São Paulo, 24 de setembro de 2006
A calha de Duff
Era uma canaleta larga e pouco profunda e Duff passou meses polindo-a de tal forma que sua superfície fosse plana, sem ranhuras, e materialmente linear. Depois ele pegou uma bolinha de aço, com um peso compatível ao da canaleta e soltou-a em um dos lados. O que quer dizer que a bolinha desceu e subiu do outro lado, e tornou a descer e a subir, voltando ao seu lugar de origem. Claro que havia o problema do isocronismo das pequenas oscilações e à época dava um trabalho danado fazer uma canaleta regular e bolinha idem. Parece fácil saber a aceleração escalar precisa ao largo do plano inclinado. Mas não é. Para isso foram necessários séculos de estudos de matemática e física.
Em 1916 James Duff Brown, que nada tem a ver com o Duff da calha, estabeleceu que a classificação era um "processo mental" executado continuamente, de forma consciente e inconsciente por todos os seres humanos, mesmo que não admitido pelos mesmos.
De uma certa maneira o que o segundo Duff faz é tentar nos dizer, ainda que de forma velada, que somos capazes de criar um complicado raciocínio mental em milésimos de segundos, sem que tenhamos obrigatoriamente de ordenar tal raciocínio como o de uma ordenação consistente. Quer dizer, sabemos como as coisas funcionam, mas não podemos teorizar sobre elas. Quando eu era pequeno e atravessava uma rua de Praga e via vir vindo, a toda velocidade, uma carruagem com dois cavalos desvairados, eu calculava mentalmente qual o tempo que levaria para atravessar a rua e se nesse tempo não seria atropelado. Então eu atravessava. Não daria tempo de eu fazer um complicado cálculo matemático de velocidade X tempo X aforismos. Mas o meu cérebro sabe o processo prático da coisa.
Então é inútil pensar que Duff, o Primeiro, imaginou a calha e depois a bolinha e depois as especificidades do material da calha, a sua resistência à bolinhas de aço, etc. Não. Ele apenas sentou-se em frente à janela em um dia de chuva e percebeu que pela calha corriam as gotas de chuva que haviam se acumulado no telhado. Então ele se deu conta de que a água não é sólida e não sendo sólida a sua tendência é cair, é ser atraída para baixo. Aliás, mesmo que fosse sólida, a sua tendência também seria essa, segundo aLlei da Gravidade, mas isso é outro assunto.
Como era fim de inverno, começo de primavera, as chuvas corriam céleres pelos telhados de Duff e dos vizinhos. Ele então pôs-se a imaginar como seria a chuva se as suas — dela, chuva — gotas, ao invés de caírem ficassem rolando de um lado para outro. Claro, se fosse uma tempestade, poderiam se formar ondas gigantes em telhados, mas não era o caso. Duff passou boa parte do começo daquela primavera observado o comportamento das gotas de chuva, algumas vezes subindo no telhado e olhando in loco como elas deslizavam. Mas gotas de chuva, são gotas de chuva, completamente diferentes de uma bolinha de aço...E de mais a mais, o plano incliando da calha, estava mais inclinado ainda devido à sua posição no telhado. Mas se estivesse reto...
Então veio-lhe um pensamento profano: e se por acaso alguém pegasse uma bolinha de aço e a jogasse de encontro à uma parede? Bom, ela bateria na parede e voltaria um pouco, apenas um pouco. Dando uma leve mexida para os lados, quando voltassse. E se ao invés de jogar a bolinha na parede convencional, ela fossse jogada numa parece côncava? Ou convexa?
Isso começou a atormentá-lo mais do que o necessário.
Até que numa noite tenebrosa e insone, pareceu-lhe que estava na hora de começar a testar as suas idéias. E, observem! Duff II, o do processo mental nem sabia nada sobre calhas! Ou seja: Duff I, o físico, intuía que a sua mente sabia a resposta para a questão das bolinhas poderem rolar em um plano inclinado. Duff II, ordenaria linguistícamente essa sapiência.
Nessa mencionada noite, Duff I, com fome e com insônia, levantou-se para comer alguma coisa, e começou, como era seu hábito, a fazer bolinhas com o miolo do pão. Claro que sequer eram bolinhas bem feitas, mas rodando-as sobre uma colher, pôde observar que se fossem empurradas de um lado para outro não paravam imediatamente. Era como se fosse a parede, mas não era a parede, era uma superfície côncava. Então ele não estava errado.
A partir desse dia, passou a fazer diversos experimentos com calhas e bolinhas.
Há que se anotar que planos inclinados são mais extensos que planos horizontais, embora não pareçam. Duff I escreveu essa frase no seu gabinete de trabalho, a fim de lembrá-lo para que não fizesse nenhuma besteira em suas experiências.
De tanto andar de lá para cá atrás de calhas próximas ao que se poderia chamar de perfeito, caso tal qualidade existisse, Duff tornou-se conhecido dos oleiros da cidade. O mais célebre deles, pouco antes de morrer, recomendou a seu filho e sucessor que mudasse o nome da olaria para Duff, porque os comerciantes têm de se lembrar com carinho dos seus fregueses perdulários.
E até hoje as calha Duff são as mais bem feitas do mundo. Ter uma calha Duff em um telhado não é a mesma coisa que ter uma calha comum. Paga-se muito por uma Duff, importa-se uma Duff, chora-se quando uma Duff quebra e, se quebrar, seus cacos serão colados e exibidos na sala como prova de extremo bom gosto do seu dono.
E é sobre umas delas que estou espreguiçando agora.
Šwøk é um gato que, desde 1792, quando nasceu, vive nos telhados de Praga, com o fantasma do rei Boleslav II, o Piedoso. Contratado pela mais famosa olaria da cidade, está escrevendo O Grande Livro dos Telhados, do qual este texto faz parte.
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