Foi num dia em que eu peguei régua e papel canson para desenhar uma série de beirais com os quais havia sonhado. Eu estava no capítulo da Guia para os Ripamentos, que é um assunto complicadíssimo. Precisamente o rebaixe para encaixe na ripa superior. Ocorria-me que talvez fossem enfadonhas as minhas anotações sobre os rebaixes. Eu já havia lançado o opúsculo: Termites and the historic buildings, editado pelo dono da madeireira, e que tinha alcançado um razoável sucesso de vendas no mercado negro de Praga. E nessa pequena obra, eu escrevi muito sobre os rebaixes. E também sobre os ripamentos das paredes-de-mão bem como sobre taipas-de-mão. E também alertei a todos os construtores da necessidade de se usar madeiramento de primeira para evitar a proliferação de fungos xilófilos e suas fatídicas conseqüências. Então me parecia quase um contra-senso repetir todas as anotações sobre o rebaixe.
By the way, deixo aqui uma pequena formula matemática, muito em voga então, para a utilização da obtenção da distância correta entre duas ripas. É só multiplicá-la pela largura da ripa. E fazer o encaixe justamente nessa distância, cujo nome científico é distância bitolada. Nos pequenos e baixos telhados, onde abundam paredes e faltam colunas, é recomendável que se use o dobro do peso da madeira para fazer o encaixe. Já nos grandes, onde as colunas e ripas são mais salientes do que paredes e meias-paredes, o resultado obtido não deve ser alterado. Esse é o ponto mais importante.
E o mais fácil. Porque há inquietantes operações matemáticas. Como a verificação da flecha da tesoura, que envolve a carga atuante do nó, módulo de elasticidade e área da seção transversal da barra, entre outras coisas. Para não falar no dimensionamento de pilares e ligações. E o dimensionamento dos caibros e terças, mesmo sendo terças de treliça, o que parece mais complicado, mas não é. Mas tem as terças primárias, intermediárias, et coetera.
A estrutura de madeira propriamente dita tem de ser pensada de uma maneira muito diferente da estrutura pétrea, ou metálica. Porque a água escorrendo sobre ela sem vazão, dilata-a e encolhe-a. E mesmo com vazão. Conseqüentemente, sem os malfadados milímetros a mais ou a menos, corre-se o risco de danificar e comprometer todo o trabalho de edificação dos telhados, colaborando para que a conexão de apoio de treliça fique curva. Sobretudo em Praga, onde eles deslizam absurda e verticalmente sobre a cidade.
O mal-feito tensionamento das composições parafusadas sempre pode acarretar um acúmulo híbrido de pó e xilos.
Pensando sobre tudo isso, sobre o opúsculo pirata que circulou por Praga e sobre a filosofia das estruturas de madeira, achei melhor apenas deixar o desenho do encaixe do rebaixo na parte superior, sem maiores explicações:
Só que não é possível decidir-se por um determinado material ou mesmo por uma determinada inclinação do telhado, sem antes filosofar sobre isso. Percebo pessoas que optam por isto ou aquilo, e que não levam em consideração as suas reais necessidades ou as suas condições de adaptação. Pessoas não são os adaptáveis felinos que acomodam-se em qualquer lugar, dormem onde houver alturas a serem exploradas e comem o que lhes for colocado no prato. Pessoas são complexas, dormem pouco, sofrem de insônia, têm vida sexual irregular, e são neurastênicas. Por isso, bem fariam elas se pusessem-se a meditar sobre o porquê dos seus telhados e caibros. Pelo menos isso. Para poderem ficar confortavelmente instalados debaixo deles.
Resolvido este problema do Rebaixo, reparei que Boleslav II, o fantasma do rei que ia passar o carnaval em Veneza, estava olhando para mim e segurando um papel nas mãos:
— Acho que é para você, Šwøk. Acabo de pegar na caixa de correio.
Olhei atentamente o pequeno envelope pardo:
— É para mim. O meu primo Švewveøvekve, de Budapeste, vem passar uns dias aqui.
— Vem nos visitar?
— Não, Boleslav, a mim apenas, ele nem sabe que você existe...
— Mas eu não existo mesmo!!!!!
— E como você está aqui, no MEU telhado, a visita vai estender-se a você também. Já que eu perdi a minha privacidade porque você...
— Swok...você quer leite com sequilhos?
— Schlep, schlep, schlep.....
Seres humanos também mercadejam com os seus sentimentos.
Šwøk é um gato que, desde 1792, quando nasceu, vive nos telhados de Praga, com o fantasma do rei Boleslav II, o Piedoso. Contratado pela mais famosa olaria da cidade, está escrevendo O Grande Livro dos Telhados, do qual este texto faz parte.
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