Jornaleco — São Paulo, 19 de outubro de 2007


O meu melhor companheiro



Mécia Rodrigues

 

Eu me lembro da primeira vez que estive em seu consultório em uma tarde de julho. Estava muito frio e eu estava cheia de dores. Faz muito tempo isso. Eu ainda carregava algumas seqüelas de um acidente relativamente grave e estava cansada de consultórios de alopatas que me davam diagnósticos terríveis, e antibióticos que quase me matavam. Então, um dia, no dia em que entrei no consultório dele pela primeira vez, antes de chegar lá, eu havia tido uma crise histérica no centro da cidade. E no meio da minha crise, saí chorando pela rua, passei em uma farmácia, pedi uma lista de telefone, a amarela, e procurei lá: médicos homeopatas. E fui lendo nome por nome, até que gostei do dele: Cid. E daí vinha o sobrenome: Paroni. E eu deduzi que ele devia descender de italianos, como eu. E qualquer coisa que se refira à Itália me lembra de toda minha vida ao lado dos meus avós. Nem me preocupei em marcar consulta. Eu tinha pressa e dor. E estava ali perto.

Fechei a lista telefônica, atravessei o Viaduto do Chá, subi ali pela rua Direita, e saí na praça da Sé. Entrei no prédio, que ficava na esquina da avenida Liberdade com a João Mendes, onde era o seu consultório, e fui para o quinto andar. E nem lembro direito o que eu disse pra secretária dele — a mesma até hoje — mas ela me encaixou ali no meio de duas consultas. Vale ressaltar que eu estava recém-saída da adolescência, e ele recém-saído da faculdade. Fui uma das suas primeiras pacientes. E acho que ele se esqueceu de perguntar quem havia me indicado. E acho que me esqueci de dizer que ninguém.

E aquele tratamento deu certo. E os outros também.

Muitas vezes, antes de terminar o primeiro tratamento, quando a coisa apertava pro meu lado, e eu me desesperava de dor no meio da madrugada, eu ligava pra ele. Para a casa dele. Pacientemente ele me atendia e conversava comigo.

Nunca reclamou dos malditos telefonemas. Que deviam ser um enorme transtorno. Mas que eu não me dava conta disso, claro. Nunca reclamou dos meus maus momentos, quando eu contestava tudo que ele dizia.

E aí o tempo foi passando e eu sarei das seqüelas do acidente. Contra todos os diagnósticos anteriores, que não o dele, contra todas as leis da natureza, contra a opinião de todas as pessoas que me viam tomando “aquelas bolinhas de placebo”, segundo as palavras delas.

O tempo foi passando, ele mudou de consultório, a farmácia homeopática da Praça João Mendes, onde eu estava acostumada a aviar as receitas, fechou, mas ele continuou me acompanhando. Todas as grandes mudanças da minha vida, todas as fases melhores ou piores, todas as dores e alegrias, de uma ou outra forma, desaguaram na sua sala. Todos os projetos que eu tive de soterrar e toda as vitórias. Que não foram poucas, nem fáceis.

De alguma maneira o meu trajeto sempre esteve ligada à ele, nesta em outras vidas. Porque eu creio em outras vidas.

E agora, que o ano está chegando ao fim, eu me sinto na obrigação de confessar que depois da minha mãe e dos meus avós maternos, o Cid é a pessoa mais importante na minha vida. Que ele ajudou o meu caminho a ser mais suave e tranqüilo. Que...

 

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