São Paulo, 18 de agosto de 2003

 

 

O capitão do navio do Golfo do Sião e a alma perdida

(conto)

 

 

Mécia Rodrigues

 

“Isto é praticamente tudo que podemos fazer pelo navio; quanto ao resto ele terá de tentar sua sorte sozinho.”

The shadow-line
Joseph Conrad

 

Abri a porta do café e uma nuvem de vapor, meio diluída, saiu da cafeteira e passou por mim: becos, filmes alemães, postais com palavras ilaceráveis. Antes de entrar olhei para trás, à procura de um céu vermelho, dramático e demente, um assobio, um beijo, uma canzonetta. Mas havia só o rastro de fuligem dos ônibus cansados que subiam a avenida.

O próximo, disse a moça do caixa, cortando assim a linha não muito confiável das minhas recordações: o fundo dos oceanos e suas irregularidades. Café e água mineral gelada, falei, olhando para ela. Com gás.

As sobrancelhas arqueadas, a boca semiaberta, os lábios um pouco ressecados, uma febrícula empírica sem nada que a justificasse, a mochila chinesa de pano, com flores vermelhas estampadas. De madrugada virá aquele nevoeiro espesso, comum no inverno de São Paulo, a janela do meu quarto um pouco aberta, o edredom vermelho, de ideogramas. As minhas coisas excessivamente vermelhas. Vou deslizar pelo travesseiro, segurando um livro com paginas amareladas e confiáveis notas de rodapé, afastar a franja caída por cima do óculos, pegar um sequilho da lata em cima da mesa de cabeceira e maldizer o tempo, a sorte, a eternidade.

Mas isso era bem mais tarde. Agora, 16.40h, a água mineral no fim, nada mais na xícara de café, o cheiro de diesel queimado flutuando no ar lá de fora, o súbito fim de julho sem chuvas, eu ainda tenho até às 18h para deixar o ultimo currículo no ultimo escritório da lista.

*

Era um porto oriental. E ele era o capitão de um navio oriental, porquanto pertencesse, então, a um porto oriental.

E era também a terceira página, mal-traduzida, de um romance de Conrad, que ciente das dificuldades que teve em atravessar golfos orientais, desenhou-os em símbolos caligráficos e teve por eles, não o mesmo amor que sentiu pelo mar, mas um outro, mais consistente e duradouro e com menos ruídos.

E nesse porto oriental, o meu porto oriental, em uma linha d’água densa e delgada, dava para adivinhar um espectro sonâmbulo ao longe: um navio parado na entrada do golfo, esperando que alguém ou alguma coisa o levasse para outro lugar.

Descia um suor grosso e arenoso pelo meu rosto, o suor de cada centígrado do Sião, e todos eles pareciam vir de todos os cantos cálidos da terra e pousar sobre mim. Então o capitão do navio passou pela minha frente. Sem conseguir ver direito o seu rosto, senti um estremecimento: ele portava um passaporte invisível que lhe franqueava a passagem para as minhas mais remotas zonas e latitudes. As que eu tão bem conheço, expostas permanentemente a luz e as sombrias: que estão espalhadas sob as águas escuras dos golfos e cujo acesso é negado até a mim mesma.

*

O porteiro do prédio registrou no computador o número da minha carteira de identidade e me entregou um crachá onde se lia: visitante. Havia três degraus até o elevador e me pareceram longos e distantes. Era a ultima tentativa. Depois....

*

Uma taberna suja e mal iluminada, numa viela perto do porto, que exalava um cheiro de salitre, tabaco molhado, álcool e ópio. Garrafas de absinto e cerveja pelas mesas. Cacos de vidro e moscas. Foi desse lugar que ele saiu da segunda vez que o vi. E começou a conversar comigo com naturalidade. Contou historias de lupanares de Istambul, de macacos de Inongo, e de uma antiga escrivaninha de carvalho do século VXIII. Tinha uma Hasselblad a tiracolo, uma edição de bolso dos poemas de Artaud na mão direita, no pulso um relógio bastante riscado, a barba crescida. Como é o seu nome? eu perguntei. Xon, ele respondeu.

*

Quando saí do prédio já havia escurecido, os letreiros piscavam, a rua estava iluminada. E não sei porquê, me veio à lembrança o capitão do navio. Naquela viela perto do cais, saindo da taberna: os olhos repletos de lupanares rasgavam a noite em duas e crepitavam como fogo sobre a calçada de pedras irregulares.

Quis vê-lo dobrando a esquina, calça jeans desbotada, a japona azul-ferrete que ele jamais usou no calor do Sião, mas que eu sabia ter pequenos botões dourados nos punhos. Quis vê-lo andando por aqui. Vagando pela cidade, cheio de presságios, premonições e advertências. Noturno e compungido. Uma melancolia metafísica e silenciosa. Um estudo sobre o vôo dos pássaros escrito no seu rosto.

*

Ali adiante o Mar de Andaman. Cânfora, laca, pimenta, estoraque. Eu falava lentamente. Não sou rápida, Capitão. Sou prolixa e redundante. Detalhista e persuasiva. Cheia de analogismos e acidente pessoais. Faço longas pausas e escrevo longas cartas. Manuseio e carrego cadernos velhos, cheios de traças. Entendeu? Ele fez um gesto de quem ia tirar o maço de cigarros do bolso da calça, mas parou a meio caminho: o oxigênio que, às vezes, parece faltar no oriente, os barcos vendendo verduras nos canais de Bangcok, estalidos de madeira, luzes baças, fogos de artifício, um dragão atravessando a lua cheia, a minha existência tão inescrutável quanto a presença do navio parado no meio do Golfo. Sabíamos que ele, o navio, como um fantasma, estava lá. Mas não o víamos.

*

Um livro de Conrad, uma música francesa vinda de um rádio cheio de interferências, um filete inespecífico de coisas remotas subitamente reencontradas: carmas, cartas, palimpsestos, eclípticas, éclogas.

*

Na tarde em que listei esse rol de coisas que carregava na memória, pelo Sião, o Capitão Xon se aproximou de mim e disse: Está vendo aquela mancha enevoada, lá adiante, na linha do horizonte? E o céu do Sião, pela primeira vez, desde que eu chegara lá, começou a ficar nublado. Uma nuvem amarelada cobria parcialmente o pôr-do-sol. Estou vendo, Capitão, o que tem ela? Tanto fazia se havia nuvem ou não, naquele calor infernal. É uma nuvem de chuva que está se aproximando, ele falou. E sentou nas tábuas podres do ancoradouro, as pernas soltas no ar. Continuou olhando para a nuvem, penso que era para a nuvem, alheio a mim. Sentei-me ao seu lado, o suor descendo pelo meu rosto em gotas quase corrosivas de tão ácidas. Sabe, Capitão...Aquilo não é uma nuvem de chuva...Aquilo é a imagem de uma alma perdida...De várias almas perdidas...Dos loucos, dos afogados, dos suicidas, das vítimas do Khmer Vermelho...da minha...não sei bem...Ele me olhou muito sério, de cima a baixo. Eu ia continuar a falar, mas uma noite residual e incólume encobriu a nuvem e tive a sensação de falar para ninguém.

Acendi o isqueiro, aspirei fundo segurando a fumaça: é bangh, Capitão, eu trouxe da Índia, quer experimentar? As tabuas apodrecidas rangeram, comecei a rir, alucinadamente, fazendo rodelas de fumaça no ar. Segurei o rosto dele com as mãos: eu vou beijar você. E lá se foi o pouco que restou do meu cigarro incrementado para o mar. E a minha alma, que talvez houvesse sido uma nuvem amarelada no horizonte, estava então transtornada e feroz.

*

No momento em que segurei seu rosto eu soube, tacitamente, que no dia em que ele partisse daqui, para sempre, dos mares e terras em que andávamos, eu iria acompanhá-lo. Essa sensação me deixou estranha por alguns minutos e depois me pareceu óbvia. E, naquele princípio de noite, irregular e atípico, sentada ao seu lado, nas tábuas do ancoradouro, eu disse: não é uma nuvem.

*

Qual o ônibus que eu pego para chegar à rua Marquês de Itu, você sabe? O elétrico que passa na praça da República. Chama Cardoso de Almeida. E nisso, o meu vinha vindo.

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Porque o trânsito está quase parado? perguntou a moça gorda ao motorista, tão logo ele virou a esquina. Foi uma batida ali embaixo, em frente ao McDonalds, ele respondeu. Estiquei o pescoço para tentar ver alguma coisa, não vi nada, passei pela catraca e sentei no último banco.

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Você come pizza congelada? perguntou o capitão. Como, respondi. E também leio Li-Po, em voz alta para os meus gatos, ameaço a empregada com choque elétrico caso ela mexa nas minhas coisas, lambuzo a boca com chantilly quando tomo café cremoso de máquina, e a despeito da sua posição política torta, gosto da inequívoca poética de Wim Wenders e dos diálogos que Peter Handke escreve para alguns dos seus filmes. Ele olhou para a minha cara, divertido.

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As patrulhas noturnas, as açucenas, os açúcares, os adágios. À noite ele acendia um lampião a querosene para escrever seu diário de bordo: mastros de mezena, a rota entre Sevilha e Cádis, cinco libras de bolachas secas, doldruns, sedas, cobiças. O convés solitário, os desenhos do Mar da China, o meu perfume sonolento nos pesadelos mais difíceis.

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Desci do ônibus e ainda tinha quatro quarteirões até chegar em casa. No momento em que meu pé tocou a calçada, me dei conta que estava absolutamente só. Que talvez...Fui bem devagar até o orelhão.

*

Capitão Xon, você está me ouvindo? Sim, estou, onde você está? No telefone público, por isso liguei a cobrar. Desculpe. Não tem problema, ele disse. Lembra daquela tarde no Golfo do Sião? Quando apareceu a sua alma perdida em forma de nuvem? A minhaaaaa? Isso, Capitão, a sua. E aí, você disse alguma coisa como: se você tentar sua sorte sozinha, como o navio parado no meio do Golfo...Eu não disse nada disso! Ah...então ouvi errado...

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Aí eu contei ao Capitão que estava tentando minha sorte sozinha e como ela, sorte, não estava ajudando em absolutamente nada e como, de repente, as coisas complicaram e dadas as circunstâncias que...E a sua lagartixa fosforescente? ele perguntou. Ainda dorme com ela pendurada na parede em cima da cama?

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Lembra da minha lagartixa? Claro que lembro, ele respondeu.

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Ilações, diários de bordo, golfos, trópicos, navios: tudo isso é muito complicado. Tirei um chiclete da mochila e comecei a mascar, enquanto ouvia o que ele falava. Um garoto, segurando um skate, parou ao meu lado. Vou demorar, sussurrei, e ele se foi com uma careta. Do outro lado da linha, tenho certeza, o Capitão Xon olhou uma nuvem amarelada que encobria parcialmente o pôr-do-sol. O rastro de fuligem dos ônibus cansados que subiam a avenida, a noite residual e intacta.

 

Outras crônicas da autora publicadas no Jornaleco