Chove em São Paulo. Chove alucinadamente na primeira semana de janeiro. E com chuva ou sem ela, eu preciso ir ao Fórum olhar os meus processos e reclamar com a cartorária do quanto estão atrasados.
Apesar do Juiz haver pedido urgência na intimação de um deles, o pedido ficou lá dormindo numa pasta qualquer, porque o oficial de justiça está em férias.
Vale dizer que qualquer um deles, nos Estados Unidos, estaria resolvido em menos de um mês.
Então eu cheguei ao imponente prédio da praça João Mendes, que tem tantos elevadores quanto andares e subi. Chove/chovia alucinadamente em São Paulo. Esta é uma cidade chuvosa no verão e garoenta no inverno.
Mas é janeiro, então a chuva desce abafada e quente, os termômetros marcam uns 28 ou 29 graus. Mas o céu nublado e baixo parece que mexe com a cabeça das pessoas. Elas saem correndo e põem pesadas capas de chuva, como se isso aqui fosse a Sibéria. Trocando em miúdos: o Fórum estava com todas as janelas — e são muitas! — fechadas, e nenhum ventilador ligado. Todos os funcionários pareciam esperar que um tsunami passasse por Santos e desse com os costados na Praça João Mendes.
Gentilmente pedi o meu processo à cartorária, me abanando com uma pasta Yes à guisa de leque. Ela atravessou a sala lentamente e procurou-o pelas estantes. Ao meu lado, no balcão do cartório, estava um homem perfumado, engravatado, com um terno cinza-claro, cabelo impecável, etc, etc, olhando o processo dele. Ficamos os dois ali, lado a lado, no mesmo balcão com os respectivos processos, e com algumas idênticas, e também respectivas coisas espalhadas: papéis, canetas, óculos, etc.
Até que eu anotei o que precisava, fechei a pasta, juntei minhas coisas, peguei o óculos , agradeci a cartorária e saí. Feliz, porque na rua ia ter oxigênio.
Mal ando metade do corredor, o homem de terno saí atrás de mim:
— Psiu..você pegou o meu óculos.
Virei a cabeça para trás e disse alto, com um sorriso:
— Peguei o meu, o seu deve estar aí.
E segui corredor afora. Além de tudo ainda aparece um maluco desses, pensei segurando o óculos com força. Mas o sujeito insistia em dizer que o óculos era dele, de modo que eu achei melhor sair correndo pela escada, em vez de esperar o elevador.
É claro que ele saiu atrás:
— Escuta...o meu óculos..devolve o meu óculos!
Não sei como resistimos aos quatro andares sem que um policial ou alguma coisa semelhante houvesse nos parado entre os andares. Ele gritando: “devolve meu óculos!” e eu devolvendo o grito: “o óculos é meu! o que eu ia fazer com o óculos de outra pessoa?”.
Atravessar o saguão com os inúmeros elevadores e filas foi meio difícil, o que fez com que o cara se aproximasse mais de mim. Mas, enfim, ali estava a rua e o ansiado oxigênio, e na porta três policiais com algemas. Agora prendem o cara, pensei. Pena ele ser louco, tão bonitinho, tão bem vestido, com uma aparência tão fina ....
Com o pé na rua, senti uma mão no meu ombro. E a mão agarrou minha camiseta. Com esse gesto brusco, eu escorreguei, é claro. E a praça estava cheia de poças de água. Isso quer dizer que a sola de borracha da minha papete fez vummmmmmmmmmmm..e caímos os dois: o maluco e eu. Os três policiais fardados, que costumam ficar na porta do Fórum, abaixaram a cabeça para ver as duas pessoas deslizando pelas poças.
E no exato momento da queda eu percebi que além do óculos que eu segurava com a mão, havia um outro preso na minha camiseta....Ah, nãoooo...Por Saturno!!! E comecei a me explicar ali mesmo, na poça d’água.
Levantamos molhados, eu e o ex-homem arrumado, bonitinho, etc.
Pedi milhões de desculpas. Falar a verdade, me desmanchei em desculpas. E só não apanhei, tenho certeza disso, porque havia ali, bem do nosso lado, os policiais. Mas aumentei consideravelmente meu vocabulário de impropérios. Alguns eu nunca tinha ouvido.
Até que um dos policiais, bateu no paletó encharcado dele e disse:
— A moça já pediu desculpas e já disse que compra outro óculos novo pro senhor. Dá pra se acalmar agora?
Sorri pro policial, profundamente agradecida. Acho que ele usava lentes de contacto.
Trocamos telefones fixos e celulares, eu e o ex-homem arrumado da vara da Família e Sucessões. Fiquei de ligar na próxima semana após o carnaval. Ou seja, esta daqui.
Então fui para o metrô. Afinal, são só três estações até minha casa e com um pouco de sorte mais nada aconteceria nesse trajeto.