São Paulo, 13 de setembro de 2005



Liberdade, Liberdade!

 

 

Šwøk

 

Imaginei para este capítulo uma longa explanação, seguida de várias conjecturas, sobre os telhados de ardósia.

Para falar dos telhados de ardósia, preciso antes de mais nada, falar da própria. Das suas micas e dos seus nicóis paralelos. A ardósia, que é uma rocha rudimentar de cor cinza, verde-escuro ou azul-acinzentada, deriva dos folhelhos, e das margas. Ou seja, no princípio eram os folhelhos que se transformaram em ardósias, mesmo que uma pequena dissidência tenha continuado a ser folhelho. Já a marga é um calcário argiloso, abundante no país de Gales. O que fez com que casas e telhados de ardósia, acabassem por abundar pelo citado país. Isso aconteceu pelo processo de clivagem, que se assemelha à das lagartixas. As lagartixas perdem o rabo e cresce outro no lugar daquele que se perdeu. A ardósia se fragmenta e a partir dessa fragmentação crescem outras no lugar. Mineralmente falando, o nome disso é clivagem. Há também o metamorfismo, que vem a ser, em bom tcheco, minha língua natal, a mudança de forma.

O normal é que se usem, hoje em dia, telhas de 7 a 10mm de espessura. Mas, quando eu rascunhei o rascunho do Grande Livros dos Telhados, e não o próprio, as medidas eram bem mais maiores.

Logo no começo do meu estudo sobre a ardósia, me deparei com um problema que realmente me incomodou, aliás dois. O primeiro foi o meu interesse por história e o segundo o maiúsculo interesse de Boleslav pelo carnaval de Veneza. À essa altura já havíamos tido pequenos atritos, como por exemplo o não-reconhecimento da propriedade particular e do usucapião por parte dele. Ou seja: uma vez que a casa não era minha, o seu telhado também não o era, o que lhe dava o direito de dividi-lo comigo, e cantar marchinhas de carnaval enquanto eu dormia. A paciência felina muito me ajudou nesses momentos de crise.

Prosseguindo, cheguei ao ponto cruciante da ardósia, ao saber que ela havia sido abundante na Pomerânia, que como todos sabem fica onde hoje é o litoral da Polônia, e o litoral nordeste da Alemanha. Foi um território invadido por tudo e todos, por Napoleão no que toca à Pomerânia sueca e por Hitler que a encheu de alemães, como se ela não tivesse língua própria, identidade, cultura, nada!!!! Hoje é o Estado de Mecklemburgo-Pomerânia, ao noroeste da Alemanha. É bem verdade que as fronteiras da Alemanha, no século 18 eram uma enorme bagunça e ficava difícil delimitá-las com precisão, mas daí a pegar a Pomerânia daqui e de lá, me pareceu um abuso. Sobretudo porque naquela época, ela pertencia à Suécia.

Entre um pires de leite e uma sardinha crua, entre o cochilo da tarde e os namoricos noturnos, a minha indignação sobre o assunto vinha sempre num crescendo. Tanto que me levou a interromper os estudos sobre a ardósia para pensar em um efetivo protesto sobre tudo aquilo que se passava bem embaixo dos meus bigodes.

Claro que não deixei de anotar a arquitetura gótica da Pomerânia, em tijolos, para futuros estudos. Mas o meu senso de dever cívico, a minha noção de cidadania, as minhas convicções morais me fizeram esquecer a ardósia por semanas, para que eu me dedicasse a protestar contra os abusos de “agarra aqui” e “devolve ali”, de que foi vítima, por milênios, a Pomerânia.

Então, em uma noite razoavelmente fria, eu me aproximei da chaminé e lá fixei o meu cartaz:

 

Boleslav tirou a máscara do rosto, a máscara com que vinha ensaiando as marchinhas de carnaval e perguntou:

— Šwøk, o que vem a ser esse cartaz ?

Achei muito atrevimento. Além de ter de dividir o meu telhado com ele, ainda ia ter de explicar os meus atos???

 

 

 


Šwøk é um gato que, desde 1792, quando nasceu, vive nos telhados de Praga, com o fantasma do rei Boleslav II, o Piedoso. Contratado pela mais famosa olaria da cidade, está escrevendo O Grande Livro dos Telhados, do qual este texto faz parte.

e-mail: swok@uol.com.br

O Grande Livro dos Telhados