São Paulo, 01 de agosto de 2007


Søren Kierkegaard e o engendrador de telhados

 

Šwøk

 

 

Quem inventou o Telhado, propriamente dito? A quem creditar essa importante invenção? Qual a origem etimológica do seu nome? Porque não foi devidamente patenteado? Embora não haja nenhuma pista importante, até o momento, eu acho que tal invenção talvez tenha ocorrido em Atenas pelos eupátridas, ou na Etrúria, no Lácio, ou em Cirene, Eléia, enfim, alguma coisa resvalando por aí. E porque não Odisseus? Tudo é possível, não se deve descartar nenhuma possibilidade. Muito mais tarde viriam os telhados-vivos, onde se plantariam as jabuticabeiras, as aboboreiras, e as melancieiras. E mais tarde ainda viriam as antenas de TV e depois as antenas de TV a cabo, o que é pior ainda, porque a estética das acima citadas é horrorosa.

Eu sei por exemplo, quem inventou o barômetro. Foi Torricelli, um físico italiano. O barômetro se destina a medir a pressão atm...deixa pra lá. Também sei quem inventou a escada com degraus vazados, e quem inventou o telhado de flandres, mas o telhado propriamente dito, nada feito.

Conheço tudo sobre aquele arquiteto renascentista, o Andréa Palladio. Foi um grande projetista das vilas italianas. Nasceu em Pádua, em 1508. Ele atolou os pântanos e transformou-os depois em férteis vindimas. Deu um novo aspecto a pombais, galinheiros, fornos para os pães, modernizou as chaminés. Fez as Vilas Rotondas, com aquelas estatuas medonhas na ponta dos telhados. Muito melhor eram as gárgulas, mas ele pouco se importou com elas.

É o que eu digo: olhe uma planta-baixa dos arquitetos da época. Em 90% delas lá estão as malditas estatuas com uma corneta na boca, para chamar os leões. Ou os camelos.

Sei até quem inventou a cisterna de placa de cimento. Uma monstruosidade, mas enfim, deve ter lá a sua utilidade. Mas fica aquela coisa branca enorme contrastando com a paisagem natural. Estou me atendo ao aspecto estético apenas. Não ao utilitário.

Li Denis Papin de cabo a rabo, e novamente de rabo a cabo. Ele inventou máquinas movidas a pressão atmosférica e a vapor. The New Art of Pumping Water by using Steam foi meu livro de cabeceira durante algum tempo. Denis era francês, ça va.

Observei pessoas fazendo experiências com o alumínio: colocando uma manta desse material debaixo dos seus próprios telhados, atribuindo-lhe — ao alumínio — propriedades de isolante térmico. Nada posso dizer, pos jamais me deitei em telhados com mantas de alumínio. Isso é desvirtuar a aristocracia e sangue azul dos telhados, essa é a verdade. E como eu tenho um certo apreço e admiração por arvores genealógicas, eximi-me de provar tais experimentos.

Boleslav também não quis passear por esses telhados, alegando que sua propriedade imaterial de fantasma e a sua nobreza real de quando era vivo, impendem-no enfaticamente. Além do mais ele se julga um folgazão blasé. No que não deixa de ter razão.

Giron inventou a chaminé de vidro, mais ou menos à época do meu nascimento. A era das chaminés de vidro foi magnífica e merece um estudo à parte.

Conheço bem o candeeiro a petróleo. À sua luz li Diário de um Sedutor, de Kierkegaard. Conheço bem as primitivas lucernas de cerâmica. Li-o no original, em dinamarquês, diga-se de passagem. O que deixou Boleslav um pouco enciumado, ele que julga conhecer tantas línguas e não lê dinamarquês. Já lhe propus algumas aulas tendo por preço módicos pratos de sardinha. Kierkegaard escreveu tal obra baseando-se no jogo dos contrários, e é de uma sutileza e finura encantadoras. Além de ser um apreciador da excelente música, pois escreveu um ensaio sobre a ópera Don Giovanni, de Mozart.

Enfim, estou há dias aqui, infinitos dias de começo de inverno, dormitando ao sol e tiritando à neve noturna, sem encontrar uma mísera resposta sobre o provável inventor dos telhados.

Enfim, estou há dias aqui, infinitos dias de começo de inverno, dormitando ao sol e tiritando à neve noturna, sem encontrar uma mísera resposta sobre o provável inventor dos telhados. E isso me remete a Kierkegaard. Só me resta agora, relê-lo.

 


Šwøk é um gato que, desde 1792, quando nasceu, vive nos telhados de Praga, com o fantasma do rei Boleslav II, o Piedoso. Contratado pela mais famosa olaria da cidade, está escrevendo O Grande Livro dos Telhados, do qual este texto faz parte.

e-mail: swok@uol.com.br

O Grande Livro dos Telhados