São Paulo, 15 de janeiro de 2007

 

 

The Chinese Tarot*

 

Mécia Rodrigues

 

Sente-se aqui, nesta cadeira, à minha frente, e embaralhe sem pensar em nada. Corte três vezes com a mão esquerda. Depois escolha sete cartas e me entregue, sem virá-las.

 

1
(four of staves)

O passado é um pluviógrafo enferrujado, um emaranhado de fios desencapados, o chiar de uma chaleira no fogo. Quatro pássaros entalhados em quatro bastões de madeira, a penugem colorida de quatro pêssegos em um prato de porcelana, quatro gotas de azeite derramadas no teu braço.

2
(the emperor)

Um rabicho de cabelo trançado na nuca, mandarinatos, dialetos, o teu nome, a tua identidade: os plânctons suspensos das águas doces.

3
(six of cups)

Deste lado estão os desertos e os caravançarás, serpentes deslizando pelas dunas, escorpiões majestáticos fabricando seus venenos variados. Também estão tuas melhores circunstâncias, tuas claras janelas, tuas estampilhas consignadas a um código de passagem e extravio.

4
(wheel of fortune)

Algumas vezes os mapas te pedirão um solidéu de pêlo, um lacre de jaspe, uma pele de silha. Uma tartaruga marinha a carregar-te no casco.

5
(death)

Esta é a tua alma. Não a que conheces, a que supões conhecer, mas a outra, a única guia de confiança até a terra além da terra dos mortos. Chama-se Ka. Quando saíres do casco da tartaruga em direção ao eixo setentrional e te deparares com os tentáculos de um ser abjeto , volta e chama-a, pois só ela te atravessará, em segurança, por sobre os pântanos.

6
(ten of cups)

Este é o espólio da tua primeira vida, escrito com uma pena suave em tinta da China. O inventário que te espreitou no meio do monturo e dos dejetos: verdugos a apontar-te dedos que têm no lugar das unhas, lâminas de prata e ácido. Lembra sempre deles, pois foi fugindo da sua fúria que aprendestes a escalar os fios dos subterrâneos.

7
(ace of cups)

Esta mulher, com lamparinas, crisântemos e tatuagens, é a espadachim do teu livro de infância, a mosqueteira que carrega dentro de si todas as tuas reticências. É a tua página em branco, teus dígitos, tua veemência, e a ferocidade com que escapas dos precipícios.

 

*este conto foi escrito no começo de 2003, pouco antes de Tarantino lançar Kill Bill. Existe nele a intencionalidade da alma egipcía chamada Ka, o mesmo K de Beatrix Kiddo e de Karim Blair.


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