São Paulo, 08 de novembro de 2004

 


Um beijo no soldado desconhecido



Mécia Rodrigues

 

O paralelo 17 deixava o Laos lá em cima e a Tailândia e o Camboja lá embaixo. Continuando: à direita ficava o Vietnam, o do sul e o do norte. Acima e abaixo. Saigon, embaixo e Hanói lá em cima. E a trilha de Ho Chi Mihn, que se estendia em 16 mil quilômetros pela fronteira entre Camboja e Vietnam.

Seymour Hersh, nasceu em 1937 e tinha 31 anos quando ocorreu o massacre de My Lai. Sentou-se à sua máquina de escrever e nela fez a primeira reportagem sobre o massacre. O fio da história começou acima do paralelo 17, no povoado de My Lai e trazia um atirador, Ronald Ridenhour, que horrorizado, relatou tudo que ouviu sobre My Lai. O relato terminou nas mãos de Seymour, que após uma extenuante pesquisa de um ano, conseguiu convencer o seu vizinho, que começava um jornal nanico, a vender a matéria que ele havia acabado de escrever.

Durante esse ano em que Seymour Hersch escrevia, quase todos que tiveram acesso às notícias, direta ou indiretamente, do massacre, calaram-se. Militares, civis, comandantes, subordinados, a imprensa em geral, cinegrafistas. Sabia-se que alguma coisa estava errada, uma pequena denúncia aqui, outra ali, mas, a bem da verdade, o que havia realmente acontecido, só chegou ao conhecimento do mundo com as fotos de May Lai publicadas. A matéria se transformou em um livro e Seymour Hersch ganhou o prêmio Pullitzer de Jornalismo de 1970.

Trinta e cinco anos depois, o mesmo Seymour novamente senta-se e escreve sobre a prisão de Abu Graib, no Iraque. E daí começou tudo de novo: detenções, acusações, prisões de soldados e oficiais, fotos, vídeos. Trinta e cinco anos depois o mundo mudou e ficou muito mais indignado com o que aconteceu no Iraque do que à época do massacre do Vietnam. Claro que há nessa indignação mundial uma profunda antipatia pelos Estados Unidos, já que ela não se apresenta, contundentemente, por exemplo, em favor do Tibet.

O fato me incomoda muito. Por ser regido por emoções políticas, pessoais e passionais. Não importa quem morreu, nem como morreu, mas sim quem matou.

Dando uma espiada nos blogs norte-americanos, vi uma série de acusações a Seymour: principalmente o fato de ser chamado de irresponsável por não revelar suas fontes.

Irresponsável ou não, ingênuo (outro adjetivo usado pelos seus detratores) ou não, aproveitador ou não, a verdade é que quem contou ao mundo os horrores de May Lai foi ele. Não importa por qual motivo.

Alguém tinha de fazê-lo, quero crer. Porque em nome de simpatias e antipatias, tantos outros massacres semelhantes ou piores que o de May Lai ficaram perdidos por aí, ou são ocasionalmente citados. Os praticados pela doce e suave Inglaterra na Índia, que não foram poucos, — para lembrar: Nehru, antes de ser primeiro-ministro, passou sete anos em uma prisão inglesa — os 300 mil chineses que os japoneses mataram, e mesmo o que houve entre franceses e vietnamitas antes da chegada dos norte-americanos por lá. Para não falar no êxodo de 1947, durante a troca das populações de Índia e Paquistão, cujo número de mortes chega a 7 milhões.

Enfim, nenhum motivo justifica o banho de sangue que cobre de vermelho a história de alguns povos. Como nenhum motivo justifica o silêncio das suas testemunhas. A omissão é tão, ou mais, danosa que o ato em si, e acarreta conseqüências mais perversas. É tão, ou mais, onerosa moralmente, do que o erro. Porque implica uma impiedosa conivência. A aprovação silenciosa ao erro.

E naquele dia cinzento em May Lai, no ano de 1968, havia uma baixa norte-americana: um soldado que deu um tiro no próprio pé para não participar do massacre, e caiu junto aos vietnamitas.

Isso é tudo que eu sei dele. Todas as vezes que eu vejo alguma matéria sobre a Guerra do Vietnam, lá vou eu, ver se há alguma menção ao seu nome. Não, não há. Pelo menos nas minhas leituras, que não incluem, ainda, todos os livros de Seymour. O tempo foi passando e ele deve estar em algum canto dos Estados Unidos, anônimo.

E eu estou aqui, nesta madrugada de quinta-feira, folheando mais uma revista à procura do seu nome. Que não está lá. Ele vai morrer um dia e eu vou morrer um dia. Não vamos nos conhecer e não poderei lhe mandar um mail singelo: “Oi, tudo bem? Como estão as coisas por aí? Achei você — o senhor? — no Orkut.”

Mas é claro que gente como ele, a quem eu ofereço um beijo e essa flor que está aqui na mesa do terraço, não deve acreditar na efemeridade e no acidentalismo da vida.

E sendo assim, tenho certeza de que nos encontraremos um dia.

 

 


Outras crônicas da autora publicadas no Jornaleco