São Paulo, 07 de julho de 2003
O soldado japonês e a linha do obstáculo
Faz alguns anos. Uns dez talvez. Era inverno e garoava. Quando a garoa cessava, descia uma névoa pela rua. Nem me lembro mais o que eu fazia naquele lugar àquela hora, mas era uma madrugada perigosa e cheia de sombras. Mas como havia ali, quase encostado ao muro da casa da esquina, um soldado japonês, impecavelmente fardado, eu achei que poderia estacionar e fumar um cigarro sem preocupações. Fiz isso. E liguei o rádio. Ele nem me olhou.
Bem ao seu lado estava um arbusto que a noite enegrecia. Às vezes ele abaixava as pálpebras e olhava para os lados com o canto dos olhos. Imaginei que talvez fosse a sua função de sentinela que o obrigava a fazer isso, mas passada uma meia hora, percebi que do lado onde ele olhava uma densa nuvem branca-acinzentada vinha vindo e parava a dois metros dele. Um nuvem que se confundia com a névoa. Que nem devia ser névoa.Eu tinha uma sede enorme e suspeitei que fosse febre. E era. Só me dei conta dela quando cheguei em casa, bem mais tarde. A febre justificava toda uma série de coisas que aconteciam comigo. Por exemplo, a visão da nuvem. Mas enquanto eu estava lá, afundada no carro, ouvindo The Cure, tudo era absolutamente real e possível.
Na farda, torno a repetir: impecável, estava bordado o nome dele: Eiji. Então eu abri a janela e chameio-o: -— soldado Eiji.
Ele me olhou com seus olhos negros grandiloqüentes, sem mover um músculo do rosto, e disse-me várias coisas.
Não sei a sua idade, esqueci de perguntar. Mas calculo que ele deve ter entre 20 e 24 anos. Talvez até 19. As frases que dizia, vinham em ondas e com a febre e a madrugada cada vez mais dentro de mim, eu não as escutava mais. — Não faz mal, ele disse, tudo que você precisa saber está gravado dentro de você. Me pareceu sábio demais para um jovem da sua idade. Mas como tudo que estava acontecendo comigo, já estava além dos limites do provável, parecia lógico que me dissesse isso.
Fiquei um bom tempo lá, e depois fui pra casa. Com muita febre. Deitei e dormi.
Várias vezes voltei àquela esquina, a aquele quarteirão e nunca mais o vi. Várias vezes, pela rua, parei ao lado de um arbusto que me parecia o daquele lugar e fiquei ali esperando que ele aparecesse e dissesse algumas coisas. Ele não voltou a aparecer. Não tão claramente como aquela noite. Mas ficou uma coisa no ar, um acordo tácito entre nós, que um dia ele voltaria, provavelmente pra me dizer mais coisas.
Então fiquei pensando: será mesmo que ele estava ali pra conversar comigo? Porque talvez nem fosse para isso. Talvez fosse para me acompanhar entre as fronteiras e as travessias, as tempestades e as névoas, as brumas e os desassossegos.
Hoje, arrumando a mochila, a imagem dele me veio de uma forma muito forte. Parei tudo que estava fazendo e procurei-o pela esquina, pelo jardim, pelo terraço de casa, pela rua detrás, pela avenida. Ele estava em todos essas lugares e não estava. Eu olhava para o lado e um rastro da sombra dele permanecia no ar. Pus mão na testa e percebi que estava com febre. Uma febre que chegou insidiosa no final de semana e se instalou sem nenhum motivo.
Nessas horas, Eiji comunica-se. Os olhos quietos, como se olhasse além de tudo isso aqui, para uma linha imaginária, um segmento de reta que atravessa o meu coração e chega ao centro do universo. Não entendo muito bem o que ele diz, porque boa parte das vezes, ele fala baixo e sussurrado.
Mas sei que vai me acompanhar na próxima viagem. Por isso, deixei a mochila aberta para que, se necessário, ele ponha nela parte da sua bagagem.