São Paulo, 12 abril de 2008
O Hospital Santa Isabel
Sexta-feira, 11 de abril, quinze para as sete da noite. Meu pai, que tem 93 anos quase, está sentado na sala de sua casa, sem poder respirar direito. E com um inchaço enorme na perna. Chamo um táxi e levo-o ao Hospital Santa Isabel, conveniado à Unimed Paulistana, e por ele escolhido. Sugiro outro hospital, mas ele insiste no Santa Isabel.
O médico atende, tira a pressão, vê se tem febre, enfim, o de praxe. Aí ele me diz que vai pedir uns exames. Pede três: um eletrocardiograma, uma radiografia do pulmão e um exame de sangue para verificar a possibilidade de anemia, entre outras coisas. Pergunto se vai demorar muito para sair o resultado. Ele diz que mais ou menos uma hora e meia. Bom, uma hora e meia, dá pra se esperar ali. Caso contrário, eu o levaria até em casa, e depois viria buscar o resultado dos exames. De toda forma hesito também em sair com ele dali porque o seu aspecto não me parece nada bem. Às 9 horas da noite, chega a Bia, a acompanhante noturna dele. Vou atrás do médico e pergunto se os exames já estão prontos. Porque ele já estava sentado naquelas cadeiras do Pronto-Socorro fazia duas horas. O médico diz que estão saindo. E que sem os exames não se pode fazer nada. Pergunto ao meu pai se ele quer ir à outro Pronto-Socorro e ele diz que não. Fico grudada na enfermaria perguntando a cada 5 minutos para a enfermeira sobre os exames. A Bia já está irritada com o atendimento. E com o fato dele estar ali, mal acomodado. Meia-noite uma enfermeira me diz que a “máquina” estava quebrada por isso todos os exames estão atrasados. Todos quer dizer: todos os exames de todas as pessoas. E o contingente humano ali no Santa Isabel era impressionante. Não havia lugar para que eu e a Bia ficássemos sentadas. O Pronto Socorro do Hospital das Clínicas tem menos gente do que o do Santa Isabel. Aí o médico passa e eu digo pra ele que vamos ter de resolver o problema já: continuar ali sentado ele não vai de maneira alguma. O médico, que nem sabia que a “máquina” que dá o resultado dos exames está quebrada, pede a internação dele. E isso leva mais duas horas, claro. Até que o Seguro Saúde autorize, etc. Peço ao rapaz da internação que agilize um pouco, porque ele não tem idade, nem saúde, para ficar sentado em uma cadeira de banco duro, no meio da madrugada. Mas isso a senhora tem de falar com o médico do pronto-socorro, me diz o rapaz que é encarregado da internação.
Também. Mas não só com ele. A portaria do Ministério da Saúde nº1286 de 26/10/93 e 04/05/94 diz em seu artigo terceiro: O paciente tem direito a receber do funcionário adequado, presente no local, auxílio imediato e oportuno para a melhoria de seu conforto e bem-estar.
Pelo telefone, a Unimed Paulistana me informa que se alguma máquina do Hospital estava quebrada, o correto teria sido o Hospital ter providenciado a transferência dele para outro Hospital para um outro Hospital que pudesse atendê-lo adequadamente.
No comecinho da manhã de sábado a Bia, que passou a noite com ele, me chama. Vou até o Santa Isabel. Procuro a enfermeira responsável pelo andar, e pergunto pelo médico. Ela diz que não sabe a que horas o médico/a designado para atendê-lo vai passar. Que os médicos não têm um horário fixo de visita. Penso comigo: e como todos os parentes dos pacientes aqui internados são ilustres desocupados...Digo a ela que não é necessário falar com o médico dele especialmente. Que eu quero saber do estado de saúde dele, que eu quero saber o que está acontecendo, e por incrível que possa parecer, a lei brasileira até me faculta esse direito. E que qualquer médico que esteja lá, que pegue o prontuário dele, pode muito bem conversar comigo. E mais: o hospital é obrigado a dar informações à família do paciente, sem que eu tenha de esperar 24h por essas informações, já que não se sabe o horário dos "médicos designados" à cada paciente. A enfermeira continuou dizendo que não tinha nenhum médico para me atender. Isso porque bem ao lado dela, escrevendo algo em um papel, a julgar pela roupa branca, havia um médico, que sequer levantou os olhos do papel, afinal, não era da conta dele o que estava acontecendo.
Aí eu desço e peço para chamarem alguém da Administração. Chega uma senhora, cujo nome esqueci, mas que faz um enorme discurso sobre o regulamento do Hospital, o “procedimento” dos médicos — o substantivo "procedimento" atualmente define qualquer coisa, inclusive a feitura de um suco de limão com abacaxi, e a pobreza vocabular vigente faz com que seja usado à exaustão—. Tento fazer com que ela compreenda: — Meu pai está aqui há 14h. C-a-t-o-r-z-e. E nessas catorze horas, eu não fui informada de absolutamente nada. Eu quero saber o nome da doença dele, ou o que se suspeita que ele tenha, enfim...Eu quero falar com qualquer médico. Ela torna a falar sobre o regulamento do Hospital, o “procedimento”, blá, blá, blá.....Eu ainda repito: — Senhora, o Hospital tem de me dar alguma explicação. Ela continua a falar confusamente sobre como se passam as coisas no Hospital Santa Isabel que, imagino eu, seja assim, alguma coisa acima da lei.
A minha paciência taurina, porque mesmo paciência taurina tem limite, acaba. Eu olho muito séria pra ela e digo: — Eu vou dar quinze minutos para vocês chamarem um médico, qualquer um, que me explique o que está acontecendo aqui. Depois disso eu chamo a Polícia.
Claro que nos quinze minutos em que eu fumei um cigarro, do lado de fora do Hospital, claro, passaram trilhões de médicos na minha frente. Para quem não sabe, o Hospital Santa Isabel faz parte da Santa Casa de Misericórdia que é hospital-escola. Nenhum deles veio falar comigo. Minha única alternativa foi chamar a Polícia.
Quando eu entrei no hospital acompanhada de dois soldados, mudou tudo. Atendentes e enfermeiras desmancharam-se em prestatividade: "médico? claro...imediatamente, Soldado...". Em menos de dois minutos, apareceu uma médica, cuja primeira providência foi postar-se em frente ao soldado, e defender com unhas e dentes a Direção do Hospital, mesmo que nada lhe tenha sido perguntado até então, e mesmo sem ter estado lá de madrugada e sem ter visto um idoso sentado em um banco de pronto socorro durante 6 horas e meia (contando mais a hora e meia que demorou a internação). Chegou inclusive a afirmar ao soldado que “não era verdade” o que eu estava dizendo.
Com toda calma o soldado, virou para ela e perguntou: — A senhora já examinou o paciente? Não? então vamos lá examinar, eu a acompanho. Depois a Senhora explica o que ele tem.
Acompanhada por ele, soldado, e por mim, lá foi ela para o quarto. Ficamos os dois, eu e o soldado, parados na porta do quarto, esperando o fim da consulta. Que foi sublime, diga-se de passagem. Magnífica. Exemplar. Comovente. Tirei um lenço de papel do bolso e verti lágrimas de emoção.
Pode-se dizer o que quiser, usar-se a desculpa que quiser, e para isso o Santa Isabel deve ter um excelente departamento jurídico, mas a dura realidade é que o nome disso tudo é má administração e descaso. Porque se isso tudo ocorreu, deixar um senhor de 93 anos sentado em um banco duro por seis horas e meia, negar informações à família do paciente, me parece evidente que a direção está pouco se incomodando com o que acontece nas suas dependências, contanto que a receita fique sempre bem equilibrada. E não falo da receita médica, claro.
Este é o sofá que o Hospital disponibiliza aos acompanhantes dos pacientes. É nele que se passa a noite. É bom ressaltar que trata-se de um Hospital particular, pelo qual paga-se uma fortuna ao Seguro Saúde. Com toda essa espuma à mostra, eu acho que é bem fácil a criação de fungos e bactérias. Mesmo porque não há como lavar e desinfetar espuma.
Aí descemos, eu e o soldado, para fazer o Boletim de Ocorrência.
Que o Brasil acabou, que as instituições faliram, que isso aqui é uma enorme sucata que pode ser considerada lixo atômico, todos nós já sabemos, e há muito. Cumpre, portanto, que cada um de nós, individualmente, aja como cidadão que é, com responsabilidade, ao se deparar com essas coisas. Porque o feitiço....
Enquanto a gentil carneirada for para casa assistir televisão e se satisfizer em reclamar com a vizinha sobre as ilegalidades e arbitrariedades que ocorrem, mais depressa vamos nós pro fundo do buraco. Porque dentro dele, não sei se você notou, nós já estamos.
Quero deixar os meus profundos agradecimentos à intervenção precisa e rápida da Polícia Militar, na pessoa do Soldado Marcelo Almeida, do 13º Batalhão, 2ª Companhia, da Capital, cuja atuação foi fundamental para que o Santa Isabel tomasse alguma providência.