São Paulo, 19 de julho de 2004

 

Os livros de Julho

 

Mécia Rodrigues

 

Não fui à Flip: Festa Internacional Literária de Paraty, segunda edição revista e ampliada. Aliás, não vou à Paraty faz um tempo enorme. A cidade foi tombada, passaram as correntes, carro não entra. Mas cresceu uma outra Paraty ao redor da velha e histórica cidade, essa sim, bem modernosa e tumultuada.

A idealizadora e organizadora da Festa é Liz Calder, fundadora e sócia da Bloomsbury e uma das mulheres mais respeitadas do mercado editorial da Inglaterra. Liz viu na cidade, que foi o principal porto de escoamento de ouro para Portugal no século 19, a promessa de um festival de sucesso. E estava certa. Principalmente porque nós, que não fomos convidados, pagamos por ela 300 mil reais e mais alguma coisa. Claro que o caminho desses trezentos mil reais é tortuoso, e passa pela Biblioteca Nacional e Pedro Correa do Lago, o novo “Coronel” da cultura impressa no Brasil, no dizer de Sebastião Nery. A isso soma-se o Unibanco, que é dono de metade da Editora Companhia das Letras.

Claro que a Festa de Paraty teve a presença de Paul Auster, cuja melhor obra foi o roteiro de Smoke, baseado no livro homônimo, que o enorme talento de Harvey Keitel transformou num filme excelente.

Representando a literatura estava Lygia Fagundes Telles. E que exímia representação!

Ao mesmo tempo, circulou pelos jornais a resenha de um livro intitulado Souad.

A capa mostra uma máscara branca sobre um rosto de mulher.

Souad era uma jordaniana, que morava em uma aldeia e que por estar grávida sem ser casada, foi condenada à morte, para vingar a honra da família. O cunhado jogou nela um líquido combustível e ateou fogo. Muito ferida, ela acabou sobrevivendo e foi resgatada do mundo árabe por uma ong. Acho que por uma ong.

O mais chocante na história de Souad, é o que há de mais tenebroso na história das mulheres árabes, vitimas de honras familiares lavadas e de clitóris decepados: todas essas barbaridades são praticadas por mulheres.

...Mas.....?

Mas o quê? São sim.

Não faz dois anos, em Paris, a mãe e a avó de uma menina foram presas por cortarem-lhe o clitóris. A mãe e a avó. Não foram o irmão e o pai. O que levou essas senhoras, já residentes em um país em que tal prática é considerada criminosa a fazerem isso?

Muito embora a cultura árabe seja uma coisa de homens, não vi senão raros casos isolados de mulheres que se insurgiram contra ela. Mas elas não podem, dirão alguns. Seriam mortas. Vão ser de qualquer jeito, e já que vão ser, acho que uma meia dúzia podia muito bem se recusar à algumas práticas mais bárbaras.

O que acontece quando algo vai mal, em qualquer sociedade, é que a culpa é sempre delegada a terceiros, quartos, quintos, à alguma coisa etérea, difusa e distante, como o capitalismo selvagem, o governo e, em última análise, à sanguinária fúria de Bush. Poucos são os cidadãos que resolvem tirar seus traseiros preguiçosos de frente da poltrona da tevê, arregaçar as mangas e fazer alguma coisa. A edificação e manutenção de uma sociedade, qualquer que seja, conta em primeiro lugar com a espécie de deus que a agrega e em segundo lugar com quem lhe dá manutenção. Ou seja, seus cidadãos são responsáveis. Ou coniventes. A transformação de uma coisa em outra é sutilíssima.

Isso faz de quem a pratica, embora pense que não, no caso as mulheres árabes, a pior forma de parasitismo social. Aquele que consente

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Outras crônicas da autora publicadas no Jornaleco