São Paulo - Dezembro de 2008
Uma árvore só não faz Natal
A maior árvore de natal flutuante do mundo já está sendo montada e vem acrescentar, se isso é possível, ainda mais beleza ao espelho d água da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro. O evento que já está em sua 13ª edição, patrocinado por uma empresa privada, já se tornou o terceiro em importância na cidade, sendo superado apenas pelo Carnaval e o Réveillon.
A base de sustentação da árvore tem 810 metros quadrados, o equivalente a três quadras de tênis. Os flutuadores, de metal naval, pesam até 16 toneladas. Para serem colocados na água precisam ser içados por um guindaste de 120 toneladas. A árvore que este ano tem 85 metros de altura, batendo seu próprio recorde, terá inspiração nos vitrais das catedrais brasileiras. Sinos e canções natalinas gravadas na Itália também fazem parte do espetáculo marcado para o dia 29 de Novembro, que receberá a visita de milhares de pessoas diariamente. Elas vão se aglomerar em volta das margens da Lagoa para assistir, fotografar e filmar o balé das águas e a coreografia de suas 2,9 milhões lâmpadas ligadas a geradores movidos a biodiesel. Muitas árvores serão plantadas para compensar a energia gasta e a emissão de carbono nos 37 dias em que a embarcação (pois assim é considerada a árvore pela marinha) estará ancorada na Lagoa. Uma mega-produção, que também traz transtornos ao trânsito e sujeira às ruas do bairro e antecipa a festa do Natal na cidade.
Muito antes disso, porém, nos shoppings e centros comerciais da cidade uma profusão de presépios e casas de Papai Noel já estão montadas e o próprio bom velhinho se apresenta para fotografar com as crianças. É impressionante como a euforia do Natal invadiu as ruas, as vitrines, as calçadas e as mentes das pessoas, mal havia começado o mês de novembro. Uma profusão de verdes, dourados e vermelhos e o lusco-fusco das luzinhas coloridas que estão em toda parte, confundem-se com ofertas e cartazes de promoção. Uma grande utopia comercial que vai tomando forma e sufocando o verdadeiro sentido da festa enquanto traz a terrível sensação de que mais um ano escapou entre nossos dedos. As pessoas correm contra o tempo em seus compromissos de final de ano e absorvem toda essa informação como se ela fizesse mesmo parte da essência do Natal.
Ano passado escrevi sobre o meu natal quando criança. O Papai Noel que desce pela chaminé, que deixa os presentes nos sapatos, o presente que é exatamente aquele que queremos e só o bom velhinho pode mesmo saber. Nos meus natais de criança não havia árvore enfeitada, nem presentes luxuosos, mas havia uma magia quase palpável no ar, compartilhada por toda a família. A diferença é que, naquele tempo, eu era a criança.
Apesar de toda a parafernália comercial que existe por trás do Natal, sinto que as pessoas querem mesmo reencontrar a festa que começava no coração das pessoas e ia enfeitando todo o resto com a proximidade física e emocional que só o Natal proporciona a humanidade. Eu não sei se posso afirmar isso, talvez não, mas sinto como se o mundo inteiro, independente de raças, credos ou classe social, desse um stand by na noite de Natal. Como um suspiro de ansiedade antes de voltar à certeza dos dias normais, os dias das árvores guardadas em caixas de papelão, sobre os armários, até o próximo ano. A grande verdade é que enquanto sinos dobram e pisca-piscas iluminam tudo, as guerras e suas conseqüências ainda existem, a corrupção e a fome ainda existem, a intolerância e a violência ainda existem e tudo vai continuar depois da missa do galo, não importa quão grandiosos sejam os preparativos, individuais ou públicos, para essa comemoração. Nem mesmo se apagássemos as luzes e não comprássemos presentes, ainda assim nada mudaria de pronto.
Todo ano eu reluto em montar a árvore, brigo comigo mesma para escutar os sininhos e ver a estrela guia. Queria sentir aquela paz morna que sentia quando criança. Não posso. Estou consciente demais de todas as adversidades do mundo para acreditar em Papai Noel, mas ainda anseio por estar entre os meus e procurar dar sentido a festa, ao encontro, a ceia, as preces e até a troca de presentes. Quando converso com outras pessoas, encontro o mesmo anseio e a mesma tristeza velada pela perda da inocência daqueles anos em que o Natal era a festa suprema. E só nos olhos de meu filho ainda posso achar uma centelha de razão para não desligar minha árvore e ir deitar mais cedo.
Uma árvore só não faz um Natal de verdade, um Natal de renovação, mas ainda acredito no somatório de energias e de vontades e, se a Paz e o Amor, conseguirem encontrar lugar ainda que nesse curto espaço de tempo que é a festa do nascimento de Cristo, então que sejam bem-vindos e Feliz Natal para todos!
Ho! Ho! Ho!