São Paulo, 22 de novembro de 2004
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A Constante Solar
Durante algum tempo, deitado ali, naquele e em outros telhados, observei que a energia solar se propaga em ondas. E que incide diretamente sobre uma superfície. Ou seja, pouco antes de incidir, ela deixa de ser uma onda e se torna uma reta. Esse é o ponto. Claro que eu sabia que futuramente, isto é, hoje, essa coisa toda seria medida por satélites, e equivaleria a 1350 w/m2 (kilowats por metro quadrado). Gatos são intuitivos por natureza. E tornam-se excepcionalmente ariscos quando alguém coloca a sua intuitividade em xeque.Cumpre ainda registrar que naquela época não existiam ainda os Boilers de Nível e os termossifões. Mas já existiam os hidrocarbonos. Não com esse nome, mas existiam.
A constante solar só me interessou como objeto de estudo e apontamentos filosóficos, uma vez que a luz do sol vem diretamente do céu para os telhados, não utilizando-se de filtros. Isso me fez comprar um óculos escuro, que, posteriormente, foi utilizado em um outro gato, no famoso filme Az Prijde Kocour, que ganhou o título de Um dia, um gato. Nesse suspeitíssimo filme, há um gato que desnuda os sentimentos das pessoas. Serei eu???
Bom, comprados os óculos, lá fui eu estudar as ondas da energia solar. Isso demorou porque gatos são muitos sensíveis à luz do sol, direta ou indireta e a mesma causa-nos uma imediata sonolência, só aplacada depois de um rápido cochilo. Justamente essa intensidade que nos causa essa dormência, é que a chamada constante solar.
Vivíamos então, na Terra, o período astronomicamente chamado de “Mínimo de Maunder”. Ou seja, quando o Sol passou por um longo período sem produzir manchas.
Observem que a constante solar no seu ápice, ou seja, nos dias em quem o Sol mais se esforça para cobrir de amarelo a terra, a Terra comporta-se em ondas, exatamente como os seus raios. Isso quer dizer que a madeira, quando atingida por numerosos raios de um determinado equinócio, pode soltar-se ou mesmo ficar ondulada. O mesmo acontece com o barro, o adobe, etc.
Percebi um bafejar atrás de mim:
— Deve ser por isso que fizeram as telhas onduladas, as telhas com reentrâncias, porque eu acho que podia-se deixar tudo liso, anatomicamente falan...
Tirei o óculos devagar e encarei Boleslav com os olhos apertados:
— Miau.
E pus o óculos de novo, e voltei a mexer nos meus papéis.
— Não seja mal-humorado, Šwøk.
— Não sou mal-humorado. Está na cara que as telhas onduladas escoam água.
— As lisas também. Ou você imagina que se todas as telhas fossem lisas a água ia ficar lá paradona?
— Vem cá, Boleslav, porque você não fez um telhado com telhas lisas quando era rei?
— Porque o assunto não me ocorreu na época.
— Mas já que ocorre agora, tente segredar no ouvido do oleiro, quem sabe ele faz.
— Não posso, Šwøk. Prometi “lá em cima” que não ia assombrar ninguém. E tem mais o se...
— Ór-bi-ta-e-líp-ti-ca-do-sol...
— Gato mal-educado! Eu vou dormir.
Esse é o problema da terra de ninguém. Temos de dividir os espaços vazios com qualquer pessoa. Os sóis, as luas, os meses, os sequilhos, os cochilos, fica tudo comprometido.
Šwøk é um gato que, desde 1792, quando nasceu, vive nos telhados de Praga, com o fantasma do rei Boleslav II, o Piedoso. Contratado pela mais famosa olaria da cidade, está escrevendo O Grande Livro dos Telhados, do qual este texto faz parte.
e-mail: swok@uol.com.br