São Paulo, 19 de julho de 2005

 

O Enxaimel

 


Šwøk

 

 

Os alemães descobriram o enxaimel, que vem a ser as grossas estacas que, juntamente com as varas, deram origem aos engradados das paredes de taipa. Foi uma técnica desenvolvida entre as guerras feudais e antes delas, quando os vikings, mesmo um pouco desprestigiados, ainda perambulavam pela região, e o deus deles, Odin, não era brincadeira. Tratava-se do mais forte dos deuses do panteão das sociedades da terra e estava disposto a enfrentar qualquer intempérie da natureza. Além disso, sussurrava coisas aos teutônicos quando estes dormiam que fazia com que acordassem em estado de absoluta criatividade. Então um dia, acabaram-se os pregos e o martelo de Thor foi parar sabe-se lá em qual gaveta. Não havia outra alternativa: as famílias cresciam, o inverno aproximava-se e mais uma casa teria de ser erguida nos verdejantes vales e florestas.

Os alemães então, começaram a cortar a madeira de um modo diferente: isso fazia com que aquelas grandes toras formassem pinos e encaixes, que dispensavam pregos. Quando necessário surgiam então os pregos de madeira.

Os barrotes passaram a medir 20cmx20cm.

O barrote é aquela peça onde se pregam as tábuas dos tetos e dos assoalhos também. Fizeram uma bagunça com as cumeeiras. Inclinações com mais de 45° e com menos também. Sempre fui contra isso, porque a padronização me parece o meio mais eficiente para que gatos andem pelos telhados sem ser obrigados a, freqüentemente, fazer uma investigação profunda antes de se aventurarem pelas noites frias e pelas mais ou menos frias.

Mas como os italianos já haviam desenvolvido o método do lanternins, que vem a ser um telhado sobreposto nas cumeeiras para que haja uma perfeita ventilação das áreas internas. Isso permitiu então que o telhado propriamente dito desenvolvesse essa inclinação enorme que vejo daqui deste telhado, não tão inclinado.

Convém ressaltar que a utilização dos lanternins pelos germânicos foi um dos motivos que os levou, em todos os futuros, a sonhar e procurar a Itália como a terra dos seus sonhos. A terra onde floriam os limoeiros no dizer de um poeta bêbado que, certa vez, deu de fazer versos aqui embaixo do meu telhado.

Enxaimel quer dizer “enchimento”. Quer dizer que, uma vez montado o quebra-cabeças de toras cortadas em formato de pino, só restava mesmo arrumar aquilo tudo e depois encher de taipa e tijolo que – olhem só! – eles mesmo cozinhavam nos fogões a lenha das antigas casas. A palavra em alemão é Fachwerk.

Quando eu fazia essas anotações tomando um toddy quente, Boleslava, cujo grande trauma que trazia da época em que fora rei – segundo ele, ser um fantasma é muito mais agradável – era o de nunca poder dançar e cantar em público, adaptou uma velha canção dos Urais e adjacências para me acompanhar.

Gatos têm ouvidos sensíveis, mas não se incomodam com isso. A afinação ou desafinação humana e sobrenatural, pouco nos incomoda. Não fazemos questão de amplificadores quadrifônicos nem de marcas caras de som. Qualquer copo de cerveja quente e uma meia-lua no céu nos bastam.

Ja, das ist die Fachwerk, Polka mein Schatz!
Polka mein Schatz! Polka mein Schatz!

E quando Boleslav cantava o trecho “polka mein Schatz”, havia em sua voz um estremecimento de prazer. Nunca soube se por ser uma letra adaptada por ele, ou se por ele poder gozar da liberdade que nos foi dada pelo Senhor dos Universos.

 

 

 

Šwøk é um gato que, desde 1792, quando nasceu, vive nos telhados de Praga, com o fantasma do rei Boleslav II, o Piedoso. Contratado pela mais famosa olaria da cidade, está escrevendo O Grande Livro dos Telhados, do qual este texto faz parte.

e-mail: swok@uol.com.br

O Grande Livro dos Telhados