São Paulo, 10 de janeiro de 2011
O agente da Uncle
Hoje, passado um tempo enorme, passados vários invernos, troca de jaquetas e suéteres, cidades e becos, você está aí, no trânsito, segurando o celular com o ombro, e dizendo assim: eu te ligo daqui a pouco. Provavelmente o farol da Rebouças ficou verde, uma matilha de carros ferozes acelerou, e a minha voz se perdeu no meio do fel que escorre de alguns fracassados corações. Porque corações também fracassam, penso.
Torno a repetir para mim mesma, observando quase desatenta a bagunça da escrivaninha: tesoura, serpente, coca-cola, isqueiro roxo, orquídeas entrelaçadas, incenso de mirra e jasmim. Pijama rosa e moletom azul-marinho por cima. Cabelos curtos, luminária vermelha, batom vinho, um diário ambíguo e quente daquele tempo.
Gatos, cães, tartarugas marinhas, porcelanas, lacas, ideogramas, escrita transversal, línguas uralo-altaicas. O ponto de ônibus ali na esquina de casa. Várias vezes eu revisitei meus quinze anos. Rainy night in Georgia. Farelos de biscoito na cama, chocolates da Kopenhagen, assombrações, sexo e silêncio. Sílex. Sentimentalismo. Semmelweiss. A janela do décimo-segundo andar debruçada sobre a rua onde passeava uma indiana com um sári colorido e lá longe o Pico do Jaraguá.
Depois vinham as manhãs enevoadas e eu não tinha ainda um cão castanho nem um brinco de pérola na orelha como a moça de Veermer. Saía com uma saia cinza e um suéter idem, e andava quatro previsíveis quarteirões até o colégio, carregando livros e cadernos cuidadosamente encapados. Você passava de carro, um pouco afundado no banco, parecido com o agente da Uncle, o loiro, não o moreno. Eu escapava da minha sala de aula, para procurar a da Bárbara, uma classe bem mais adiantada que a minha, dava para eu me esconder atrás de uma coluna, e enforcar mais uma aula, havia aquela ansiedade natural da menina que queria que o tempo voasse como uma ave e ele se arrastava como um verme. A frase veio de Turgueinev, eu estava descobrindo os russos, e fazia grossos riscos à lápis nas frases que me pareciam expressivas. E não dizia a ninguém que estava descobrindo os russos, eu considerava assim, um segredo meu, o pedaço indevassável da minha vida. E então, aos quinze anos, eu li Dostoievski e Gorki pela primeira vez. Fazia sentido. A literatura atrelada ao seriado da TV, o agente da Uncle que se parecia com você e era russo, o nome dele era Ilya Kuriakin. E só a Bárbara podia saber do meu segredo, essa coisa russa atravessando o meu trajeto, porque ela era mais velha, e eu me sentia superior tendo amizade com meninas mais velhas. Porque a verdade é que eu era uma grande vagabunda, e quando a janela da sala de aula se abria minha cabeça ia embora, e eu ficava pensando nos livros que escreveria sobre isso, sobre aquilo, e que títulos eles teriam. Mais tarde, pacientemente, Bárbara reporia todas as lacunas matemáticas da minha vida. O que me faria tirar uma nota suficiente para passar.
Ilustrado a carvão. O meu diário daquele tempo. Não colei nele nenhuma foto sua. Apenas me debrucei sobre o vácuo da foto e desenhei a esquina e o seu suéter marinho. Uma franja mais espessa sobre a testa, uma breve história de pianos encadernados em verde-água: amada imortal. Cinema, saudade, suicídio. Uma pulseira de prata com meu nome gravado, aquela velha calça desbotada ou coisa assim.
As janelas. As grandes janelas que davam para este tempo aqui, de jasmins e luminárias, palmeiras e cânhamos, berberis e cantharis. Mas eu sequer vislumbrava o que poderia haver detrás delas, se subterfúgios, se ensaios de Susan Sontag, se uma cigana lendo a fortuna, se paredes de silhas, se luzes amarelas pelas ruas, se telhados molhados.
E me lembro como nos verões dourados daqueles anos o mar encharcava meu vestido lilás nos fins de tarde e um colar de conchas levianas e insalubres passeava sobre o meu colo e se enroscava nos meus cabelos desalinhados, mas não me lembro como perdi você de vista. Não me lembro, por mais esforço que faça, o que se passou. Sei vagamente que mudei de casa, de colégio, de roupas, de direções e construí algumas armadilhas que iriam me esperar lá na frente. Uma água-forte de Picasso, folhas douradas de plátanos, tiranos, obstáculos, especiarias, o Vietnam, o Camboja.
O meu diário daquele tempo: meias ¾ de crochê indo lentas para o colégio, corujas de alabastro, o pequeno livro de Ana Madalena Bach, casa da Bárbara às quintas-feiras, olhos fixos no próximo sábado, filme dos Beatles no cinema da rua debaixo, vestido rosa, besame mucho. Você passava por mim de carro, cabelo na testa como Kuriakin, fiquei apaixonada pelo stariet dos Irmãos Karamazov, mesmo tendo mesclado literatura com fantasmas. Porque foi mesmo que você me deixou ir embora? E porque você se lembrou de mim agora? Eu nunca te esqueci, você respondeu.
E aí desligou o celular e colocou-o no banco ao lado, acelerou e cruzou a ponte do Tietê, e a minha voz se perdeu no meio do fel que escorre de alguns fracassados corações. Porque corações também fracassam, torno a repetir.
Outras crônicas da autora publicadas no Jornaleco