São Paulo, 23 de fevereiro de 2004
Da origem
" Por isso mesmo o acento desaparece, a articulação estende-se, a língua torna-se mais exata, mais clara, porém mais arrastada, mais surda e mais fria".
Jean-Jacques Rousseau
— Ensaio Sobre a Origem das Línguas —
capítulo V
Presume-se que as línguas européias tenham nascido, mais ou menos há 9.324 anos a.C., na Anatólia, quando dois anatólios discutiam o preço do damasco seco em uma feira. Já havia entre eles uma comunicação, mesmo que restrita, que se dava através do proto-indo-europeu, que lhes permitia trocar alhos por bugalhos e vice-versa. A anotação dos preços era pictórica. E repousava em pequenas plaquetas de barro e madeira, tais como faziam os fenícios, um povo bem mais acelerado e estressado, que saía comprando e vendendo tudo que via, e por onde passava deixava seus sinais em muros, paredes, árvores, bigas, juncos. E que são, sem dúvida, os precursores dos grafiteiros.Naquela tarde que surpreendeu os dois anatólios, e suas exageradas gesticulações, sobre os cestos de damascos e tâmaras, nasceram as línguas européias cognatas.
E uma vez que falava-se, era necessário que se traduzisse os sons, de tal forma que os olhos ao depararem com uma coisa estranha, a identificasse como um som de uma sílaba. Dessa necessidade e na cálida tarde de damascos, anatólios e turcos, nasceu a predecessora das escritas cuneiforme, sumeriana, socrática, sânscrita, etc.
Enquanto isso, quilômetros além dali, os chineses achavam outras formas de representação dos sons, em tudo diferente da concepção ocidental dos sons, bem mais sutis e poéticas, que perdurou dinastias e madarinatos, e perpetuou-se em sedas e porcelanas, além da TM dos importados de agora. Somente com o advento da Coca-Cola, e posteriormente do McDonald's, o império de Catahy estreitou laços com o nosso alfabeto, e mesmo assim com reservas.
A escrita pictográfica chinesa, como tudo o mais na China, é uma longa e circular abstração sobre o tempo, dividida nas quatro estações do ano e cada vez mais adicionando novos sinais que representem outras coisas. Tudo que é escrito na China existe sem conexão com o que é falado. Ler um poema em mandarim é diferente do poema propriamente dito.
Como isso tudo, a formação das diferentes línguas, levou milhares de anos a ser construída. Quero crer que meus antepassados, do alto dos seus telhados e latas de lixo, tenham ouvido várias imprecações em línguas ugro-finesas, toda sorte de paixões em osco, úmbrio e sabélico, vinganças terríveis em gaélico e cândidos tratados de duradoura paz em línguas germânicas e balto-eslavas.
Séculos depois, Noam Chomsky escreveu sobre os princípios universais comuns a todas as línguas, que, segundo ele, são pequenos gens herdados por todos.
Nada disso deveria ter muita importância para mim, enquanto gato. A não ser pelo fato de eu possuir no nome uma letra tcheca: Š e outra dinamarquesa: ø. A tcheca explica-se, uma vez que nasci em Praga. Mas a dinamarquesa? Pode ser um pitoresco erro do tabelião que lavrou a minha certidão de nascimento. Cuja assinatura, aliás, ficou ilegível e cujo nome eu não sei. Cuja assinatura, aliás, ficou ilegível e cujo nome eu não sei.
E antes que alguém me pergunte porque chamo Šwøk: eu não sei. Mas é um belo nome.
Šwøk é um gato que, desde 1792, quando nasceu, vive nos telhados de Praga, com o fantasma do rei Boleslav II, o Piedoso. Contratado pela mais famosa olaria da cidade, está escrevendo O Grande Livro dos Telhados, do qual este texto faz parte.
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