São Paulo, 16 de agosto de 2004
Complexos convectivos de mesoescala
"Tudo no mundo são grandes espaços,
ocupados e desocupados,
sobretudo os telhados".
© Šwøk. 1796, Praga.
Deixe-me recordar do meu primeiro encontro com Boleslav. Quando com as palavras acima, fechei o meu austero começo de tratado, tão logo o fantasma de Boleslav II postou-se sobre a chaminé. Era uma noite clara, fina e fria. Imprópria para miados de gatos ordinários, como eu, e mesmo para um suave ronronar de gatos mais sofisticados. Passei pela fresta da água-furtada que dava acesso ao telhado e olhei-o com meus olhos felinos. Ele cumprimentou-me com um esfuziante: - êêê........e depois fez um demorado kutxo, kutxo, kutxo na minha cabeça.
— Sou o fantasma de Boleslav II, o Piedoso, apresentou-se.
Foi a partir desse dia que ele passou a me contar parte da sua história, que só se somaria à minha decisão definitiva de escrever o Grande Livro dos Telhados, quando aparecesse o dono da olaria na minha vida. Mas antes de contar a sua história, ele apontou para as minhas patas:
— Estão sujas de tintas. Você escreve?
Tive de dizer que sim. Porque um gato se sujaria de tinta? Porque derrubou o tinteiro da dona? Gatos de telhados de Praga, na fronteira entre Ocidente e Oriente não têm donas. E assim foi comigo, até séculos mais tarde, quando apaixonei-me por uma mulher..eu sei, eu sei... Felinos têm de se apaixonar por gatas, no máximo por jaguatiricas, mas que se há-de fazer? O meu coração não me permite grandes acessos de lógica nessas horas. Voltando a Boleslav. Expliquei-lhe que estava empenhado em um pequeno estudo, por falta de termo mais adequado, sobre os complexos da mesoescala. Evitei os convectivos, para não piorar as coisas, mas de nada adiantou. Boleslav arregalou seus fantasmagóricos olhos por cima das olheiras e perguntou, mais que depressa, o que vinha a ser isso.
Detesto gente intrometida, pensei, mas tive de lhe contar, dada sua simpatia:
Quando várias trovões transformam-se em trovoada e estas desabam sobre uma região, em uníssono e estrondosamente, temos aí zonas de convecções. Que, por menores que sejam, acabam abalando o sistema atmosférico. O seu eco perpetua-se por horas, duplicando-se a cada sistema vazio, e gerando assim um novo eco que por sua vez duplica-se, ou até mesmo quadruplica-se, indefinidamente, produzindo a mesoescala em oposição à micro-escala. Esses complexos convectivos são os responsáveis pelos tufões, os tornados, as grandes tormentas, que apesar de serem mais freqüentes na Zona de Convergência Intertropical, não esquecem desta linha divisória onde moro. (e agora ele, pensei..mas pra quem já morou com um radar e com uma chaleira, morar com o fantasma de um rei é uma honra). Esta zona intertropical, que fica lá longe, não aqui, costuma oscilar sazonalmente, 12ºN em alguns meses e em outros 4oS. Ou seja, nem tudo no mundo é Equador e suas tórridas torrentes, e nem tudo é faixa equatorial com ventos alísios, e nem tudo é um enorme e descontrolado vórtice ciclônico. Temos as nossas próprias massas de ar, e passamos, às vezes incólumes, pela força gravitacional dos astros que move a parte líquida da Terra. E talvez, os nossos milibares sejam diferentes dos milibares do resto da Terra, por estarmos em uma zona de divisão. Um milibar, que como Vossa Magnanimidade deve saber, mede a pressão atmosférica do ar, é igual a 0,750m normais de mercúrio ou 100 newtons por metro quadrado no mundo inteiro. Mas não aqui...Aqui há uma pequena variante...Pude constatar essa variante.
— E você está escrevendo sobre isso? perguntou-me ele, Boleslav.
Dei um longo bocejo, dobrei o corpo em direção às telhas e espreguicei. Claro que estava. A pergunta era tão inútil que não merecia resposta.
— Se um gato, ou um físico, ou ambos, descobrem um lugar até então desapercebido como produtor de fenômenos naturais e sobrenaturais (e quando disse sobrenaturais, olhei de soslaio para ele), é seu estrito dever registrar o que ele vê acontecer.
— Vê? indagou o fantasma do Rei, agora posicionado nas minhas telhas, com as pernas cruzadas.
A pergunta me desanimou ao máximo. Se um Rei, um piedoso rei, não alcançava as minhas anotações, que dizer então do resto do mundo?
— Olha aqui, eu lhe disse, dando uma risadinha sarcástica, e entregando-lhe meu bloco de anotações, onde se lia: Advanced Very High Resolution Radiometer - sensor primário dos satélites de órbita polar, com canais VIS, IV, Infravermelho Próximo.
— Puxa, ele exclamou! Eu tive um desses! Posso jurar que era o mesmo! Que saudade do meu Advanced Very High! e derrubou uma lágrima.
Tirei o bloco de anotações da mão dele e resolvi abrandar a conversa, já que ele parecia disposto a passar a noite ali mesmo, e pior, agora comovido com a lembrança do Advanced:
— Eu sugiro um chá lá embaixo que aqui está muito frio. Depois a gente continua.
— Ótimo! ele respondeu, esfregando as luvas de lã uma na outra, e tirou um charuto cubano do casaco.
— Desça primeiro você, eu lhe falei.
— Pela água-furtada?
— Não. Pela chaminé. Já estamos aqui mesmo.
— Ok, ele disse, e deslizou chaminé adentro.
Nesse momento eu descobri que fantasmas de reis simpáticos são tão maleáveis fisicamente quanto gatos.
Šwøk é um gato que, desde 1792, quando nasceu, vive nos telhados de Praga, com o fantasma do rei Boleslav II, o Piedoso. Contratado pela mais famosa olaria da cidade, está escrevendo O Grande Livro dos Telhados, do qual este texto faz parte.
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