São Paulo, 02 de agosto de 2004

A bipolaridade dos transtornos de uma noite de verão

 

 

Šwøk

 

 

Isso se deu depois da Grande Peste de 1835 e telhados de ardósias e de quatro águas estremeceram. Caibros torceram-se. Pregos e parafusos praguejaram. Terças e frechais partiram-se. Cantoneiras e meias-tesouras perderam peso, pompa e circunstância. Enfim.

Como todos os outros habitantes da cidade, incluindo Boleslav, o dono da olaria que patrocinava meu livro teve uma grande crise depressiva que prozac algum conseguia melhorar. Diziam pelos becos e vielas que uma vez por semana, pontualmente, ele costumava começar a tomar banho e parava no meio, logo após haver se ensaboado. Aí o seu cabelo ficara enorme e eriçado, como se fosse um bolo Floresta Negra. Então, ele saía do banho, se enxugava e punha roupa, sem se importar com o cabelo. E assim saía á rua.

Uma noite em que eu cochilava, ouvi sua voz me chamar, vindo de uma viela escura:

— miau, miau, miau..gatin..gatin..gatin...

Olhei de cima da guia de ripamento, onde eu estava encostado, e constatei que era verdade o que diziam. Os cabelos emaranhados, volumosos, com uma meleca que só poderia ser xampu, depois de seco. Ele devia estar em pleno delírio persecutório. Balancei a cabeça e desci da guia, me esgueirando pelos telhados mais baixos, até atingir os píncaros de uma lata de lixo que ficava à entrada do beco.

— Que zona é essa aqui, Škøda? Porque você está miando? Ficou louco?

Škøda era o nome dele, que vinha de uma importante família de criadores do bicho-da-seda no interior do país. Škøda desinteressou-se, desde cedo, pela sericicultura e resolveu mudar para Praga e aqui montar sua olaria.

— Šwøk...eu estava te chamando...não tenho mais como te pagar... Ele murmurou choroso, em meio à profusão de cabelos. De perto parecia a própria medusa, mas achei melhor não falar nada para não ferir os brios do oleiro, porque mesmo em surto, ele os tinha, claro. Mas dei um miado, indignado:

— Não tem como me pagar?

— Escute Šwøk, a olaria vai indo mal. Antes eu fornecia telhas pra Pomerânia e pra parte da Polônia, agora os pedidos estão escasseando...Quase ninguém está falando comigo. Não sei o que acontece..Mandam mensageiros...Se eu não vendo nada, como posso te pagar?

— Mas é claro, Škøda. Com esse cabelo ridículo, meio rastafari...Ninguém quer mesmo chegar perto. Acham que você não está regulando direito.

— Ah, você acha que é isso? Mas o que eu posso fazer? É um tratamento para calvície que eu vi na Vanity Fair e achei que valia a pena tentar. Importei o kit dos Estados Unidos. Custou uma fábula. E ainda nem está pago.

Olhei para o lado, com uma cara bem azeda. Era o meu dinheiro e o Grande Livro dos Telhados que estavam em jogo. E um maluco que comprou um kit de beleza de uma revista americana.

— Eu vou ajudar você, Škøda. Já sei o que vamos fazer.

— O quê? ele perguntou, mais animado, sentando no meio-fio.

— Uma liquidação de telhas!

— Liquidação?

— Exatamente, e bocejei... E além disso....A cada x telhas compradas, o comprador ganha um passarinho! Entendeu?

— Não, Šwøk! disse Škøda com ênfase, pondo-se de pé. Você quer é comer os passarinhos, isso sim!

— Eu??? Mas eu não vou comprar telha nenhuma!

— Mas vai atrás de quem comprar..só que...sabe? é uma boa idéia essa da liquidação. E um enorme sorriso passou pelo rosto do oleiro.

— Sirva um vinho quente na noite do lançamento da liquidação.

Škøda então levantou-se e pôs-se a dançar animadamente pelo beco. Gatos têm o senso estético e práticos das coisas, é essa a chave da nossa sobrevivência.

 

Šwøk é um gato que, desde 1792, quando nasceu, vive nos telhados de Praga, com o fantasma do rei Boleslav II, o Piedoso. Contratado pela mais famosa olaria da cidade, está escrevendo O Grande Livro dos Telhados, do qual este texto faz parte.

e-mail: swok@uol.com.br

O Grande Livro dos Telhados