São Paulo, 06 de novembro de 2006
A falta da Tabebuia
Certa noite, em uma das tabernas de Praga, uma conversa me chamou a atenção. Tratava-se de um homem dos seus 50 anos, mais ou menos, magro, e com uma verruga na testa, no lado direito. Ela falava sobre a necessidade da denominação universal das plantas, pois uma flor não pode se chamar rosae em latim, rose em inglês e fredinstroptoere em búlgaro. Quer dizer, pode, mas ficaria tudo muito confuso. Então assim, como os números e notas musicais, deveriam ter uma única forma de serem designadas. E aí, ele pôs-se a falar sobre o Ipê. O roxo, o branco, e o amarelo. Fiquei fascinado.
Originárias das florestas pluviais subtropicais, são plantas decíduas e heliófitas. Suas raízes são axiais, fanerocotiledonares e epigéias. O hipocótilo e o epicótilo são de um verde insano e desproporcional. Somente os habitantes das referidas florestas poderiam seccionar seus galhos para ver de perto os cotilédones.
Fiquei então pensando que a plantação de tais árvores pelas cidades geladas da Europa, poderia resultar em um colorido especial durante a sua floração. Isso significa que, quando suas flores caíssem, no outono, elas cairiam por sobre os telhados, contrastando seu viço com aquela cor de fuligem. Além do que, eu poderia dormir em uma cama amarela. No caso dos cryzotricha que são amarelos, porque os avellanadae são roxos. O homem ainda falou do xilema endarco, ilustrando as suas explicações em um papel de pão.
Saí da taberna pensando em que tipo de telhado ficaria bem debaixo das poéticas flores amarelas?
Claro, um telhado vivo, extensivo e com drenagem adequada. E suficientemente forte para ficar à prova dos subsistemas hidrometeóricos. Claro que ocorreria uma maior absorção da radiação solar e transformação do CO2 em O2 pela fotossíntese e filtragem do ar, transformando assim telhados úmidos em telhados sub-úmidos. Mas aí lembrei-me, e esse é o dado de maior importância, a idéia é as flores caírem sobre o telhado e não plantar uma árvore em cima dele.
Sibipiruba
(eu não tenho foto de ipê)E o telhado precisa ser de duas águas. Ou mais. Ia ficar muito bonito em um telhado que tivesse a água-furtada, a cumeeira e o espigão. E por baixo aquelas vigas de 6X24, por exemplo, em madeira nobre. Algumas flores caindo pelo pendural, pela empena e pela diagonal. Umas tantas outras pelas terças e pelos caibros.
Uma coisa a ser destacada: quando fazemos as calhas, as canaletas, devemos considerar o índice pluviométrico que deve cair sobre o telhado. Como? Bom, depois de muito meditar sobre esse índice e depois de vários experimentos cheguei à conclusão que o ideal é : 0,52 litros por segundo por metro quadrado.
Pressupondo-se que a maioria dos telhados possui telhas francesas e que a inclinação é muito grande, melhor sempre determinar os pontos de descida da água com absoluta precisão. E tirar o excesso de flores de lá para que não entupa a calha. Praga tem o absurdo de 8 litros de declividade por segundo, mas eu já expliquei o porquê.
Mas, que fique bem claro que telha é telha e calha é calha e em momento algum uma pode invadir o espaço da outra.
É claro que há gatos alérgicos ao pólen das flores, mas a estes minha orientação é que não durmam em telhados floridos. Se bem que o risco de alergia é sempre menor do que acidentes com pregos galvanizados esquecidos pelos beirais.
E também tem o problema de fantasmas, claro. Boleslav, que anda fazendo duras críticas ao Castelo de Praga e seus telhados ia achar uma frescura esse negócio de flores.
Gatos têm apurado senso estético, é isso. Fantasmas não.
Bibliografia
LORENZI, H. (1999) Plantas ornamentais no Brasil: arbustivas, herbáceas e trepadeiras. Instituto Plantarum, São Paulo.
Šwøk é um gato que, desde 1792, quando nasceu, vive nos telhados de Praga, com o fantasma do rei Boleslav II, o Piedoso. Contratado pela mais famosa olaria da cidade, está escrevendo O Grande Livro dos Telhados, do qual este texto faz parte.
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