São Paulo - Dezembro de 2008
A letra escarlate
"Sempre houve ao meu ouvido um cochicho,
um aviso profético de que,
quando uma nova mudança de
hábitos se tornasse indispensável ao meu benefício,
ela se daria rapidamente.”
Nathaniel Hawthorne
Lisboa, 30 de novembro de 2008:
...fiquei esse tempo todo procurando uma boa desculpa..alguma coisa convincente mesmo...Os meses têm sido de terrores noturnos, quadrinhos do Hugo Pratt e música italiana. Às vezes, de madrugada, eu pulo da cama e me transformo em um cão preto que persegue borboletas e uiva para o mar. Aqui onde eu moro tem mar e areia. E conchinhas. À parte isso, eu sinto uma falta desesperada sua. Mas a razão porque escrevo... Lourenço.São Paulo, primeiro de dezembro de 2008:
Lourenço: É claro que você sente falta de mim. De mim, do meu gato tcheco, da minha prima ilhoa, dos meus bilhetes com letra escarlate em papéis envelhecidos, do meu batom roxo e da minha mochila imersa em suor. Das minhas idas ao templo às quartas-feiras, da minha tatuagem de lanterna, dos meus chocolates preguiçosos. Aqui, onde moro, tem folhas e frutos, sementes álacres e licores suspeitos. Cigarros emendados um ao outro, um vento sudoeste fatal e suéter cáqui nos invernos longos. E procure não me aborrecer muito, porque é dezembro, é quase natal, e estou fazendo uma árvore linda, com um pisca-pisca branco-quadrado.Lisboa, primeiro de dezembro, quase meia-noite, 2008:
Obrigada por relevar as coisas que eu fiz. Veja se você consegue me entender: eu sou impulsivo e às vezes, na maioria delas, infantil. Então faço as bobagens e depois sou obrigado a atirar garrafas com pedidos de socorro em alto-mar, vê-las flutuar e partir talvez para a Ásia. As garrafas, eu não. Eu não gosto da Ásia. Quem gosta da Ásia é você. E justamente por ser natal...Lourenço.São Paulo, 2 de dezembro de 2008
Lourenço: eu não relevei nada, coisa alguma. Quem disse isso? Estou fingindo que esqueci e você está fingindo que acredita que esqueci. Estou fingindo que podemos pôr uma pedra em cima de tudo e você está fingindo que acredita que podemos pôr uma pedra em cima de tudo. Mas sabemos, eu e você, que nem a pedra ficaria bem equilibrada e nem o nosso passado limpo. De mais a mais, tenho a impressão de que você vai morrer envenenado dia desses, vai tomar creolina em vez de absinto e, uma vez que você morra envenenado, não precisamos pensar no que passou. Você volta sozinho para essa porcaria de planeta na próxima encarnação. E me dá licença, que eu estou com fome e vou jantar no árabe da rua debaixo: carneiro assado e sinceros suspiros de satisfação. A minha noite, paulistana e indevassável, está diáfana, cálida e luminosa. Como todas as noites paulistanas de todos os natais.Lisboa, 3 de dezembro de 2008
Aqui está gelado, esqueci de dizer no mail anteior. Cortei o cabelo e comprei umas camisetas Diesel. Deixei a barba crescer porque me dá um ar de desamparo e mulheres adoram homens assim. Estive na Espanha, paguei 8 euros pra entrar na catedral de Córdoba, plantei violetas roxas e rosadas na varanda de casa, pensei em você e pensei também em não dizer a você que pensei em você. Redundâncias. Retóricas. Figuras de linguagem. Se eu me casasse com a filha da minha lavadeira talvez fosse feliz. Lourenço.São Paulo, 3 de dezembro, meia-noite, 2008
Lourenço:...e também acho que dezembro é um mês ótimo para se reler Nathaniel Hawthorne.Lisboa, 4 de dezembro de 2008, 07.30h.
Não tire conclusões precipitadas. Não deletei você do meu MSN num acesso de fúria. Não foi bem assim. Acontece que eu estava no barco, velejando neste imenso mar, e não sei como, talvez por causa de um vento mais forte e inesperado, o meu laptop caiu na água e, sem querer, apagou todos os dados da memória. Foi só isso. Aliás, as suas fotos também foram-se. Você pode me mandar uma pelo e-mail? É para eu pôr na carteira....Além do mais, passar um Natal...Lourenço.São Paulo, 4 de dezembro de 2008, 22h.
Lourenço: Agradeço comovida, aqui, do centro do mundo, já ao lado da caixa de papel, pra qualquer emergência, e da árvore de nata, a intenção do presente. Mandei, semana passada, um cartão colorido com bolinhas e desenhos de azevinhos para você, pelo correio convencional. Com três pentelhos —meus— fazendo as vezes do bigode no Papai Noel. Acho que um deles você pode guardar na carteira, no lugar da foto. Faz o mesmo efeito.
Lisboa, 5 de dezembro de 2008, 01.00h.
Você não fez isso, fez? Lourenço.Centro do Mundo, 5 de dezembro, 02.30h.
Lourenço: claro que fiz, está espantado porquê?Lisboa, 7 de dezembro de 2008.
Seu cartão de Papai Noel com pentelho — arghhhh! — chegou. Peguei com uma pinça o cartão porque eu sou hipocondríaco, e saber lá, não é? Lourenço.Centro do Mundo, 7 de dezembro de 2008, 14h.
Lourenço: você está sempre insatisfeito. Impressionante.Lisboa, 7 de dezembro de 2008, 20h.
Bom, já que estou perdoado por tudo, vou pedir um favor seu, aí do centro do mundo. Acontece que o meu filho viu numa revista uma foto de um caminhão da coca-cola e quer um. Fala nisso dia e noite. Já procurei por Portugal inteiro e não achei. E na revista diz que aí, no centro do mundo, existe uma rua, a 25 de março, que tem esses caminhões. E se você fizer o imenso favor...É Natal, afinal de contas, não é? Bom, antecipadamente agradeço e estou fazendo um depósito em seu nome no wester union. Amanhã estará aí o dinheiro. Lourenço.Centro do Mundo, 7 de dezembro de 2008, 23.45h.
Lourenço: Não esqueça de acrescentar ao preço do caminhão os seguintes gastos: passagem de metrô até a 25 de março e táxi na volta. Não vou de táxi porque demora muito. Sola do tênis. Água São Lourenço gasosa e hot-dog. Cigarros e café. Um Papai Noel do meu tamanho.
2Lisboa, 9 de dezembro de 2008, 03.00h.
Já está nevando em alguns lugares. Na Serra da Estrela, por exemplo. E eu fico taciturno e melancólico. Porque tenho na veia, — não neve!— , mas o calor do Saara Ocidental, a música da Somália, os zumbidos das moscas de Tânger, e um apito de vapor na cabeça...a sensação de que eu deveria estar em outro lugar e não sei que lugar seria esse. Chegou o dinheiro do caminhão da coca-cola? Lourenço.
Centro do Mundo, 9 de dezembro de 2008, 20.35h.
Lourenço: o dinheiro do caminhão da coca-cola, claro... Passei uma noite com ele em todos os caça-níqueis clandestinos — e são muitos! — da Liberdade e adjacências. Comecei ganhando, mas você sabe como são essas coisas...sorte que ainda deu pra comer um hot-dog antes de voltar para casa. As madrugadas têm sido de uns 14 graus, uma primavera e tanto no centro do mundo, eu leio Nathaniel de madrugada e, às vezes, faço anotações tortas, com um lápis grafite seis, pelas beiradas do livro.Lisboa, 9 de dezembro de 2008, 23.45h.
Você não fez isso, fez? Você jogou o dinheiro do caminhão naquelas máquinas infectas??? Eu aqui, me preparando para ir trabalhar no Médicos sem Fronteiras, pensando em como vou me esquivar de escorbuto, pandemias, Mal de Hansen, rinocenrontes, pitons, maremotos, e você jogando? Com meu dinheiro? Escusa de responder este mail, porque acabo de colocar o seu endereço no spam. Lourenço.Centro do Mundo, 10 de dezembro de 2008, 02.11h:
Ao lixo eletrônico do Lourenço:
Joguei sim, e me diverti pra caramba. Poderia ter ficado milionária, iria então passar o Natal no último andar do Waldorff Astoria, beijar Ken Watanabe na boca, nos olhos, nas costas, nas mãos, no sexo... mas não deu mesmo... Quem sabe o mês que vem, não é?3
Lisboa, 17 de dezembro de 2008, 01.30h.
Ahn...esqueci de dizer...como estamos próximos ao Natal e eu quero o caminhão....tirei o seu e-mail do spam....isto, é...se por acaso....digamos.....vai que você ganha alguma coisa naqueles lindos caça-níqueis...e se você passar por perto daquele lugar...como chama mesmo? que vende brinquedos....eu pediria o enorme favor...Não faz mal que chegue depois do dia 24...e não é bem assim, como você pensou...não mantive contacto só para pedir o caminhão...
Tóquio, (também Centro do Mundo), 20 de dezembro de 2008.
Hotel Kitcho
Estou no centro da cidade, em um hotel que tem uma biblioteca para os hóspedes, e que fica numa rua cheia de botões de cerejeira e um doce perfume de leviandades pelo ar. Meu quarto tem uma delicada pintura Ukyio-ê e o fantasma de Bashô, em pessoa, aparece por aqui de madrugada para me dar algumas explicações sobre a transcendência da arte. Uma linguagem mais depurada e menos afoita que a dos ocidentais, diga-se de passagem. Mandei um pequeno pacote para Lisboa. O cmainhão do seu filho e um livro do Nathaniel para você, porque você precisa ler mais. Caso você ainda more aí, deve receber. E no quarto em que estou há um pisca-pisca branco quadrado...