São Paulo, 23 de junho de 2003
Teu nome
Um cão magro e com um jeito de faminto me olha do outro lado do Pátio do Colégio, my name is Luka, I live in the second floor, isso aqui aos domingos parece uma cidade-fantasma, ouço até o eco dos meus passos no meio da rua. Subo no ônibus mecanicamente, e dou cinco reais ao cobrador. Que não tem pressa nenhuma em fazer o troco. Me apóio na barra de ferro, alheia, meu corpo dobra um pouco à direita, o cobrador estende o troco em duas notas e umas moedas. Olho desolada para elas e sento no primeiro banco depois da catraca. Minto. Não sento. Largo o corpo, que flutua um segundo no ar, depois cai sobre o banco azul. O cão ficou lá atrás, perdido na vastidão de cimento do Pátio do Colégio. O pêlo ralo dos cães da rua, o rabo entre as pernas. Tem alguma semelhança comigo. Passo a mão no pescoço aonde há uma marca como se ali houvesse existido um colar que me machucou durante o sono. O viaduto do Chá passa pela janela, as luzes antigas da antiga cidade, o relógio marca 18.30h, está totalmente escuro agora e num impulso, desço ao lado do Teatro e encosto no parapeito do mirante do Vale. O pipoqueiro parado em frente à estátua me olha de soslaio. Se eu comprar um saco de pipoca com bacon não tenho dinheiro para pegar outro ônibus para voltar para casa.
Yes, I think I'm okay, walked into the door again, passo a mão no pescoço, o toque daquela estranha marca é áspero, irregular, tiro um cigarro e acendo, o pipoqueiro continua a me olhar de soslaio, tentando parecer entretido em mexer a panela de pipocas. Não há muita gente por aqui esta hora. Pelos menosque eu veja. Lá embaixo, atrás de toda aquela imensidão de sombras, um lado da cidade adoece mansamente: seringas, odores, navalhas, garrotes, kalashnikovas, sexo e um suor azedo. Um risco amarelado no meio das folhagens.É uma noite antiga demais para mim. Não sou eu que estou aqui, e no entanto, sou eu. Tiro o moletom da mochila e desdobro-o. Visto-o cuidadosamente, alisando-o depois de vesti-lo. É uma noite grande demais para mim. Gostaria de ser uma criatura de pequenas noites barulhentas, doces e ruídos à mesa, murmúrios na rua, passos no corredor, beijos abafados.
Mais um elétrico dobrou a rua, vindo do Viaduto, não posso nem pensar em perder o último ônibus, de novo remexo os bolsos da calça e todos os compartimentos da mochila à procura de um real. Não tenho. De novo o pipoqueiro gira o eixo da panela.
I guess I'd like to be alone, tão próxima e tão distante de mim, tão ao meu lado e tão abandonado em outros lugares, tão presa à linha que me sustenta, tão lírica olhando a noite.
Formo com os lábios o desenho do teu nome e digo-o baixo, tão baixo que nem mesmo eu posso ouvi-lo e não ouvindo-o, penso que não o disse. E se porventura, vier a repeti-lo daqui a pouco, um pouco mais alto, pensarei que não fui eu, e olharei ao redor à procura de quem poderia tê-lo dito. Que coisas carrega você no nome para tanto me fascinam? Pequenos pirilampos, anjos partidos ao meio, raposas, luas assimetricamente dispostas?
Quer uma pipoca? e o garoto do carrinho me estende a mão cheia. Pego só uma e agradeço. Estou sem dinheiro, sabe como é? Sei sim, ele responde. E como sei. Sorri e volta sua atenção para o carrinho. Agradeço-lhe muito.
Amanhã ele vai vender bem mais pipocas do que hoje, e eu vou estar longe daqui, vamos voltar às nossas vidas das segundas-feiras, esquecer um do outro, e se por acaso nos reencontrarmos, casualmente, em algum lugar da cidade, não nos reconheceremos. Seremos outras pessoas. Não quer mais pipocas mesmo? ele volta a perguntar. Acho que tenho fome, mas queria um imenso hambúrguer e milk-shake, um café depois e, sobretudo, queria poder pagar minhas contas e não estar desempregada, comprar uma caneta nova, uma calcinha de renda e um perfume caro.
Ele olha para mim e diz: bonito o seu cabelo.
É verdade. Passo a mão nele e vejo que um perfume caro não tem importância alguma.
Começa uma garoa antiga sobre nós. Que atravessou anos, praças, ruas, becos, vielas, várzeas, raízes, acompanhandos as suas transformações, e encontra-nos aqui: o garoto e eu. Quase ao pé da estátua de Carlos Gomes, ele em frente a ela e eu de costas, olhando distraída as luzes lá embaixo. Distante de todos os confortos e afetos, eu e ele nos entreolhamos de vez em quando, com um pequeno sorriso de cumplicidade e resistência. O que você faz, ele pergunta? Nada, não faço nada. Ergo a mão e ela fica suspensa no ar, a meio caminho da cabeça dele, que eu quase acaricio, e ele, antevendo o gesto, reclina a cabeça para o lado, e encolhe o corpo, sentindo a carícia que não fiz.
I stay in the second floor, acendo mais um cigarro e minha boca estremece à primeira tragada, lembro de alguns lençóis e livros de cabeceira, café quente e bolachas, uma lagartixa presa à parede, o meu rosto acariciando o seu peito, cada pequeno fiapo de pele aderindo lentamente à minha pele, cada pêlo e cada poro que percorri madrugada após madrugada, manhã após manhã, eu abria os lábios e ficava uns segundos sem respirar, a boca formando um semicírculo de desejo e abando, a janela gris umedecida pelos pingos de uma chuva sem muita consistência, mas ainda assim chuva. Então eu descia o corpo sobre o teu, e deixava minha cabeça deitada sobre o teu pênis. E sobre o teu nome. Tua mão sobre a minha cabeça adormecida e os inevitáveis contágios do tempo. Contágio e desejo.
Me vi sozinha neste domingo, sem dinheiro e sem casa, sem hambúrguer e milk-shake, de frente para toda imensidão negra da noite, como se nela ainda houvesse o coaxar dos sapos de antes, e os pirilampos e vagalumes passeando por entre o meu cabelo então comprido.
Lá embaixo um arqueiro de pedra, retesa seu arco, franze o cenho e dispara a flecha.
E o último, dessa vez era o último ônibus mesmo, virou a rua, pus a mochila nas costas com uma rapidez impressionante e não deixei a mão a meio caminho. Passei-a ternamente pela cabeça do garoto-pipoqueiro e fui embora.