São Paulo, 08 de março de 2004


Apontamentos sobre o desenvolvimento das telhas

 

 

Šwøk




É preciso notar que telhados, por mais simples que pareçam ser, e de qual cobertura sejam feitos, não são coisas aleatórias, com pedaços de barro cozidos chamados telhas, atirados ao deus-dará.

O melhor método de cozimento, nos foi trazido da Índia, do vale do Hindus, na região que é hoje o Paquistão. Esse é um dado que muitos ignoram, mas que consta no diário das olarias mais sofisticadas. Para que se construa telhados, é preciso antes, que se faça um suporte para as telhas. Esse suporte, também complexo e quase sempre acompanhado de parafusos e pregos, em larga escala e tamanho, chama-se madeiramento. Deve-se ao fato de ser construído em madeira o que faz com que donos de olarias, madeireiras e serrarias tenham entre si, cordiais relações, uma vez sempre vão esbarrar, comercialmente falando, uns nos outros, às vezes debaixo do mesmo teto. Embora o trabalho de juntar madeiras e telhas formando o espaço físico denominado telhado, pertença a um terceiro profissional, orientado por um quarto que, por sua vez, obedece à uma folha de papel cheia de linhas, traçada por um desenhista chamado engenheiro civil que o submeteu antes a um outro, chamado engenheiro calculista. Como é possível perceber, na confecção dos telhados há uma certa complexidade e trânsito das mais variadas pessoas.

Esta é a simplificação de como se desenvolveram os telhados. No começo dos tempos, quando ouvia-se uma ópera de Wagner e um osso era atirado ao infinito, telhados eram apenas paredes internas superiores de cavernas, e foi olhando-as que o homem teve a boa idéia de construí-los. Os primeiros eram feitos de pedras mesmo, para manter a fidelidade ao modelo. Mas como o homem é, por natureza, infiel e polígamo, logo esqueceu as pedras e foi em busca de outros materiais, inclusive mais lisos, que deixassem a água da chuva escorregar sem bruscos desvios formados por saliências. E que produzissem um plic ploc nas noites de chuva.

Mas aí esbarrou-se no primeiro problema: como fazer com que o madeiramento resistisse às grandes águas? Muito simples: escolheu-se a peroba, que é uma madeira mais resistente ao apodrecimento. Com o passar do tempo, as serrarias, premidas pela globalização e exagerado consumismo, passaram a fabricar bitolas já padronizadas e prontas para consumo, que medem 3 x 12 cm, 6 x 12 cm, 6x 16 cm. Já o comprimento é outro assunto. Entra-se na serraria, escolhe-se a bitola e o depois o comprimento.

Apresentação dos elementos componentes dos telhados, sem fatores matemáticos que os inibam:

Falarei de cada um deles separadamente, nos próximos capítulos.

O telhado se divide em : madeiramento e cobertura.

Madeiramento: Armação
Trama

Armação: Cantoneiras
Escoras
Meia-tesouras
Tesouras

As 4 possuem: peças: 3x12, 6x12, 6x16. Centímetros.

Trama: Terças: terças propriamente ditas, frechais, cumeeiras.
Ripas
Caibros
(peças: 6x12 e 6x16)

Cobertura:

Telhas de Barro

Vou me abster de falar de outro tipos de telhados, como de zinco, amianto, etc, porque fui criado em telhados de barro com os melhores feitios das redondezas. Sempre freqüentei telhas de grife, diga-se de passagem. Quando nós, gatos, nos deitamos sobre elas, já sabemos de antemão como foram feitas e por quem. Tenho uma teoria que o primeiro oleiro que existiu no mundo era aparentado com gatos. Razão pela qual algumas telhas, a paulista por exemplo, foram tão bem projetadas para nos abrigar. Foi observando o movimento dos gatos se espreguiçando e deitando que o primeiro oleiro da História, criou essas telhas côncavas. Há algumas teses que podem me contradizer, e alguns engenheiros também podem se insurgir com o que escrevo. Mas o que são teses e engenheiros neste mundo cá em cima?

 

 


Šwøk é um gato que, desde 1792, quando nasceu, vive nos telhados de Praga, com o fantasma do rei Boleslav II, o Piedoso. Contratado pela mais famosa olaria da cidade, está escrevendo O Grande Livro dos Telhados, do qual este texto faz parte.

e-mail: swok@uol.com.br

O Grande Livro dos Telhados