São Paulo, 23 de março de 2007
O azul passa da conta
Neste país de coisas em excesso
o sol me agride, o azul passa da conta.
— Cassiano Ricardo —
Estou falando do país que tem o maior apreço por velhos comunistas, como por exemplo, Emir Sader o ex-professor stalinista que foi condenado judicialmente por chamar o senador Jorge Bornhauser de nazista, criminoso, etc, e que, apesar disso, teve um razoável apoio da imprensa financiada pelo governo. E que eu nem preciso dizer de quem se trata.(Chico Buarque, com seus sessenta já poderia ir para o rol dos “velhos comunistas”, não fosse sua esperneante jovialidade nas areias do Leblon.)
Continuando: no país de Emir Sader, — o ex-professor que nada conhece da língua portuguesa, mas ainda assim foi elevado ao status de filósofo pelos seus pares—, numa calorenta tarde de janeiro, eu fui com uma amiga ao Juizado Especial Cível para dar queixa de um seu (dela) ex-inquilino que, além de não pagar o aluguel & condomínio por meses a fio, simplesmente fugiu do apartamento, deixando uma astronômica conta de luz.
Neste glorioso país, o pobre coitado, naturalmente, deve ter sido explorado pela minha pérfida e burguesa amiga e, não agüentando mais tal situação, indeciso entre dar cabo da vida e evadir-se para um outro prédio nas vizinhanças, optou — sabiamente, como veremos a seguir — pela segunda. Imaginem que, na fuga, ele esqueceu no apartamento a ex-mulher, que se encarregou de procurá-lo, nada seja porque eles têm uma filha. Em comum, quero esclarecer. Devidamente informada do seu paradeiro-esconderijo, comunicou-o à minha amiga. A burguesa rica e presunçosa.
Que então pediu-me que a acompanhasse ao Juizado. Fomos. Lá ela contou a sua história e preencheu a papelada. A estudante de Direito que a atendeu, depois de ouvi-la, pediu um segundo para ir se aconselhar com o professor. Não foi bem isso que ela disse, mas é o que acontece, à vista de todos. O professor fica sentado em uma carteira escolar em sala contígua à dos atendimentos. Aí ele explicou o que era para ser feito à estudante, que voltou e explicou à minha amiga, e por extensão a mim, já que eu estava lá. Fiquei me perguntando qual o papel da estudante. Não seria mais fácil a pessoa já se consultar com o professor diretamente? Ah, claro!...Deve ser para preencher a ficha.....Porque se aquele ex-professor universitário stalinista escreve Getulho com LH, imagine as pessoas que passam pelo Juízado!
Dois meses depois chegou a hora da audiência de conciliação. Lá fui eu para o Juizado com a minha amiga. A audiência foi exatamente como o dia da queixa: uma estudante ouviu “as partes”, e perguntou se a minha amiga aceitava o acordo proposto pelo seu ex-inquilino inadimplente e fujão, que atualmente é zelador de um outro prédio.
Ao que ela respondeu que aceitava, com um senão: gostaria que o valor que ele se propunha a pagar mensalmente fosse descontado da folha de pagamento. Dele, claro. A estudante olhou para o vazio, pensou, e então pediu licença para ir consultar a Juíza. Volto ao raciocínio anterior: seria mais prático, simples e menos dispendioso, temporalmente falando, colocar a Juíza ali de uma vez por todas. Mas não é assim que funciona. Então, volta a estudante com a informação que isso não pode ser.
Mas, como “não pode ser”? pergunto eu. Se a intenção dele é pagar porque mesmo não pode ser? — Porque a Juíza não vai conceder isso, me respondeu a garota. E porque ele não aceita isso se a intenção é pagar? continuei.
— Bom, porque...
— Quer me parecer, digo eu, perdoe a minha implicância com o pobre excluído...que a intenção é não pagar.
— Pois é, continuou a estudante...Eu estou repetindo o que a Juíza me disse....e virou-se para um sossegado vigarista e disse: — O senhor sabe que se não pagar seu nome vai para o SPC?E ele nem aí, é claro.
Mas reiterou que ia pagar. Todo dia 10 de cada mês estará lá, no banco, na primeira hora útil do mesmo, depositando o dinheiro do aluguel.
Cutuquei a minha amiga: — olha, vamos esquecer isso de audiência conciliatória e vamos à audiência propriamente dita.
A estudante moveu mundos e fundos para nos demover disso porque ia “demorar muito”, e porque teria de se levantar os bens do sujeito. Mas ficou na cara que a orientação é para resolver de qualquer jeito as coisas na audiência de conciliação. Duela a quien duela. E eu dei o meu ingênuo aparte — de quando em vez eu penso que ainda estou no mesmo país que Roberto Campos sonhou e cujo sonho me deixou de herança, e não no país de Chico Buarque.
— Mas é só ir lá e pegar a televisão, o aparelho de som..
— Isso não pode, respondeu a estudante. São bens pessoais!
— Quer dizer..se ele não pagar...?
— Bom.....Bens pessoais...ou seja: o sujeito pode deixar de pagar meses, anos de aluguel, mas não pode ter a sua televisão ou o seu aparelho de som confiscados porque são considerados bens pessoais. Posso entender que não se confisque uma geladeira, um fogão...mas televisão?
Então eu perguntei à estudante: — E porque vocês não disseram de cara que não tem nada a fazer? Que a lei está do lado dos vigaristas? Não que eu não soubesse, eu sei, eu estou cansada de saber, mas eu faço parte daquela meia dúzia de sempre que não se acostuma à essas coisas...e acha que tem uma saída, sabe como é? Porque você não disse de cara que não tinha?
Uma mosca esvoaçou pelo silêncio da sala. Era pouco mais de 17h.
Saindo de lá eu ainda disse à minha amiga: — vende esse apartamento e vai embora pros Estados Unidos. Lá, inclusive, são um país.
Já o país que considera Emir S. um intelectual, o stalinista condenado por difamação e calúnia, e que segundo seu ex-editor, superfaturou um livro sobre o atual governo, financiado por uma ONG alemã, não pode mesmo sair por aí se preocupando com esses pequenos detalhes de leis.
Menos ainda funcionar.