São Paulo, 27 de setembro de 2004
![]()
A surpreendente anemometria dos telhados
Uma das minhas melhores e mais importantes descobertas foi a proporção entre calha e telhado. Para cada metro cúbico de telhado é importante ter um centímetro cúbico de calha. Esse cálculo foi feito em um dia em que me deparei com uma questão controversa e metafísica: e se porventura a física viesse a falhar? E se, um dia qualquer, a água das chuvas despejadas nos telhados não corresse para baixo e não caísse pelas horrendas bocas das gárgulas? O que aconteceria então? Seríamos todos obrigados a abandonar os telhados? Ou ficaríamos na cumeeira esperando que algum fenômeno bíblico ocorresse e nos livrasse do terror das águas?Ante a possibilidade de ficar na cumeeira esperando qualquer tipo de auxílio, mesmo os mais estapafúrdios, para lá fui afim de treinar como seria esse dia. Detesto ser pego de surpresa.
Esta eu lá sentando, à mercê dos meus pensamentos, quando de repente um vento estapafúrdio despentou-me os pêlos da cabeça. Me dei conta então que estava no vetor do mais importante centro de energia eólica de Praga. Dispus-me imediatamente a estudar a função do vento na confecção dos telhados.
Comecei por fazer uma pequena e modesta rota-dos-ventos. Não, não é rosa, é rota mesmo. Porque tão logo um desses ventos malucos batesse nela e girasse as suas pás, eu ficaria sabendo se era um vento de vinha da esquerda ou da direita. Deu uma trabalheira de semanas e finalmente ficou pronta. Tinha seis pás a minha rota-dos-ventos. Tomei o cuidado de registrá-la, e assim protegê-la das más intenções. À minha disposição, no caso de roubo intelectual, estava então o Código de Propriedade das Invenções, inserido no Código Penal da República Tcheca.
Passei um bom tempo anotando ventos e suas repercussões estéticas e físicas. Inclusive mantive um intercambio epistolar com a University of Loughborough, na Inglaterra, para valiosa troca de informações. Cheguei inclusive a fazer um curso de matemática por correspondência, da mencionada universidade que me permitiu então, dividir o telhado em metros cúbicos e as calhas em centímetros cúbicos, adaptando as primeiras às segundas e vice-versa.
Claro que isso não resolveria o problema do desaparecimento das Leis da Física, caso isso viesse mesmo a ocorrer. Na iminência de tal problema teríamos mesmo é de sair em disparada telhado abaixo, procurando um lugar seguro onde se abrigar até que o Universo entrasse nos eixos novamente, e deixasse de lado essa sua maluquice.
Nesse meio tempo fiquei sabendo que os ventos que passavam pela cumeeira, vinham de vários lugares, inclusive do Norte do África, como era o caso do Passat, que é um vento alísio de caráter permanente que cruza a Europa de leste para oeste. Ou do Sirocco, que vem do Saara. Inicialmente programado para chegar apenas até Itália e Espanha, sabe-se lá porquê acabaram dando com os costados aqui em Praga. A variação absurda das temperaturas nos desertos cria essas canalizações.
Fiz uma primeira classificação dos ventos, subdividindo-os em perigosos e não perigosos, de acordo com sua potência e velocidade. Um gato mal equilibrado numa cumeeira, quando o Universo esquece-se de fazer fluir as águas, violentamente atingido por um vento perigoso, pode cair.
Foi pensando nisso que me pus em profunda meditação, até que Boleslav, com sua nova fantasia de Peixe do Alto Mondego, me tirou dos devaneios:
— Šwøk, porque você não sai mais daí?
— Você tem uma escova de cabelos na sua frasqueira veneziana, pra me emprestar?
— Tenho, está aqui. Mas acho melhor você sair daí senão não adiantar se pentear.
Concordei. Gatos às vezes concordam com seres humanos e com fantasmas.
Šwøk é um gato que, desde 1792, quando nasceu, vive nos telhados de Praga, com o fantasma do rei Boleslav II, o Piedoso. Contratado pela mais famosa olaria da cidade, está escrevendo O Grande Livro dos Telhados, do qual este texto faz parte.
e-mail: swok@uol.com.br