São Paulo, 07 de março de 2010
A sarna
Desde que eu me conheço por gente, e lá se vão umas décadas, eu me trato com homeopatia. Precisamente com o mesmo médico. Dois, na verdade, porque são dois irmãos que trabalham no mesmo consultório, e na falta de um o outro atende. As secretárias também são as mesmas, o que me dá uma sensação de familiaridade e aconchego. Sempre tem um chá pra gente tomar. Então eu estou acostumada a chegar com uma queixa, falar quarenta minutos, sair da consulta com uma receita que raramente excede os 35 reais e que dura dois meses. Digamos que nessas décadas todas, eu precisei de pronto socorro uma meia dúzia de vezes por conta de quedas e dores causadas por elas, especificamente. Um cóccix quebrado e uma síndrome do túnel do carpo, por exemplo. Nenhum dos meus dois homeopatas jamais criticou remédio alopático, pelo contrário, me receitaram quando necessário, e me encaminharam pro PS quando viram urgência. Quando não dava para esperar. Claro, me recomendavam que fosse ao ginecologista, ao dentista, que fumasse menos, essas coisas. Mas nunca saí de lá com uma requisição de exame assinada por eles.O homeopata é um médico que antes de ser homeopata, foi alopata. E aprendeu um monte de coisas sobre medicina. Por incrível que pareça. Essas coisas que estão fora dos exames, etc, mas que são importantíssimas na prática, no dia-a-dia da medicina.
Daí que a minha prima chegou em casa esta semana, vinda da Ilhabela, onde ela mora, resolver umas coisas em São Paulo. E trouxe na bagagem um problema de pele. Alergia. Aquela coisa que coça e se a sua unha for comprida pode arrancar um pedacinho de pele e deixar tudo vermelho e meio machucado. Bom, durante dois meses e pouco, ela já havia passado por um monte de médicos, obtido um monte de diagnósticos contraditórios, tomado uma pancada de corticóides, passado outro tanto de pomadas e tudo que conseguiu foi dormir como um bicho-preguiça. No mais, continuava se coçando como um chimpanzé. Eu ia sugerir uma visita ao meu médico, mas sei que homeopatia às vezes é recebida como uma espécie de bruxaria que, infelizmente, Torquemada esqueceu de extinguir. Se, por acaso, um homeopata erra o diagnóstico, imediatamente hordas de politicamente corretos, a turma que é contra o cigarro também, levanta-se com dúzias de pedras na mão. Mas, se um alopata receita penicilina e o sujeito que toma tem um choque anafilático, tudo bem. Ossos do ofício. Frente a isso e, sobretudo, porque não era eu que estava me coçando, resolvi calar a minha boca.
Não houve nenhum problema social mais grave, a não ser pelo fato do meu gato, isento de pulgas desde sempre, graças aos banhos que ele toma – forçado, é claro –, não ter gostado daquele xec, xec, xec que acontecia pela casa e ter se instalado no alto da estante, em cima das obras dos russos.
Quando chegou sexta-feira, minha prima escorregou na cozinha, caiu e gritou: ai, minha perna! Que ficou inchada na hora. Ok, segura aqui que eu ajudo.
Chamei um táxi e fomos pro Pronto Socorro. Primeiro eles tiram a pressão, medem o batimento cardíaco, febre, fazem um monte de perguntas, e aí encaminham para o médico especialista, é claro. Porque, imagino eu, um clínico geral não freqüentou as aulas de “Como entender uma Radiografia”. Vai daí que precisa de alguém que saiba colocar aquela bagaça na posição correta, acender a luz, e tchan, tchan! Identificar uma fratura. Deve ser algo assim...como direi? O máximo da complexidade, reservado apenas aos Eleitos, aqueles a quem Esculápio reservou as aulas de Ortopedia.
Então, o ortopedista olhou a radiografia e disse que aquilo ali era uma simples torção. Não tinha quebrado nada. E a minha prima, por conta da dor, se coçava mais que nunca. Então eu não agüentei, e resolvi fazer uma gracinha. O meu bom e velho espírito de porco dando sinal de vida. Olhei pra cara do ortopedista muito séria e disse assim: — olha, o médico particular dela disse que ela está com sarna. O ortopedista fez uma cara de horror, afastou a cadeira da mesa, levantou-se e disse: — espera aí que eu vou chamar o clínico geral. Porque sarna faz parte dos estudos dos Escolhidos por Esculápio para compreenderem os seus mistérios, e não seria um reles ortopedista que ia se meter a examinar esse horror.
Não deu tempo de ela dizer que não tinha sarna. Até porque, eu fui tão enfática e prolixa, que ela ficou em dúvida. E esse meio segundo de dúvida foi o suficiente para que aparecesse corredor afora, a tripulação da Nave Nostromo, devidamente paramentada, luvas, aventais até o pé, protetores de cabelo, máscaras, e indicasse à ela uma sala que tinha uma placa onde se lia “isolamento”.
Ai, meu saco, eu pensei.Isolamento que dizer: para que ninguém saiba que tem lá alguém com sarna. Pronto Socorro que se preza, em hospital top de linha, não pode ter cliente com sarna sentado no banco, esperando a vez. Eles passam na frente mesmo.
Se eu tivesse dito: aids, lepra, pênfigo, câncer, esquizofrênia, ninguém teria se incomodado tanto. Mas sarna? Ocorre que aids, lepra, pênfigo, exames de sangue acusam. Mas sarna não. E que diabo é um médico hoje, sem o raio de um exame de sangue, urina, fezes, saliva e sei lá mais o que, na mão? E sem certeza do seu vaticínio e correndo o risco de sair do plantão se coçando?
Então houve uma agitação fora do normal no P.S e eu fui lá fora fumar. E como estava uma noite estrelada e parcialmente fria, eu achei melhor voltar pra casa. De onde mandei um torpedo pra minha prima: “boa sorte por aí, por mim eu teria te levado ao meu bruxo,...ãhn..., digo, homeopata, mas com esse aparato todo, quem precisa de homeopata? Logo você vai se ver livre da sarna”.
Quando eu entrei, sozinha, meu gato abandonou a estante dos autores russos e se posicionou na cozinha esperando um café. Ele não toma café, mas sempre rola um biscoito. E, verdade ou mentira, ilusão ou realidade, derrubou um livro que eu queria reler há muito, embora tenha ido parar nos russos por engano, apenas pelo título: Miguel Strogoff.
Estou no pedaço em que ele parte para a Sibéria e uma moça senta-se ao lado dele no trem.
Outras crônicas da autora publicadas no Jornaleco