São Paulo, 01 de junho de 2011
Kim
Logo depois da esquina, bem na descida, antes da mercearia que vende shitake, há um estúdio de tatuagens. As tardes lentas passando por ela, a chuva fina do começo do outono, os fantasmas das ameixeiras que ali habitaram. Os lingotes de tinta-da-china em outra loja no outro quarteirão. Sóbrios & sólidos em caixas de madeira dourada. Peixe, fuligem, pincéis. Instrumentos japoneses de corda & casa de chá ao luar de junho & outono corrosivo.
Logo depois, depois da esquina e da outra esquina, e da loja de lingotes negros, se esconde um gato rajado — seu nome é Kim — que contrasta com a lua vermelha do nono andar, se despedaçando na claridade sonora da sala:
Este caminho
Ninguém já o percorre,
Salvo o crepúsculo.De que árvore florida
Chega? Não sei.
Mas é seu perfume.Matsuo Bashô
Memórias de gueixas. O mundo da flor e do salgueiro. A farmacopéia asiática e o óleo de chalmugra. A última casa de ópio. O forjador de katanas. As vagas sísmicas. Os lacres, as lagartas, as begônias. As consonâncias e as estratégias. Os dois silabários e o kanji. A pele das raposas vermelhas no verão. Então perguntei a Kim, o gato rajado, se ele precisava de ajuda. Ele disse que não. Que sabe circular incógnito por mundos paralelos, casas de chá, caça-níqueis clandestinos. O que não é meu caso. E que seria melhor ele fazer o que tinha de fazer sem me dizer muita coisa. Logo depois da esquina.
Outras crônicas da autora publicadas no Jornaleco