São Paulo, 08 de março de 2004
Pequenos heróis
"Infeliz é o país que precisa de heróis"
Bertold Brecht - Nas selvas das cidades -
De vez em quando, motivada por uma música que tocou ao acaso no rádio, ou por causa do cheiro de doce de moranga com cravo e, até mesmo, pelo som quase inaudível de uma voz, eu retorno à minha adolescência, com suas chatices e encantos de adolescência. O maior deles para mim era, e sempre será, a total despreocupação com o futuro.
E por causa do doce de moranga com cravo, de um cartão-postal amarelado, e de uma virose muito forte, eu voltei um pouco ao passado. Caminhei comigo por esta cidade, revisitando lugares, cenas, intenções, respostas processadas ao acaso e eufemismos. Talvez eu precisasse resgatar um gesto, uma atitude, uma reação. E acabei dando de cara com uma profusão de imagens dentro de um caleidoscópio chacoalhado, sons claros e remotos, alaridos, fantásticas descobertas, esquinas difusas e antigas, pedaços enevoados de lembranças.
Quem eu era quando tinha 18, 19 anos? Uma menina bonita, em primeiro lugar, porque com essa idade não dá para ser feia, de jeito nenhum. E estabanada. Que pulava a janela do quarto e saía pra rua, uma leve ladeira nas Perdizes, e voltava de madrugada, suja e suada. Quem eu queria ser? Não me lembro se naquela época, ou em alguma outra, quis ser "alguém" que não fosse eu mesma. Mesmo eu não sendo nada ainda. Eu gostava de escrever, era o muito pouco que eu sabia sobre mim. E queria ter uma casa na praia para poder me trancar lá e ficar escrevendo de madrugada, em uma sala cuja janela daria para os rochedos, com ondas quebrando sobre eles. Era o que eu sonhava. A bem da verdade, eu nem sabia exatamente o quê eu queria escrever. Então escrevia, como agora, uma profusão de coisas fragmentadas, em cadernos, cadernetas, agendas, blocos.
Faço um esforço, vasculho anos, datas, procuro pequenos ou grandes heróis que pudessem ter me atraído e nada. Eu não queria ser ninguém. Às vezes eu não queria ser nem eu mesma, mas daí a querer me "trocar" por qualquer pessoa, morta ou viva, ou por algum personagem literário, ia uma grande distância. Claro que havia os momentos em que gostaria de ser mais baixa, mais alta, loura, ter olhos azuis, uma desprendida jovem missionária na África, uma estonteante Barbarella, a atriz preferida de Bergman, Florence Nightingale, Madame Curie, Isadora Duncan. Mas isso durava pouco tempo, duas horas se tanto e, geralmente, acontecia depois da saída da última sessão de cinema.
Com 19 anos, exercendo pela primeira vez a minha vocação de autodidata, fui estudar fotografia. E montei em casa um pequeno laboratório. Nos meus cadernos colei fotos recortadas de revistas: Cartier-Bresson, Dong-Hong Ouai, Otto Stupakov, Aldo Simoncini. E me prometi que dentro de um ano, quando fizesse 20, saberia tudo de fotografia. Manuseando líquidos, provetas e pipetas, decorando símbolos químicos, dissolvendo reveladores e fixadores, limpando a bagunça toda, um ano depois eu não sabia tudo sobre fotografia, é claro. Mas, curiosamente, sabia muito mais do que poderia imaginar sobre artes gráficas. O suficiente para, tempos depois, ter pedido um emprego de repórter na revista Placo+Platéia e ter acabado como sua diretora de arte.
Passei um ano andando pela rua "enquadrando" cenas, e colocando-as em um filme imaginário que mudava de nome e enredo a cada nova semana. Indiferente a quem estivesse por perto eu juntava polegares e indicadores, e "fechava a câmera" no melhor ângulo. Pode-se dizer que eduquei meus olhos, plasticamente falando, a ver o melhor ângulo do mundo. Isso me valeu um tique que nunca me livrei: o hábito de apertar os olhos, ou fechar um deles, quando dou de cara com algo novo. Eu processo as coisas em quadros cinematográficos, em 24 lentos quadros. É isso. Só que agora sofistiquei o processo: eu "monto" o quadro, e depois crio o texto em cima. A máquina digital salvou um pouco a minha pele, devo admitir.
Mas eu não tinha nenhum herói no mundo da fotografia, nem nos outros mundos, que começavam a se abrir e a se multiplicar.
Ninguém que eu desejasse ser. Apesar do recém-descoberto mundo das imagens em laboratório. Eu não queria ser Cartier-Bresson, nem Otto Stupakov, nem ninguém. Me agradava muito ser a Mécia, simplesmente. Talvez os heróis, fictícios ou reais, tivessem personalidades muito rebuscadas para quem pulava a janela de madrugada e fazia coisas prosaicas.
Muitas pessoas que passaram pela minha vida nessa época, marcaram-na para sempre. E vou citar três: A primeira foi Maria Bonomi. Como eu fiz umas fotos pra ela, - apesar da minha pouca idade e maturidade - tive o privilégio e a felicidade de estar com ela durante algum tempo. E observando-a, aprendi um monte de coisas, todas elas muito importantes: aprendi tudo sobre tenacidade, força, paciência, empenho. E também aprendi que a arte é um longo caminho onde um humilde artesão cumpre um pequeno ofício.
Outra pessoa importante nos meus 20 anos, foi o Kiko Jaess, que montou um grupo de teatro na Escola de Comunicações da USP, o Tecausp, e depois me chamou para fazer algumas peças. Fazer teatro universitário foi fantástico. Foi um dos melhores contactos que tive com textos, e a partir dali, aprendi a "ouvir" o que eu escrevia. Aprendi o peso da palavra, e como manuseá-la, focando-a com suavidade ou aspereza.
E do teatro profissional, veio a pessoa cuja convivência, foi para mim uma das mais ricas e marcantes: o ator Lourival Pariz. O Pariz não fazia concessões à televisão, que ele odiava mortalmente, que achava banal e vulgar. Aliás, não fazia concessões a nada. Ele era apenas o Juan dos Convalescentes, o Stanley de Um bonde chamado Desejo, o Dom Chicote de uma peça infantil. Conheci-o quando fui assistir Os Convalescentes. Claro que me apaixonei imediatamente quando o vi. Não ele, mas o Juan em cena. Claro que namoramos. Pariz falava horas sobre atores, autores, sobre palco, sobre cena. Sem nenhuma complacência com os grandes erros do teatro, e isso eu achava bonito. Muito do que aprendi sobre teatro foi com ele, mas com ele mais aprendi a não fazer concessões, a ser reta no meu caminho por pior que ele se mostrasse. Fomos grandes, queridos e ruidosos amigos a vida inteira. Pouco antes dele falecer, fomos ver Tio Vânia em Nova York, do Louis Malle, que ele adorava. A peça, a montagem, a interpretação, a direção de Malle. De madrugada, andando pela Paulista prometi-lhe um monólogo. Não tive tempo de concluir esse monólogo, mas falta de tempo é a mais descabida desculpa, para quem escreve até em pé no ônibus. O mais provável é que eu não saiba mesmo escrever para teatro. Mas fiquei devendo alguma coisa à sua memória, eu sinto isso.
São as três pessoas que marcaram os meus vinte anos, e os anos depois dos vinte. Mas não eram os meus "heróis". Não vi neles nada de heróico ou extraordinário. Vi três seres que deram um duro danado para chegar onde chegaram. Eram pessoas que tinham muita coisa a me mostrar, mesmo quando calavam, e passei boa parte do meu tempo escutando-as e observando-as com o máximo de atenção. Daí a vestir a pele de uma delas e com essa pele emprestada caminhar pela vida, vai uma grande distância.
Mas, lamentavelmente, o que eu tenho visto isso ocorrer nos dias de hoje, com uma grande freqüência são as vidas "emprestadas" que se tomam. Pequenos heróis da tevê e das histórias em quadrinhos que povoam mentes e almas, e que muitas pessoas carregam consigo quando já deviam ter se livrados delas, em busca de uma identidade própria. Mas, não. Vestem-se e penteiam-se como a fulaninha da novela, andam como o não-sei-quem dos quadrinhos, etc. Repetem os seus gestos, o seu modo de falar, usam roupas semelhantes. Existe um abismo entre gostar de alguma coisa e querer ser essa "alguma coisa".
Observando o mundo, este imenso e vasto conglomerado de grifes, óculos caros, carros, flats e celulares, não me espanta que haja por parte das pessoas uma identificação com heróis de quadrinhos, seriados e novelas. Alguém imagina Alexei Karenin ajeitando o óculos no retrovisor do carrugem e dizendo: "é um Armani". ?
O vocabulário que se usa hoje, está resumido à meia dúzia de palavras que expressam absolutamente tudo que se passa na alma humana, se é que se passa alguma coisa que ainda não foi de roldão ladeira abaixo, junto com os últimos quinze minutos de fama tão bem preconizados por Andy Warhol. A indigência vocabular das pessoas é assustadora. Uma breve leitura pelos blogs na internet, com dois acertos ortográficos por linha, nos dá a dimensão exata da tragédia incultural que grassa por aqui.
Eu sou da existencialista e despojada geração do "quem sou eu?", a ultima geração que leu. Nós sabíamos que tínhamos de ser alguma coisa, e buscávamos por ela, mesmo que para isso deflagrássemos enormes crises. E a minha busca particular foi pontilhada de grandes desacertos, trajetos irregulares, infindáveis recomeços.
Às quais: crises e recomeços, sou muito grata.