São Paulo, 17 de novembro de 2003

 

Obrigado Brazil

 

Mécia Rodrigues

 

"A música brasileira é talvez uma das únicas do mundo que alcançam a tênue linha entre o consciente e o inconsciente-"

Yo-Yo Ma

 

Gravando um cd de músicas brasileiras, chamado Obrigado Brazil, lançado agora em julho, o violoncelista francês Yo-Yo Ma, filho de chineses, disse isso. Kitaro também ficou louco pela música brasileira. Mas o termo "música brasileira" é vago e pode abranger toda uma gama de sons e barulhos feitos por aqui. Tanto Yo-Yo Ma quanto Kitaro referiam-se à uma música que ganhou a terminologia de MPB nos anos 60.

Não acredito que o recém-lançado cd de Yo-Yo Ma tenha sido um sucesso de vendas. Tampouco que Up for It, do pianista Keith Jarret, possa ser. Apesar da inquestionável e depurada qualidade e da bonita e difícil história da gravação desse cd.

Com tempo o mundo adquiriu um ritmo mais fugaz e inconsistente para o seu novo rosto: tecnológico, globalizado e, pior: uniformizado. Vulgarizado em quase tudo e principalmente nas lamentáveis, bregas e tristes cenas que a televisão, em todo o planeta, mostra. E sempre há pessoas que acham que existe alguma espécie de QI em tevê...

O Brasil exportou novelas, acompanhadas das suas trilhas sonoras que, salvo uma ou outra canção de Tom e Dori, esporádicas e episódicas, são de uma pobreza musical que, na verdade, apenas refletem o embrutecimento artístico de quem as ouve e produz. Ou uma dessocialização musical. Trocando em miúdos: aqui dentro - dizem os sociólogos e assemelhados, muito compenetrados - temos o fator miséria que impede que pessoas com um padrão cultural mais baixo assimilem intelectualmente arte de qualidade. Sem dúvida uma afirmação que beira o radicalismo de Lombroso, mas que parece ser "politicamente correta", quando vista de relance e sem nenhum aprofundamento. Só que lá fora, no que se convencionou chamar de primeiro mundo, acontece a mesma coisa. E não é falta de dinheiro, porque isso eles têm. É indigência intelectual mesmo.

E pensar que o Brasil que exporta pagodes é o país onde nasceu Tom Jobim e Dori Caymmi.

Onde nasceu Cartola, Dorival, Flora Purin, Airto Moreira, Egberto Gismonti, Márcia, Theo de Barros, entre tantos outros. Mas, principalmente, onde nasceu Tom. E Villa-Lobos.

Quincy Jones, num momento de desvario, escreveu em sua autobiografia, do ano passado, que a bossa-nova nasceu com Dizzie Gillespie, em um show, no Brasil, em 1955, e que, por acaso, Tom estava na platéia e "copiou". Ficou ridículo. Ninguém nos Estados Unidos deu atenção ao que Quincy escreveu e quando deram, foi para, imediatamente, colocarem-se contra. Tom tinha, nos USA, um respeito absoluto de todos os músicos. Foi o único compositor com quem Sinatra fez um álbum. Sinatra ao longo da sua carreira, cantou mais Cole Porter, sem dúvida. Mas chamou Tom para gravar um disco. E há uma célebre canção, de Tony Hatch, gravada também por por Petula Clark, em 1964, chamada Downtown, que diz assim: "Just listen to the rhythm of a gentle bossa nova". Por aí se imagina o quanto os norte-americanos ficaram enlouquecidos com o ritmo da música daqueles meninos que começavam a compor no começo da década de 60.

Uma turma enorme de músicos arrumou as malas e se foi daqui. Isso desde o célebre show de bossa-nova no Carnegie Hall, na década de 60. João Donato, Gismonti - que gravou coisas fantásticas com o grupo de Chick Corea e com Jan Garbarek - Carlos Lyra, Oscar Castro Neves, Dori Caymmi, Edu Lobo e tantos outros. Muito tempo se passou até que alguns deles retornassem. Dori, por exemplo, nem cogita voltar.

Esse pessoal todo está fora da mídia. Fora das novelas, das academias de ginástica, do culto à beleza física, das menininhas e menininhos bregas exibindo seus carros, celulares e máquinas digitais pelos shoppings da cidade, fora das marcas de griffe, do mundo fashion, e da precariedade mental que assola o mundo. Ainda bem. Se estivessem misturados à pobre mídia cultural de agora, seria de se lamentar.

Esse pessoal todo pertence à uma outra raça. Sem estardalhaço, onde moram, em Nova Jersey ou no alto de Pinheiros, vão, no seu dia-a-dia, fazendo o seu trabalho, como nós fazemos o nosso. Quase que anonimamente, em alguns casos. Mas, que fique gravado, que se a música caminha, sobrevive, e tem uma história, é por causa de gente como eles.

Lá fora a coisa não é diferente daqui. São sempre as mesmas madonas e jacksons, sejam eles norte-americanos ou franceses. O mito da cultura do velho continente vai desabando tanto quanto o velho continente em si e seu ranço de civilização. É isso: sobrou o ranço.

O Brazil e o mundo musical de Yo-Yo Ma, Kitaro, Dori, Edu, Keith Jarret e tantos outros é tão subterrâneo e intimista quanto cheio de classe e elegância. Delicado e gentil, como cantou e queria Cartola.

 

 


Outras crônicas da autora publicadas no Jornaleco