São Paulo, 06 de julho de 2008

 


Indignação

Šwøk

 

 


Telhados antigos. Telhados com inclinações absurdas. Edificações austeras, fatores climáticos que dificultam a colocação correta de uma subcobertura. Filme refletor à base de alumínio. Desconforto térmico. Canções italianas. Carmina Burana que um tenor berra às sextas-feiras. Mau manuseio de telhas.

Eu tenho cá pra mim, falando com meus bigodes, que o meu trabalho deveria ser facilitado e não, progressivamente, dificultado. Isso porque o Škoda , o dono da cadeia de olarias que me contratou, a cada dois ou três dias passa por aqui para ver como andam as coisas. Tudo que é feito às pressas, e sem muita meditação em cima, acaba dando errado. Não é possível pensar em telhados, na sua construção, sem conhecer muito bem matemática. E trigonometria, é claro.
Por exemplo aqui está o modelo de um vão entre as verticais da tesoura. De que adiantaria um modelo de cálculo trigonométrico, por exemplo? Um mísero modelo? Se as pessoas que operam a superfície de um telhado, em toda a sua extensão, complexidade e acessórios não conhecerem profundamente a base daquilo com que estão lidando?

E há modelos para as diagonais de tesoura. E eu nem discuto a validade de usá-los. Desde que se entenda o que se está fazendo. Esse é o ponto. Imagine numa licitação, o que dirá o construtor que nada entende de trigonometria? A palavra trigonometria vem do grego: trigonom= triângulo e metrom= medida. A técnica da triangulação não é usada somente nos cantos do telhado. É usada em astronomia também. Sobretudo quando se chega às constelações e àquele céu complicado cheio de estrelas dispostas em diferentes formas de triângulo.

Então, eu, cansado do olho do Škoda por cima dos meus pêlos, respirando abundantemente sobre os meus papéis, me irritei, rabisquei as fórmulas da duplicação do ângulo em um papel de pão que por acaso estava aqui e mostrei a ele, perguntando um tanto quanto asperamente:

— Sabe o que é isso Škoda?

Claro, ele não sabia. Não respondeu nada.

No que eu completei:

— Então, por favor, deixe-me continuar os meus estudos de matemática e trigonometria, sem os quais não consigo escrever O Grande Livro dos Telhados, entendeu? E sem O Grande Livro dos Telhados ninguém conseguirá calcular um cosseno corretamente em um telhado. E murmurei entre dentes: ..a lei dos cossenos é uma extensão do teorema de Pitágoras...

E lá se foi ele, estrada afora, ensimesmado, digamos, cofiando a barbicha, digamos.

(aqui entra foto de Pitágoras)

E eu me lembrei então do velho e bom Pitágoras, com a sua exuberante vida cheia de lendas, preconizadas por uma pitonisa. E, talvez, essas lendas, essas nebulosidades também tenham envolvido Pitágoras em uma vida espiritual..digamos....dissoluta. Não à-toa, a Escola Pitagórica tinha como símbolo o pentagrama. Um pentagrama é obtido traçando-se as diagonais de um pentágono regular pelas intersecções dos segmentos desta diagonal. Sei que eu deveria moderar minha língua e não levantar suspeitas sobre ele, mas...

Bom...telhados antigos....coberturas de alumínio...notas musicais...números figurados...Essas coisas que põem qualquer gato estressado.

Então, antes que eu precise de um lexotan ou algo semelhante, eu vou passear por aí, pelos telhados, assobiando e cantarolando alguma coisa:


La bohème, la bohème
Ça voulait dire tu es jolie
La bohème, la bohème
Et nous vivions de l'air du temps

Oh, Danny Boy!


Šwøk é um gato que, desde 1792, quando nasceu, vive nos telhados de Praga, com o fantasma do rei Boleslav II, o Piedoso. Contratado pela mais famosa olaria da cidade, está escrevendo O Grande Livro dos Telhados, do qual este texto faz parte.

e-mail: swok@uol.com.br

O Grande Livro dos Telhados