São Paulo, 12 de abril de 2004
O guardião
Um telhado não é constituído apenas por quatro colunas com algumas ripas de madeira e um amontoado de telhas em cima. Eles têm também, ainda que duvidem disso, o seu significado oculto. Digo "duvidem", porque o mundo mudou. E gatos vêem coisas que os seres humanos não vêem. Quando vêem, é claro, porque dormimos muito. Mesmo em vigília, com os olhos semicerrados, estamos dormindo. Fomos criados pra isso: para dormir. Para ensinar como se dorme bem. Se fossemos observados durante o sono com a finalidade da imitação, conservando-se, é claro, as devidas distâncias, creio que a terra seria um lugar mais pacífico.
Na sua primitiva maneira de observar e julgar as coisas, crê o homem que a função do telhado é apenas a de protegê-lo contra as variações do tempo e suas sutilezas. Não é. Telhados sempre foram, quer no Ocidente, quer no Oriente, a porta de comunicação espiritual entre o Céu e a Terra. O canal por onde transitam energias e recados. Para não dizer longas cartas.
E a história dos telhados ocidentais e dos orientais acabam sendo uma só, embora com representações diversas, e têm em comum a taipa, a terracota, e seus similares.
Tudo começou com os Deuses, fossem eles de quaisquer nacionalidades.
Um dia, percebeu-se que os Deuses eram mais cheios de proselitismos e rococós, de mesuras e ça vas?, e então a Humanidade, sempre constrangida nas Suas Presenças Celestiais, começou a conversar, mais e melhor, com os semideuses, estes passíveis de derrapadas que os nivelassem ao mais abjeto dos marinheiros turcos embriagado. Entendido então que às vezes comportavam-se como humanos, tinham a capacidade de lidar com os humanos com mais paciência.
Em geral os semideuses não tinham representação antropomórfica, e assim sendo cada um foi esculpindo-os como bem lhe aprouve o espírito. Inclusive estudos recentes apontam para o fato de que no começo dos tempos não havia ainda óculos e oculistas, o que pode ter influenciado a maneira como os semideuses foram retratados.
Havia entre homens de diferentes civilizações, e distâncias geográficas, o espírito do Guardião da Casa, que vinha a ser um semideus responsável pela guarda da construção, fosse ela residência ou edifício público. E para que a guarda da residência fosse mais fácil, o Guardião resolveu subir aos telhados das mesmas, para avistar com maior precisão e acuidade a aproximação do inimigo.
Data dessa época, não me perguntem a data exata porque gatos nunca foram bons em matemática, as esfinges aladas, as quimeras, os faunos, as gárgulas, os grifos, os centauros, as hárpias, etc. E todos eles, mal eram esculpidos, eram também empoleirados nas esquinas dos telhados. Precisamente, nos algerozes.
Como os antigos precisavam da água das chuvas, estas eram rudimentarmente canalizadas através de caleiras. Dái acharam por bem colocar nas esquinas dos telhados horrendas gárgulas, que fariam as vezes dos modernos canos de pvc de hoje. Inclusive uma das mais famosas e medonhas, está lá, no alto da catedral de Nossa Senhora de Paris, que inspirou Victor Hugo. Além de se precisar da água das chuvas, tinha de se evitar que ela, a água, escorresse rente às construções, pois poderia infiltrar-se pelo solo e dissolver as argamassas, e assim colocar em risco a casa inteira. Mataram dois coelhos em uma só cajadada: espantava-se os maus espíritos e evitava-se que as edificações ruíssem.
Claro que havia aí o problema da inclinação dos telhados. Caso não se começasse a inclinar telhados absurdamente, como aqui em Praga, as coisas teriam sido diferentes.
Observem que na China, por exemplo, os telhados seguiram uma outra história. Enquanto aqui, os telhados inclinaram-se para baixo, lá começaram a ter formas arredondadas com bicos virados para cima, deixando a inclinação para baixo apenas para os telhados dos templos e, principalmente, pagodes. O estilo chinês, com formas retangulares, que representam a Terra, e com formas arredondadas, que representam o Céu, também com telhas arredondadas, foram mais propícios a passeios felinos. Embora os telhados de terracota com as pontas viradas para cima, tenham-nos parecido, à primeira vista, um pouco soberbos com os seus narizes empinados.
Esse capítulo me fez considerar que ocidentais e orientais têm diferentes visões sobre gatos. E que relacionaram-se com gatos, ao longo da vida, de diferentes formas. Razão pela qual ganhamos de uns os telhados inclinados e de outros os de bicos arredondados.
Šwøk é um gato que, desde 1792, quando nasceu, vive nos telhados de Praga, com o fantasma do rei Boleslav II, o Piedoso. Contratado pela mais famosa olaria da cidade, está escrevendo O Grande Livro dos Telhados, do qual este texto faz parte.
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