São Paulo, 23 de junho de 2003
O Velho da Montanha
A história de Hassam I Sabbah, se perdeu há muito. Faz mil anos que ela aconteceu e não há dúvidas de que foi adulterada, um pouco por conveniência, um pouco por orgulho. Porque o mundo muçulmano, cujo poder Hassam conseguiu colocar em xeque, pelo menos moralmente, dificilmente admitiria a superioridade de um homem que, enlouquecido no dizer da época, fundara uma dinastia, e opunha-se ferrenhamente ao islamismo. Vale lembrar que os soberanos árabes de então se comportavam no melhor estilo estalinista. Pode-se até dizer que Stalin inspirou-se neles e nas suas práticas. Isso remete ao óbvio: Hassam não era contra um governo democraticamente eleito pelo povo, como os de hoje. Ele opunha-se aos sanguinários e dementes da sua época.
A história seduziu William Burroughs, escritor norte-americano que morou no Marrocos durante 18 anos, reabilitou literariamente Hassam e fez com que ele se tornasse quase o seu duplo. Sem nenhuma conotação psicanalítica, que Burroughs não era disso. Ele costumava levar as suas experiências até o fim, não importa como fosse esse fim.
Há uma história de Burroughs em Paris, em um pequeno hotel: um dia, ao se olhar no espelho, ele via em vez da sua imagem, a de Hassam I Sabbah. Apavorado, começou a gritar, e todos os hóspedes correram ao seu quarto. Para surpresa geral, todos os presentes ali, tal como o escritor, viam a imagem de Hassam no espelho.
Hassam estudou com Omar Khayyam em escolas esotéricas, montou um exército, e tomou a montanha de Alamut, — que significa Ninho das Águias — um local pedregoso e de quase impossível acesso, a dez mil pés de altitude, ao norte de Teerã, e ao sudoeste do Mar Cáspio. Diz a lenda que ele drogava seus exércitos, daí a origem da palavra assassinos, no século XIX, criada por lingüistas e historiadores franceses. Ela chegou ao francês assassins, através de hashishins, “comedores de haxixe”. Convém lembrar que o haxixe, tanto quanto o vinho, fazia parte da cultura persa da época, o que me faz crer que os exércitos de Hassam, posicionados na montanha, não precisavam de nenhuma ordem especial para consumi-lo à vontade. O haxixe, como elemento recreativo, chegou ao Ocidente muito depois. E dificilmente um “exército drogado” teria conseguido defender Alamut do mundo árabe, que queria sua queda, por trezentos anos.
Em Alamut, Hassam construiu seu palácio-fortaleza, e treinou um exército de jovens mulheres, descritas como lindíssimas, com a finalidade de manipular as mentes das pessoas. Hassam, embora fosse contra as religiões, era um adepto da não-violência física. Na biblioteca que ele construiu, deixou uma autobiografia precoce. Tudo isso: castelo, exércitos, mulheres, pássaros e jardins, foi destruído três séculos depois. E lá se foi a biblioteca junto.
(Não imagino como ele construiu jardins em Alamut, e como poderia haver pássaros por lá, mas os jardins também fazem parte da cultura persa da época. E o jardim era a idéia que todas as religiões faziam do paraíso. Há inclusive uma história de que o terceiro Velho da Montanha, chamaod Saladin, começou a preocupar seus criados, saindo sozinho todas as madrugadas. Resolveram então segui-lo. Encontram-no no enorme jardim, conversando com um pássaro, que ele dizia ser Hassam reencarnado.)
Hassam opunha-se ao islamismo e tornou-se o grande pesadelo dos ditadores árabes. A seita de Hassam, os ismaelitas, alastrou-se até a Síria, fez amizade com os Cruzados, talvez uma maneira dos Sírios e Persas se contatarem sem serem importunados. Os Cruzados ficaram abismados com aquele homem. Fato é que ele exerceu uma grande influência sobre os Templários, pelo seu conhecimento de esoterismo. O que já havia ocorrido antes com os dominicanos. E nessa luta das cruzadas, os muçulmanos tinham um inimigo no quintal de casa.
Não há registros de atrocides, assassinatos, torturas, cometidas em Alamut.
Burroughs atribuiu a Hassam I Sabbah a frase: “Nothing is true. Everything is permitted”.
Havia nesse Velho da Montanha, denominação dada a Hassam e à futura dinastia de rebeldes de Alamut, alguma coisa de libertária que chamou a atenção de Burroughs.
Não interessou aos persas passarem ao Ocidente quem foi Hassam, e os ocidentais que o contataram, os cruzados e a Igreja, depararam-se com um conhecimento esotérico que também não interessava divulgar. Principalmente a arrogante Igreja, que se julgava detentora de todo o conhecimento esotérico da época.
Os mongóis acabaram tomando a fortaleza de Alamut e destruindo sua biblioteca, fazendo então com que desaparecessem os escritos de Hassam I Sabbah.
Digamos que tudo que eu escrevi seja uma grande mentira. Digamos que a minha memória me traiu, meio perdida entre tantas leituras de lendas a ele atribuídas. Digamos ainda, que eu preferi olhar com simpatia apenas um lado da coisa, a exemplo de Burroughs. Não faz mal. Como lenda é uma grande história.
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Leitura recomendada: 1. The assassins – Holly Killers of Islam, autor: Edward Burman, 1987, Ed. Crucible, Grã-Bretanha. 2. Literary Outlaw, the life and times of William S. Burroughs, autor: Ted Morgan, 1988, Henry Holt and Company, New York.