São Paulo, 08 de março de 2011
Meninos, eu vi!
A minha geração passou toda a década de 70 numa efervescência intelectual muito grande. Não havia a menor possibilidade de desvincular os fatos cotidianos de uma atitude cultural. Até mesmo tomar ácido e fumar maconha implicava respeito e leitura: ninguém tomava ácido sem ter antes passeado pelos livros de Castañeda, Huxley, e Leary, e sem fazer disso, no mínimo, uma experiência mística. Por mais bad trip que ela pudesse se tornar.Quando o tempo passou, por um ou outro motivo levou com ele artistas do porte de Isabel Câmara e Zé Vicente, levou os shows intimistas da Gal só com o violão, quando seu repertório ainda incluía Macalé, e quando Lanny Gordin assinava a direção musical. Levou Torquato, e no início dos anos 80 levaria Ana Cristina, movidos ambos por alguma coisa tão desconhecida quanto cruel.
Muitas coisas permaneceram, com o empenho e o vigor que esperávamos delas, amando-as ou odiando-as. O Teatro Oficina, que mudou de endereço, ainda tem o brilhante Zé Celso à sua frente. Paulo Autran, falecido em outubro de 2007, do alto do seu talento, seguramente foi, quem mais contribuiu para a nossa cultura de “palco”. Hilda Hilst e Caio Fernando já não circulam por aqui.
E assim eu poderia citar uma série de exemplos. Sem a mesma interação e participação nossa, porque, afinal de contas, somos o platéia que se move, motivada pelo palco. Ou éramos. Talvez tenhamos deixado que uma barreira invisível de descaso e descontinuidade tenha se interposto entre nós e o objeto de arte, que se transformou em uma outra coisa, muito veloz e quando acessível, dissociada da nossa emoção.
Porque até quando falava-se em política havia um sín perder la ternura jámas. E nem todos professavam o mesmo elenco de idéias que aqueles que juravam não perder a ternura. Mesmo assim, alguns, como eu, do outro lado da cerca, o lado mais perigoso porque mais solitário, cultuavam Tocqueville ao lado de Kalil Gibran. E isso produzia inúmeras discussões inflamadas em lugares tão distintos e longe um do outro quanto o Bar do Zé na Rua Maria Antônia, ou o Café Paris na Cidade Universitária.
E, naturalmente havia toda uma discussão estética sobre cinema e as coleções do Cahiers du Cinéma emprestado. Havia o Rock Horror Show, e o recém-lançado Um estranho no Ninho. E, claro, os cineclubes. Aonde íamos assistir coisas mais antigas, e adorar Godard, le fou. Já o surrealismo de Buñuel dividia a turma dos cineclubes em dois, os anjos exterminados, que saíam perplexos e aqueles que ainda assim, apesar da Califórnia e Sharon Tate, preferiam Polanski.
Eu, particularmente, tinha várias paixões. Que, pela intensidade e mesmo pela qualidade com que foram escolhidas, ou que fui por elas escolhida, ainda permanecem por aqui. Uma delas, é o Zé do Caixão. Assisti 500 vezes a dois filmes dele, pois o personagem mesmo, só aparece em dois filmes. No mais Zé do Caixão virou o epíteto de José Mojica Marins. Pois esses dois filmes faziam parte da minha lista mais must possível. E ainda me lembro com clareza da péssima qualidade técnica, mas da criatividade e dos diálogos, às vezes quase literários. Isso remete a um tempo, em que não se tinha dinheiro nem recursos técnicos. Conseqüentemente os diálogos tinham de ser bons, os atores tinham de ser bons, pois era só com isso que se contava. E criatividade nunca faltou ao Zé do Caixão, para quem o inferno era feito de gelo. José Mojica dizia, olhando-nos da tela, num branco-e-preto precário:
“O que é a existência? A morte? O que é a morte? Não seria a morte o início da vida? Ou seria a vida o início da morte? Você não viu nada, e quer ver tudo...viu tudo mas não viu nada. Teme o que conhece e enfrenta o que desconhece...porque teme o que conhece e enfrenta o que desconhece?” ( José Mojica Marins — O estranho mundo de Zé do Caixão).
E tinha mais um detalhe, esse importantíssimo: andávamos pela cidade de madrugada, sem correr grandes riscos de assalto. E a cidade e as madrugadas eram bonitas e misteriosas, como convém à cidades e madrugadas que se prezem.
Outras crônicas da autora publicadas no Jornaleco