São Paulo, 01 de dezembro de 2003


Lista de desejos para 2004

 


Mécia Rodrigues

 

Eu meço o saldo positivo e negativo da passagem do tempo pela qualidade das coisas que escrevo. Não possuo nenhum outro parâmetro. E nem quero. Claro que o que eu chamo de qualidade é discutível, sob todos os aspectos, mas o que importa é que a mim mesma possa satisfazer. O resto são adereços. Sem muita importância.

Não fiz nenhum plano especial para 2003, como não vou fazer para 2004. Nenhuma grande viagem. Sequer pequena. Na verdade, grandes e pequenas viagens me entediam. Praias desertas e montanhas então, nem pensar. Dois dias longe do meu micro e dos meus papéis e eu começo a ficar ansiosa.

Também não quero um carro. Nem uma moto. Não saberia o que fazer com eles. Sou uma pessoa que, salvo o verão bravo de 32 graus, ando de 3 a 4 km por dia pela cidade. À toa. Por aí. Olhando a rua, as ruas, as avenidas, o Viaduto do Chá, esse lugar que eu adoro:

Ando pela avenida da Liberdade e pelas ruas adjacentes, acabo jantando em um restaurante pequeno, de uma rua estreita, com uma lanterna na porta. Pelos jardins do Museu do Ipiranga, pelo parque da Água Branca, pela avenida Angélica, pelas ruas de Santa Cecília, pelo centro velho da cidade, pelas alamedas requintadas e caras dos Jardins. Pelo Mercado Municipal e seus vitrais, pelo Bom Retiro e pela Lapa. Percorro Perdizes, suas subidas e descidas, as bancas de flores da Avenida Dr. Arnaldo e as do Largo do Arouche. As ruas com sotaque italiano do Bexiga.

Pelos shoppings eu não ando, que raramente entro em um. E quando o faço, é sempre pela manhã, quando está vazio. Não troco um lugar aberto por um lugar fechado em circunstância nenhuma.

Talvez ao longo do ano que vem, eu precise comprar um ou dois moletons para o inverno, porque os meus já estão no fim. Tavez precise de umas três camisetas. Tênis não, porque o meu mizuno, apesar de antigo, está inteiro. Quem sabe uma meia de lã vermelha quando chegar junho.

Vou adorar se sobrar algum dinheiro para eu poder entrar nas papelarias da cidade e comprar milhões de canetas, cadernos, lápis, borrachas, adesivos, fichários, e toda aquela tralha que as papelarias vendem. Caso não sobre, não faz mal.

Tenho algumas dividas, não pequenas, para pôr em dia. E alguns problemas judiciais, também não pequenos, para resolver. Vou adorar quando isso tudo terminar. Embora eu já saiba, de antemão, que esse dia está longe, e talvez nem termine em 2004. A minha briga com o Banco do Brasil, a julgar pelo funcionamento do sistema brasileiro, absolutamente falido, deve demorar ainda uns cinco anos. Na verdade, ela nem bem começou ainda.

O Brasil vai muito mal, obrigado. Cada vez pior e cada vez mais na lona. Cada vez mais panfletário, atualmente com a sua fome zero, que invade casas e corações compungidos, via tevê. É só dar uma olhada detalhada nisso, com cuidado e isenção, para ver o quanto há de demagógico. O desemprego aumentou assustadoramente, a inadimplência também, e o que é pior, o comércio estagnou. O comércio sempre foi responsável pelo movimento do mundo. Não falo de consumismo, falo de comércio, pura e simplesmente. A grande lâmpada de Aladim, desde tempos imemoriais. É bom que se perceba, que foi através dele, e por causa dele, que civilizações e governos erigiram-se e ruíram. Através dele o mundo ficou redondo e deixou de terminar no infinito ali em frente.

Continuando a minha lista de desejos para 2004, eu não quero ficar zen: espiritualmente tranqüila, sem nenhum mau sentimento me invadindo de vez em quando. Não sou zen, na acepção vulgar da palavra. Sou zen budista, é verdade. E o zen budismo não faz a pregação da paz e amor como querem as seitas ocidentais herdeiras do cristianismo. E nunca fui cristã. Eu só me admito como gente, pelos péssimos momentos em que a minha alma se torna negra e comete os delitos mais vis e baixos. E se atira nos mundos intermediários, e os percorre, do começo a o fim, absolutamente ciente de que isso é necessário.

Talvez eu queira comprar o cd novo do Dori, do Keith Jarret e do Yo-Yo Ma. O livro de iconografias da cidade de São Paulo, do século 17, que acabou de sair.

E também desejo muito que a China desocupe o Tibete.

É claro que eu vou entrar, como sempre, na primeira conversa fiada que sussurrarem ao meu ouvido, porque eu entro em todas. Não escapo de nenhuma. Mas os tempo não estão para grandes paixões avassaladoras e insones, o que é uma pena porque são as melhores coisas da vida, mesmo com seu graus de dor-de-cotovelo depois. Não me perguntem porquê. Não faço a menor idéia. Dizem as pessoas, que "têm medo". Medo é um terreno que eu conheço pouco. Meus medos se resumem ao básico: morro de medo de cobra, de pit bulls, dobermans, e tenho um discreto medo de ser assaltada. Mas como não dou muita colher de chá ao azar...O resto não sei muito bem do que se trata...Influência da mídia eletrônica? Será isso?

Por falar em dobermans, onde andam eles? Faz tempo que não os vejo circulando pela rua...Acho que saíram de moda. O que diz o mundo que é paixão, paixão por cachorros no caso, na maioria das vezes é modismo apenas. Os afagos em cabeças de dobermans foram substituídos por afagos em cabeças de pitt bulls. Pobres dobermans...relegados, nesses tempos de cães de pets, a um lamentável esquecimento...

E não adianta querer analisar o mundo e dar-lhe nomes e razões, compartimentá-lo, entendê-lo, processá-lo mentalmente, justificar-lhe atos e inércias. Isso leva um tempo enorme, e não muda em nada as coisas. O mundo é uma entidade. E tem o seu caminho e tempo próprio. Domá-lo é impossível.

Tem o seu modo de ser, independente dos homens.

E, finalizando, já que a minha lista, tirando os três cds e os livros que esqueci de mencionar, foi quase igual a de 2003, eu quero apenas continuar a escrever.

De resto, eu e a vida real não temos muita coisa em comum. E nem nos damos muito bem.

 

 



Outras crônicas da autora publicadas no Jornaleco