São Paulo, 06 de março de 2007
Manda bala!
Eu devia ter uns doze anos. Ia passar o fim de semana com uma amiga em Campos do Jordão. Lá pelas tantas, a polícia rodoviária parou o carro para fazer uma vistoria e descobriu que a carta do pai da minha amiga estava vencida. Bom, ele pagou um “café” para o guarda e não aconteceu nada.
Em seu romance Casa de Pensão, publicado em 1884, — portanto já lá se vão 123 anos — Aluísio Azevedo mostra algo parecido, mas referindo-se a oficiais e funcionários da justiça. Seu personagem diz, com um certo desdém que: "a Justiça eu compro".
Em Agosto, de Rubem Fonseca, ambientando nos anos 50s, um personagem diz algo parecido: “a polícia a gente não mata, a gente compra”.
Os ministros do Supremo Tribunal Federal do governo lula já acenam com a inviabilidade de um processo no caso do “mensalão”, uma vez que teriam de ouvir um número X de testemunhas e até que fosse julgado a sentença iria prescrever. Melhor então, nem aceitar o raio da denúncia, dizem eles.
A ruptura do acordo social, firmado entre governo e povo, povo e povo, clero e povo, enfim, as classes que compunham o novo país que nascia em 1822, começou a ser estilhaçado em algum momento, como o descrito por Aluísio Azevedo.
E uma vez que alguma coisa é rompida, dificilmente não ficará uma marca. Pode até não ser visível, mas a sua dimensão é uma simples questão de tempo.
A consciência social do brasileiro classe média é absolutamente nenhuma. Ele vive na casa dele, com a televisão dele, horrorizado com casos como o do menino João Hélio, tem o salário dele, costuma pagar uma propina para o guarda de trânsito caso a validade da sua carteira de habilitação esteja vencida, e acabou o assunto. Completamente diferente dos Estados Unidos, onde o aumento de um centavo de dólar no preço do litro de leite, leva à uma manifestação em frente à Casa Branca. Eu posso não gostar do governo norte-americano, ou da postura social do seu povo, ou dos seus hábitos, mas não foi à-toa que se erigiu um império por lá. Foi, principalmente, pela citada consciência social dos seus cidadãos.
Sim, claro, o petróleo. A economia nada tem a ver com o raio da consciência social. Só que eu estou falando de convivência e não de riqueza em si.
Dia desses eu li em algum site americano, que o ex-prefeito da Nova Iorque, Rudolph Giuliani, aquele da tolerância zero, está muito bem cotado como próximo presidente americano. E não deve ser por causa do 11 de setembro, já que nesse dia ele já estava em seu segundo mandato. Deve ser pela seu endurecimento com marginais.
No meio dos anos 1980, certa vez, um “trombadinha” ia assaltar uma mulher no centro de São Paulo, e um Procurador do Estado que passava por ali viu a cena. Imediatamente ele agarrou o moleque, que já estava grudado na garganta da mulher, para roubar uma corrente de ouro, e jogou no chão. Por infelicidade o garoto bateu a cabeça na quina da calçada e morreu. O então cardeal de São Paulo, Paulo Evaristo Arns, pegou o corpo do menino, levou para a Catedral da Sé, e rezou uma missa de corpo presente pela alma da “pobre criança”. Encheu de intelectuais e jornalistas. Foi comovente. Era óbvio que ia dar no que deu.
O escritor Mário Vargas Llosa, há uns vinte anos, em Lima, quando dirigia o Instituto Liberal, fez um pequeno teste: tentou abrir no Brasil uma filial deste e outra nos Estados Unidos. Aqui demorou um ano e meio e lá seis horas e meia.
Não é a burocracia brasileira que é emperrada, é o povo que é emperrado. O povo é que é omisso. Que assiste a tudo sem mover uma única palha.
Um povo indolente, preguiçoso, que pouco se incomoda com alguma coisa além do seu próprio umbigo, que elegeu um sujeito chamado José Dirceu, cuja biografia de terrorista dá inveja à muitos fernandinhos beira-mar espalhados pelos morros cariocas, que vai a atos religiosos em favor de marginais, esperava o que do Brasil?.
O que eu sei, e sei bem, é que para cada ato de barbárie cometido por quem detém o Poder, seja ele qual for, há a contrapartida da sociedade. E isso começa quando não se dá queixa de um pequeno furto de celular, por exemplo. Ou quando se glamouriza a bandidagem.
O Brasil lá fora é isso aqui — e isso não é uma imagem criada a partir do nada, isso é a realidade mesmo. Morro de vergonha de ser brasileira.
E porque você não vai morar nos Estados Unidos? me perguntarão alguns. Eu vou. Assim que eu conseguir terminar o inventário da minha mãe. Ou vocês acham que estou aqui porque eu quero?