São Paulo, 11 de outubro de 2004
Uma coisa assim momentânea
Eu estava começando meu ano especialmente zen, o mais zen possível de todos até então. Era a primeira segunda-feira de janeiro, saí de casa para trabalhar meio sem vontade, andando com lentidão, querendo apenas ficar à toa por aí, fazendo nada. Por que mesmo que a gente tem de fazer alguma coisa? No terceiro quarteirão, resolvi que era exatamente isso que eu ia fazer: nada. Parar de trabalhar.
É mentira que o trabalho dignifica. Ele cansa, exaure, estressa, envelhece prematuramente, e é um dos principais responsáveis pelo prolapso da válvula mitral e pela síndrome do túnel do carpo. Sem falar na tendinite braquial, claro.
Resolvido isso, que eu não ia mais trabalhar, dei meia volta e me senti mais leve. Tinha o dia todo livre. O mês. Os meses seguintes. Os anos seguintes. O século. O milênio. Poderia muito bem fechar o apartamento e ir para Délhi. Ou para o Tibete. Ou, quem sabe, para Katmandu. Ouvir Led Zepellin para o resto da vida. Virar rastafari. Enfim.
Entrei em casa, fechei a cortina por causa do sol causticante e sentei no chão em posição de meio-lótus. Budista, eu fazia exercícios diários para saber morrer. Para não ficar presa no limbo quando morresse. Porque essa é uma das principais preocupações búdicas-taoísticas: atravessar o limbo. Que é uma zona azul-escuro e verde, bastante úmida, cheia de cavernas, estalactites, pântanos, plantas carnívoras, coisas pegajosas, nojentas e insetos venenosos.
Há que se construir uma ponte sobre o limbo, eu repetia para mim mesma, em voz alta, todos os dias, enquanto, mentalmente, desenhava-a.
Finda a meditação, peguei uma coca-cola na cozinha, e concluí que para atravessar o limbo, não bastava apenas meditar. Eu teria, também, de me desvencilhar das coisas materiais e imateriais que, eventualmente, pudessem estar me incomodando. Das pequenas e grandes emoções que carregamos. As coisas imateriais seriam bem mais fáceis, uma vez que nunca fui, emocionalmente, apegada a nada. Já as materiais, pelo próprio espaço físico que ocupam seriam bem mais complicadas.
Passei a tarde inventariando-as.
No começo da noite, eu disse ufa! e me joguei no sofá da sala, indiferente ao crepúsculo que acontecia lá fora, porque dentro estava tudo numa enorme penumbra. Eu precisava então, dar um destino às coisas materiais da minha vida. Peguei o caderno aonde fizera o inventário e comecei pelos livros e cds, distribuindo-os entre meus amigos. E assim foi com uma porção de coisas. Quanto aos móveis e a tralha toda da casa, achei melhor doar para uma instituição de caridade. Deixei isso em uma carta escrita ao zelador, instruindo-o para que entregasse tudo a quem de direito e deixasse o apartamento vazio.
À meia-noite fiz um hot-dog, o último da minha vida, e assisti um filme na televisão, um desses filmes de aventuras em que o mocinho pega o avião e...
...quanto será que custa a passagem até o Tibete? A moça da companhia aérea atendeu e pediu que eu ligasse para a agência de passagens no horário comercial. Resolvi fazer as contas meio por cima....São Paulo-Londres-Tibete. Caso não tenha vôo direto Londres-Tibete, o que é mais provável, terei de pegar o vôo Londres-Délhi-Tibete. Deixa pra lá. Em Londres eu vejo isso. De qualquer maneira é caro pra caramba. Acho que vou ter de fazer um empréstimo com o porquinho...
E se eu fosse de trem?
E já eram quatro horas da madrugada quando eu ainda tentava traçar a rota que deveria incluir a famosa viagem de trem até a Turquia. Foi quando me dei conta de que depois teria de atravessar o Paquistão, que é cheio de muçulmanos, sunitas e xiitas. O Paquistão? De jeito nenhum. Amanhã vejo outra rota.
No dia seguinte resolvi que o melhor mesmo seria ir até Londres apenas. Lá eu daria um jeito de chegar ao Tibete de carona. E comecei a arrumar a mala. Além da mochila, eu teria de levar uma outra mala já que ia ficar uns dias em Londres, e Londres é fria, suja, úmida e esquizofrênica. Muito mais do que dá para eu suportar. Coloquei um cobertor, malhas e meias de lã, em Délhi eu me desfaria dessas coisas. Havia também a possibilidade de eu me transformar em um gafanhoto e ir voando até o Tibete. Numa das minhas meditações me foi revelado que essa espécie de transformação — o termo correto é transmigração em vida — ocorre quando nos desprendemos dos valores materiais da Terra. Sejam eles quais forem. Liguei então para a agência de viagens e comprei a passagem até Londres.
Então, senhores passageiros com destino a Londres, prestem atenção: o gafanhoto é o elo entre o tempo e a nossa estranhíssima civilização.
Apertei o cinto de segurança, fechei os olhos e comecei a recitar o sutra da colheita de arroz, que me pareceu bem apropriado. Para a transformação, evidente. Nunca soube direito se eu já estava em estado de transmigração ou se o avião enfrentava uma zona de turbulência, dado o balanceio suave a que fiquei exposta. De todo jeito, alguma coisa, naquele momento, interceptou meus planos e nada aconteceu. Passei a viagem toda na expectativa de me tornar um gafanhoto e até me esqueci de ir ao banheiro para fumar.
Fumar. É, em primeiro lugar, um enorme desrespeito para com os outros seres humanos, que estão nas cercanias e circunvizinhanças. Depois, colide com as campanhas governamentais, e com o pensamento das ongs, o que pode gerar amplas animosidades. E, finalmente, impede a nossa conexão imediata com os planos superiores. Além de poluir o ambiente e colaborar para a intoxicação e extinção de várias famílias de plantas, que circulam por aqui e que serão pessoas, como nós, numa próxima vida. Por outro lado, os Livros Sagrados, todos, de todas as religiões, não fazem nenhuma espécie de menção proibitiva ou censura ao tabagismo. Então, quem foi que inventou essa história? O que diria um Lama sobre isso? Não faço a menor idéia. A única vez que vi um, foi em uma conferência e era um Lama americanizado.
Como pretendo ficar sozinha num monastério, ou algo semelhante, nas montanhas, ninguém vai saber se estou fumando ou não. Não vão me incomodar com questiúnculas de menor importância. E é bom registrar que eu sempre fui budista autônoma.
Em Londres andei horas por Covent Garden, com a finalidade de esvaziar a mente, assisti duas peças undergrounds e comi em restaurantes indianos, com os quais sempre estive mais alinhada política e ideologicamente, andei pelas margens do Tâmisa, à mercê de nevoeiros da pior espécie e procedência, e segui em frente.
Segui em frente durante dias, semanas, meses, até chegar a Instant Karma, uma pequena montanha tibetana às margens do Maoist Lake. Não havia nenhum monge à vista. Tampouco monastérios. — Com a ocupação chinesa e as agruras da mesma, foram todos embora, disseram-me as pessoas da aldeia. Mas há uma pequena cabana que você pode ocupar, completou um dos aldeões. — E o Mestre? perguntei. — Quê Mestre?, retrucaram, espantados. — Bom, acho que as pessoas que pretendem trilhar o Caminho do Meio, precisam de um Mestre. — Ahhhh, os poucos que aqui haviam também foram embora.
— Só os materialistas precisam do corpo de um Mestre, disse a Voz, quando comecei, resignada, a subir a montanha. Você, não, continuou a Voz, basta me ouvir. Achei lindo e a partir daquele momento, passei a manter intermináveis conversas com a Voz, que parecia vir do infinito, dada sua doçura e morosidade. Quando ela sumia, eu ficava placidamente jogando paciência no computador. E tratei de, no dia seguinte após minha chegada, assinar o Tibet Daily News e plantar umas sementinhas de maconha, que tive o cuidado de trazer na mochila.
— A montanha, na concepção chinesa, é um dos símbolos da estabilidade. E possui um Guardião, explicou-me a Voz, uma tarde. Porque todas as coisas, mesmo que as que julgamos inanimadas, têm o seu Guardião.
— Mas eu não vejo Guardião algum.
— Ver sem enxergar é muito importante, ponderou a Voz.
— Hum...esse Guardião é um espírito?
— Claro.
— E eu o conheço? quero dizer, já fomos formalmente apresentados?
— Se foram apresentados em uma mesa de reuniões eu não sei, disse a Voz. Mas os espíritos semivisíveis habitam os mundos intermediários. Passamos por esses mundos muitas vezes. Quando estamos com febre, em estado de vigília, de contemplação, de abstração, recolhimento, mditação e febre. Ou quando estamos em ecstasy, perdão...em êxtase.
— Tem a ver com sexo? perguntei. Ops...quero dizer...Aprendi também que os mundos intermediários estão gravados na nossa memória. Sabemos tudo sobre eles. Só não sabemos que sabemos. Ao longo dos milênios, excursionamos por eles incontáveis vezes.
*
Instant Karma não era uma montanha qualquer. À tarde, na hora do crepúsculo, ouvia-se claramente um conjunto de rock tocando nas proximidades. Imaginei, em um primeiro momento, que a falta que o Led Zepellin estava me fazendo provocava essas alucinações auditivas. — Não é, disse a Voz. Trata-se de uma banda de origem ignorada que alugou a casa na outra encosta da montanha. E o repertório deles, resume-se a Led Zepellin, continuou a Voz. E eu já ando pra lá de cheia desses caras e das mesmas músicas, dia e noite, completou ela.
*
Dois anos depois, a Voz me acordou no meio de uma madrugada gelada e disse: — Levanta, que chegou a hora de você partir. Obedeci, absolutamente sonolenta, comecei a juntar todas as minhas coisas, enrolei meu último baseado, tomei meu frugal café da manhã, composto de sementes de girassol torradas, queijo de iaque (s.m., do tibetano "gyak") chá de berinjela, e perguntei: — Partir para onde? Nem amanheceu ainda.— Seu tempo de aprendizagem na montanha acabou, disse a Voz. E o meu carma com você e com essa banda maldita também. Na entrada da cabana há um presente meu para você. Uma pequena lembrança. Guarde-a com carinho. Todas as vezes que precisar, que estiver em dificuldades, toque nela e eu me manifestarei.
Agradeci, comovida, abracei o ar despedindo-me da Voz, e saí. Na entrada da cabana havia um maçarico. Peguei-o afetuosamente e coloquei-o na mochila e comecei a descer a montanha. Antes de sair do Tibete cancelei a assinatura do Tibete Daily News.
Eu nem queria partir, diga-se de passagem. Por mim, teria ficado por lá mesmo. Meu apartamento está vazio, a não ser pelas baratas. A luz cortada. Pilhas de contas, condomínios e IPTUs atrasados. Todos cheios de multas, juros, taxas extras, acréscimos. Quando abro uma das torneiras, saem algumas gotas de água barrenta que fazem um barulho enorme, parecido com um rolo de sucção, se é que isso existe. Depois saem jatos barrentos. Minha vontade é sentar no chão e chorar. Teria feito isso, caso o chão não estivesse imundo. Sem saber direito o que fazer, abri a mochila verde-musgo, tirei dela o maçarico e abracei-o. Ouvi então a voz da Voz:
— Continue a construção da sua ponte sobre o limbo, mas agora em contacto com o mundo.
Claro. Como é que eu não pensei nisso antes?