São Paulo, 21 de julho de 2003
Pequenas Prostituições
Entro no elétrico e sento no banco que fica em cima do pneu, o elétrico que vai para o Ipiranga, o Gentil de Moura. Quando eu voltar, porque eu vou voltar tarde e no mesmo ônibus, ele vai passar pela Liberdade, ali onde ela encosta ao Glicério, e há uns bares sombrios, com algumas prostitutas decadentes. O que quer dizer decadentes? Quer dizer que são aquelas que não mais satisfazem ao mercado, seja por uma questão de idade ou de descuido físico, ou por ambas, ou ainda por nenhuma das duas, mas de uma terceira razão, desconhecida, que o mercado comanda. Vou olhar disfarçadamente para elas, como já fiz outras vezes, e perceber que: são bem mais jovens do que eu, conseqüentemente as suas peles são mais firmes e sem rugas, e aí começa uma enorme lista de comparações para eu conseguir estabelecer o que seria essa decadência que o mercado denuncia.
Fica claro que há todo um conjunto de coisas que contribuem para que o vocábulo se construa com todo o seu peso, sonoridade e recorrências. Um cenário que as incluem na categoria de decadente. Um bar sujo, antigo e mal-cuidado em uma rua que tem pensões e promiscuidades. Por promiscuidade entenda-se aqui a evidente exposição pública das suas mazelas. Uma rua que, aos poucos quer retomar o seu ar de classe-média-baixa-civilizada, talvez expulsando das suas calçadas os cachorros magros e sarnentos e as crianças gritalhonas. Expulsar não é o termo. Ninguém expulsa ninguém de lugar nenhum. Se a rua se transformar, seus habitantes seguirão essa transformação, com toda a naturalidade.
As prostitutas também? Presumo que sim. A palavra prostituição enquadra mulheres e homens que vendem o seu corpo, ou parte dele, nas ruas e casas noturnas, mediante um acordo comercial, que deve, pelo menos, teoricamente, incluir uma espécie de coito carnal, apertos de mão no final e desejos de que o próximo Natal seja muito bom. Saiu disso e o termo perde a sua força e significado. Mas a história do mundo é um longo relato de pequenas e ocultas prostituições que, firmadas em outros parâmetros e com ritos sociais que as maquiam, perderam a sua característica de meretrício. Nem por isso a sua prática deixa de ser consumada, mesmo que sob uma civilizada indumentária. Livre de qualquer estigma e constrangimento.
Praticadas dentro das suítes dos Jardins, e das mansões do Pacaembu e Morumbi, noite após noite. Alguém se despe a um corpo estranho ao seu, sem nenhum desejo ou algo que se aproxime do desejo em sua acepção. Algo que se convencionou chamar desejo. Que vem a ser muito diferente do desejo propriamente dito. Um corpo limpo, bem cuidado, de cabelos macios, e lingerie cara. O outro corpo ao seu lado, comprou tudo isso e sabe que comprou. O corpo feminino teve a oportunidade de vender-se um pouco mais caro e o corpo masculino de comprar um outro corpo à sua maneira e gosto. O que difere as prostitutas do Glicério daquelas dos Jardins, além da aparência, claro, é em primeiro lugar a roupagem, em segundo a convenção social, e em terceiro, pasmem! a honestidade.
Na maioria das vezes, quem dá casa, comida, perfume e champanhe, sabe, ainda que se cale sobre isso, o nome da troca que faz. O que nenhuma das duas partes sabe, é que desejo é uma coisa muito diferente de sexo. Que a segunda pode subsistir sem a primeira, e que deve continuar subsistindo. O impulso e a energia que move homens e mulheres em busca de parceiros, busca essa que os séculos refinaram, não é exatamente a mesma coisa que desejo.
Há uma ordem mais ou menos natural nisso tudo. Um pouco embasada pelos chamados itens de sobrevivência, acomodada nos nossos milênios de planeta. E o feminismo foi pra onde depois daquele seu grito de guerra da década de 60? Não era isso que as mulheres queriam? Libertar-se do jugo masculino e serem donas dos seus narizes? Parece que era. Mas não deu certo.
Continuam sob o jugo de quem lhes dá casa, roupa lavada, champanhe, lingerie e perfumes. Quando dá, evidentemente. Faltou nas palavras de ordem de 68, a compreensão do que seria esse "jugo". Faltou a o reconhecimento de que, disfarçado sob outros nomes, termos psicanalíticos e convenções, o que se pratica ainda são pequenas prostituições. O grito de guerra soou tão alto que parecia que todas as portas iriam se escancarar. Mas já estavam escancaradas.
O que se conquistou foi o direito de gritar bem forte e mais nada.
Fui tão longe quanto o ônibus.
Aperto o botão do ônibus, a porta traseira se abre no começo da avenida Nazaré, em frente ao Corpo de Bombeiros. Desço.