São Paulo, 03 de outubro de 2008

 


O glossário

Šwøk

 

 

Eu convivo com o fantasma de um rei no melhor telhado de Praga. Durante muito tempo morei aqui sozinho, até que ele começou a aparecer, primeiro esporadicamente, depois freqüentemente, até que resolvei ficar. E não há como expulsá-lo, fantasmas são imunes a unhas, dentes, canhões. Então resolvi ser seu amigo e partilhar com ele alguns momentos da minha vida. Já que eu teria de aturá-lo sabe-se lá até quando. Gatos têm sete vidas e cada uma delas a sua dose de paciência, é claro. Teria sido mais cômodo, mas menos proveitoso, eu me mudar, quando ele apareceu, mas como eu disse, é o melhor telhado de Praga. Sobretudo porque a rua lá embaixo está cheia de restaurantes, bares e cafés, e eu já me habituei a descer para pegar as sobras do dia, sem precisar fazer muito esforço. E, morador antigo, conheço todos os atalhos que me livram da voracidade e da sanha dos outros gatos. Que não são nobres como eu.

Com o passar do tempo, o fantasma do rei Boleslav tornou-se meu confidente. O contrário não é verdade, porque eu não sou de confidências. Apenas escuto-as com um certo estoicismo e sono, isso é tudo. Mas me afeiçoei a Boleslav. E, como no começo, enquanto eu escrevia, era pego de surpresa pelo seu espectro pairando acima dos meus papéis e me assustava, resolvi mostrar a ele tudo que faço, assim evito sustos e bisbilhotices, além de contar com a sua sua opinião.

Então semana passada, Boleslav comentou que o meu livro precisa de um glossário, porque pode ser comprado por algum leigo que queira se especializar e, a falta de glossário pode desanimá-lo. Concordei e comecei a rascunhar o glossário, no que ele tem de mais básico. Por enquanto só fiz a primeira parte, mas já é alguma coisa. Porque se eu for pensar em leigos, vou ter de gastar metade do livro só no glossário.


Água-furtada = é um pedaço importante do telhado, onde as telhas são dispostas enviezadamente, e onde as águas interrompem a possibilidade de uma queda natural sobre o solo. Algumas pessoas, sempre inventa de colocar um raio de um sótão nesse pedaço. Comum em Praga devido à angulação dos telhados.

Cumeeira = é a parte mais alta do telhado, onde ele acaba mesmo, onde eu costumo andar devagarzinho observando a cidade.

Espigão = tem o mesmo desenho físico da cumeeira, só que é inclinado horizontalmente e serve para fazer as esquinas do telhado. Esquinas é quando a casa não é exatamente quadrada, é quando foi desenhada em L, por exemplo.

Caibro = Peça de madeira de seção retangular, com cerca de 5x7cm, empregada em armações de telhados.

Empena = Em construções com telhados de duas águas, a parte superior duma parede, com a forma de triângulo isósceles; é a mesma coisa que oitão.

Parei então o começo da elaboração do glossário, vendo que Boleslav vinha vindo, com seu cachimbo e seu chapéu esquisito e mostrei a ele.

— Ficou bom?

— É...ficou..Mas estão faltando os desenhos...

Fantasmas são como seres humanos às vezes. Impressionante.


Šwøk é um gato que, desde 1792, quando nasceu, vive nos telhados de Praga, com o fantasma do rei Boleslav II, o Piedoso. Contratado pela mais famosa olaria da cidade, está escrevendo O Grande Livro dos Telhados, do qual este texto faz parte.

e-mail: swok@uol.com.br

O Grande Livro dos Telhados