pra torrar minha paciência. Melhor mesmo seria eu fazer uns Manifestos Apócrifos sobre as Placas de Vedação. E esplhá-los pelas carpintarias. Porque ainda por cima tinha o problema da madeireira que financiava o Grande Livro dos Telhados. Caso seu dono, um burguês conservador, meio primata e bronco, soubesse dos meus sonhos com as fibras de vidro, era bem capaz dele cortar o patrocínio e boa parte do dinheiro eu já havia gasto....

Como eu poderia falar então de subcoberturas com barreiras térmicas? E de uma tesoura atravessando um vão livre de 10m?

Sim , seria então por meio de Manifestos. Afinal estava chegando o século 19, e o século 19 foi profícuo em Manifestos. Tudo que eu precisava era de um mimeógrafo à álcool.

— Não me fale em álcool, disse Boleslav, levemente esverdeado.

— É...completou, Švewveøvekve ..não fale em álcool.

— Acontece que eu preciso....

— Šwøk, você não pode fazer essa bagunça em frente a lareira? vociferou Boleslav.

— Eu estou no meu telhado! Protestei com veemência. Oupelo menos no meu pedaço dele.

— E para que você quer imprimir esse troço, brimo? perguntou Švewveøvekve.

— Shhhhhh, disse Boleslav, tapando a boca de Švewveøvekve........Ele é capaz de explicar......

Abanei o rabo:

— Para alimentar as fogueiras de Torquemada!!!!!!!

 


Šwøk é um gato que, desde 1792, quando nasceu, vive nos telhados de Praga, com o fantasma do rei Boleslav II, o Piedoso. Contratado pela mais famosa olaria da cidade, está escrevendo O Grande Livro dos Telhados, do qual este texto faz parte.

e-mail: swok@uol.com.br

O Grande Livro dos Telhados