São Paulo, 09 de junho de 2003


Os nomes da cidade

 

 

Mécia Rodrigues

"Cheguei ao nome da cidade,
não à cidade mesma espessa"
Caetano Veloso

 

A cultura, ao contrário da sabedoria que necessita de atributos morais para existir, nem sempre está ao alcance de todos os que se acham detentores dela. Julga-se que cultura é um ininteligível emaranhado de frases sobre sociologia, psicologia e lingüística, dispostas ao longo de páginas e páginas. Que, em alguns casos, acabam garantindo aos seus autores, quando são professores universitários de faculdades públicas, um acréscimo ao salário, ao defender uma tese. Então, os nossos acadêmicos, que não muito diferem dos acadêmicos lá de fora, passam a vida a escrever sobre o mesmo assunto, até porque, tudo que conhecem são teorias e mais teorias, tão obtusas quanto seus escritos. Leram Drummond, Guimarães Rosa, Graciliano — cuja idéia sobre o texto "enxuto" não vem de outro lugar que não o da escrita da língua inglesa, língua esta que justifica os parágrafos curtos, uma vez que não flexiona verbos. Confundir um texto burilado e trabalhado com parágrafos e frases curtas é, no mínimo, engraçado —, e leram mais uma meia dúzia de autores, os oficializados pela cultura estatal, evidente, e passam a vida escrevinhando, incansavelmente, sobre eles. Acabou. Saindo da sua pequena área, das suas Clarices, Pessoas e alguns amigos de ocasião, parece que nada mais conhecem. Cultura é uma outra história, bem mais ampla do que teorias.

Duas coisas uma pessoa precisaria saber bem na vida, até para adquirir uma identidade interna mais inteiriça: a sua língua em primeiro lugar. E a segunda: a história da sua cidade. Do lugar onde vive. Que tanto se faz através da cultura popular, com seus casos, lendas e personagens, passados oralmente de geração à geração, quanto o que dela existe documentado, registrados nas Atas da Câmara Municipal e nos antigos mapas. Evidente que eu não pretendo que todo cidadão saía por aí lendo atas de 500 anos atrás, e passe as tardes de verão nas seção de mapas antigos da Biblioteca Municipal. Mas, seria bom que aqueles que se dispõem a falar sobre cultura o fizessem com maior acuidade e zelo. Ou então que fossem fazer outra coisa, mais ligada à recreação, talvez. Aí sim, estariam menos comprometidos e poderiam rechear páginas e páginas de bobagens, impunemente.

Cansei de ler, em livros ditos "históricos" a explicação para o nome da Rua Direita. Que é a de ser "uma rua em linha reta, por oposição à uma rua torta" que lá existia à época que foi nomeada. Parece ser a mais óbvia explicação. Mas revestida de ingenuidade. E acabo de ler isso, na página 31, do livro Rio de Assis, que vem com o selo do Ministério da Cultura. Não é isso, e um pouco de estudo teria feito bem à sua autora, Aline Carrer.

A origem do nome da rua Direita, tanto aqui quanto no Rio, e em outras cidades brasileiras, é a seguinte: tão logo a Bíblia foi traduzida do grego para o latim, as classes cultas portuguesas tomaram conhecimento da história da conversão de São Paulo. E diz-nos essa história que quando Saulo chegou à Damasco e perguntou pela casa de Ananias, foi-lhe indicado um caminho, que ficava naquela rua ali, "à direita". Com o seu fervor religioso, os portugueses, que sempre usaram nomes católicos nas ruas de Portugal e das colônias e províncias ultramarinas, acrescentaram à elas os nomes de São Paulo, Direita e Damasco. Em Coimbra existe a Rua Direita, que diga-se de passagem, é uma rua absolutamente "torta", e em Lisboa há a Rua Direita de São Paulo, para não deixar dúvidas em relação à origem do nome.

Observem os nomes dos anos quinhentos: São Paulo, Santo André, Santos, São Sebastião do Rio de Janeiro, Baía de Todos os Santos, São Salvador, São Vicente. A capital de Angola, fundada em 1575, chama-se São Paulo de Assunção de Luanda, que por sua vez se desenvolveu em torno da Fortaleza de São Miguel. E ainda os nomes das ilhas de Cabo Verde: São Nicolau, Santa Luzia, São Vicente, Santo Antão.

Mas vou continuar lendo, até o fim da minha vida, e talvez nas próximas, que o nome Rua Direita surgiu por oposição à uma "rua torta".

Deixando agora o nome da cidade de lado, e chegando à cidade mesma espessa, é um enorme prazer poder me debruçar no Mirante do Vale, deixar a mochila ali do lado e fumar, entretida com nada, com coisa nenhuma, com as nuvens do céu, com um crepúsculo que vem devagar, acendem-se as luzes, o mp3 toca um Jan Garbarek refinado, e aos poucos as luzes amarelas tomam conta do Vale e as sombras encobrem os primeiros mistérios da noite. Seus deslizes, crimes e fugas. Suas histórias de paixão e penumbra. Seus sussurros e ecos. Seus meninos maus e mulheres nuas.

Não me digam que o cartão-postal de São Paulo é a avenida Paulista. Não se diz isso, impunemente, à uma paulistana de quatro costados que vai ver o pôr-do-sol de outono no Vale do Anhangabaú. A avenida Paulista cresceu e foi alargada, quis se tornar a Quinta Avenida, mas virou apenas o centro financeiro do país. Daí a ser a cara de cidade, vai uma enorme diferença. Mas mau gosto é mau gosto e não se pode fazer nada quanto a isso. Que a chamem de cartão-postal. Afinal, não se ouve música sertaneja em rádios FM? Um dia, assim espero, vai haver outra vez um certo e necessário refinamento à almas e corações e eles talvez se voltem, de novo, ao Vale do Anhangabaú.

E pensando nisso, girei a máquina em todas as direções e dei de cara com o elétrico, saindo da Líbero Badaró e entrando no viaduto do Chá. Olhei para os lados, para dar uma piscada cúmplice pro fantasma de Ramos de Azevedo, que, tenho certeza, ainda está por lá, e entrei no ônibus.

 

 


Outras crônicas da autora publicadas no Jornaleco