Dezembro de 2009

 


Conta-se...

 

 

Fátima Silva

 

...que Papai Noel é uma lenda inspirada na história de São Nicolau. Nascido na segunda metade do século III na região que hoje chamamos de Turquia, esse homem ficou conhecido por sua grande generosidade e fé. Embora fosse de uma família de muitas posses a maior preocupação de Nicolau, era com os pobres e muitas vezes os ajudava secretamente. Com a morte dos pais, ele foi morar com um tio que facilitou seu ingresso na vida religiosa. Ele, então, num gesto inusitado, doou todos os seus bens para os necessitados. Mais tarde, Nicolau viria a tornar-se bispo, cargo que relutou em aceitar, por não se achar competente, apesar de sua grande devoção a Igreja.

Os relatos de sua vida falam de sonhos que inspiravam as pessoas a sua volta, inclusive quando foi indicado para bispo de Mira. Naquela ocasião, sem conseguir chegar a um consenso, os bispos responsáveis pelo nomeação do novo bispo (o anterior havia falecido) resolveram rezar para que Deus indicasse o sucessor. O bispo mais velho recebeu um aviso, em sonho, de que a primeira pessoa a entrar na Igreja pela manhã seria o novo bispo. São Nicolau era sempre o primeiro a chegar e foi o eleito.

Canonizado santo, a ele são atribuidos diversos milagres, inclusive o de devolver a vida a três crianças. Distribuição de presentes, caridade e defesa dos indefesos e injustiçados são atitudes atribuídas a esse homem incomum que é santo padroeiro na Rússia, Grécia, Barranquilla (Colômbia), Bari (Itália), Amsterdã (Holanda) e de Beit Jala (Palestina). Ele é patrono das crianças, marinheiros, comerciantes, arqueiros e estudantes na Grécia, Bélgica, Bulgária, Geórgia, Rússia, Macedônia, Eslováquia, Sérvia e Montenegro.

Suas qualidades como homem caridoso correram o mundo e se misturaram muitas vezes as lendas locais de outros países, até chegar aos nossos dias como um bondoso velhinho, com grandes barbas brancas e olhar carinhoso que distribui presentes nas noites de Natal. Por volta do século XIII, passaram a homenageá-lo no dia de sua morte, 6 de Dezembro. Faziam isso repetindo seu gesto de caridade, enchendo os sapatos de crianças de prendas ou colocando cestos de comida na porta dos necessitados. Contudo, quando a festa começou a ser considerada como um culto pagão, Martinho Lutero (monge agostiniano alemão, Pai do Protestantismo e reformista da Igreja Católica – século XVI) substituiu a data da comemoração para a véspera do Natal, como acontece até hoje. O culto a São Nicolau ficou por algum tempo restrito a Holanda para ressurgir mais tarde, por volta do século XVII durante a imigração dos holandeses para os Estados Unidos. Mais uma vez o mito perde ou ganha detalhes que viriam a transformá-lo no Papai Noel que conhecemos hoje.

 

Várias mudanças aconteceram na história real de Papai Noel por motivos religiosos, culturais e comerciais. Em alguns países sua figura se mistura a duendes e figuras mágicas. Em outros ele é apenas Nicolau, o bispo caridoso. Em muitos países do mundo ele é um santo que atende rápido as orações que lhe são dirigidas, principalmente pelos mais pobres e desvalidos. Mas é a figura do velho bondoso que passa uma madrugada inteira distribuindo graças pelo mundo, que prevalece como maioria. Seja montado em burro, ou num trenó puxado por renas, ele transforma a noite de natal num evento de fantasia e possibilidades infinitas.

Apesar do forte apelo comercial da festa do natal, as pessoas continuam acreditando e reforçando a lenda de Papai Noel e, embora estejamos num mundo de tecnologias muito avançadas com informações que se atropelam o tempo inteiro, a maioria das crianças ainda acredita e espera pelo bom velhinho na noite de Natal. Prova disso são as milhares de cartas que todos os anos lotam as agências de correio, endereçadas a ele. Não há nada de errado nisso, perpetuar bons exemplos deveria ser hábito, mas a iniciativa esmorece com o dia 25 de dezembro.

No final do ano, o mundo todo se enfeita de vermelho e dourado e começa uma contagem regressiva para o que deve ser o dia mais feliz, abençoado e diferente de todos os outros 364 dias do ano. Ações e projetos começam a ser postos em prática para que indivíduos menos afortunados da sociedade também tenham seu natal feliz. Uma mobilização de solidariedade toma conta de todos, mais que em qualquer outra data, e surgem então vários Papais Noeis, talvez para que se possa usufruir da abundância, que geralmente caracteriza o Natal da maioria das famílias, sem culpas. Em meio ao consumo exacerbado e a fartura há a disponibilidade de ser generoso com o próximo. E, por mais que a sensação seja infinitamente prazerosa e gratificante, poucos tentam repeti-la em outros meses do ano, em qualquer data aleatória, sem razão específica, apenas para continuar trazendo alegria, conforto ou bem-estar a alguém que precise disso.

Independente de ser apenas um homem incomum, um mito transformado através dos tempos, uma lenda infantil ou uma estratégia de marketing, Papai Noel traz em sua trajetória, toda a gama de valores esquecidos nas atribulações do cotidiano, mas que sabemos, são fundamentais para um mundo melhor e mais justo. Benevolência, generosidade, bondade, amor ao próximo, caridade e disposição são suas qualidades mais pungentes. Esse Papai Noel agora está em cada um de nós que puder assumir parte desse encargo. Só então o bom velhinho viajará mais longe e atenderá mais gente, inclusive aqueles que sempre ficam esquecidos. Que esse Natal, mais que em qualquer outro possamos descobrir o Papai Noel que existe em cada um de nós e fazê-lo uma figura presente em todos os dias de cada ano vindouro, não apenas no Natal.