São Paulo, 10 de abril de 2008

O festival das bonecas

 

Sandra Caldas

O Japão é um país conhecido por suas tradições. Há sempre algo em sua cultura a ser reverenciado ou festejado por seu povo, onde quer que ele esteja. Não seria diferente com a comunidade japonesa, que habita o lado de cá do globo.

Os brasileiros, descendentes ou não deste povo milenar, acabam embarcando nesse clima festivo, em datas importantes para o calendário nipônico. Quem costuma freqüentar o bairro da Liberdade, em São Paulo, já se habituou com os chamados Matsuri (festival), que movimentam a comunidade local ao longo do ano, deixando o bairro com ainda mais cara de Japão aos olhos dos que por lá transitam.

Um dos importantes festivais para os japoneses é o Hinamatsuri (Dia das Meninas ou Festival das Bonecas), comemorado anualmente no dia 3 de março. Já falei aqui, em outra oportunidade, que brincar de boneca parece fazer parte do DNA feminino, mesmo em uma era digital como a nossa, onde reinam games e internet. Não há, em qualquer canto do mundo, uma menina que não se encante com bonecas e abra mão de sua companhia. No Japão, o Hinamatsuri costuma ser comemorado nos lares, como uma reunião íntima de família, principalmente para as meninas, que convidam amigos e amigas mais chegados para um chá. Mas, aqui no Brasil, é possível apreciar as bonecas expostas para o festival em algumas instituições culturais, como associações de províncias japonesas, bibliotecas de fundações e centros de língua japonesa, na Liberdade.

No Japão, a relação entre meninas e bonecas é tão estreita, que o Hinamatsuri funciona como um ritual de passagem da fase infantil para a juvenil das meninas, assemelhando-se ao tradicional baile de debutantes nas festas de 15 anos, realizadas no Ocidente. Não é à toa que a celebração conta com um jogo de 15 bonecas tipicamente travestidas, dispostas em várias plataformas, seguindo determinada ordem hierárquica, lembrando a corte japonesa do século XIX. Compõem o visual: o imperador, a imperatriz, senhoras da corte e diversos músicos, além de objetos decorativos, uma laranjeira, uma cerejeira, um espelho, instrumentos musicais, alguns utensílios de mesa e equipamentos utilizados na corte.

Em tempos remotos, a celebração era conhecida como Momo no Sekku (Festival do Pêssego) por ser comemorada justo no período em que desabrocham as flores do pessegueiro naquele país. Geralmente, para os japoneses, os festivais estão relacionados às passagens de uma estação do ano para outra, e sempre voltados para algum ato de purificação espiritual, devoção ou gratidão a Deus.

Durante o Hinamatsuri é praxe orar pela saúde das meninas, já que o festival tem origem em um antigo ritual de purificação, quando era comum as pessoas transferirem seus pecados para bonecas de papel e arremessá-las em um rio. No dia da festa, cabe à anfitriã convidar seus amigos e amigas para um chá, onde é servido o hishimoti (bolinho doce de arroz em formato de diamante), em frente às bonecas, as quais ficam em exposição apenas por duas semanas.

Manda a tradição que, após o Hinamatsuri, a menina deve embalar e guardar cuidadosamente as bonecas para que as demais moças da casa não tardem a se casar. Ainda, de acordo com o costume, o jogo de bonecas para Hinamatsuri é considerado um bem de família e deve ser transmitido de mãe para filha, quando esta contrair matrimônio, perpetuando assim a tradição.


Fonte de pesquisa: www.culturajaponesa.com.br



 

Outras crônicas da autora publicadas no Jornaleco