São Paulo, 27 de setembro de 2004
Kill Bill
Esta semana, por causa de escritos antigos, reencontrei Godard. E foi uma maravilha. Rever, na minha imaginação, cada fotograma do cineasta da nouvelle vague que mais me marcou. Explico: ele faz parte de uma época em que era preciso que o cinema tivesse atores, atrizes, roteiro, e diretor. Não havia efeitos especiais, computadores, montagens mirabolantes. O máximo que se conseguia, para dar mais dramaticidade à uma cena, era colocar uma música de acordo. Mas o filme mesmo, dependia inteiramente da qualidade — ou falta dela — de interpretação de seus atores/atrizes.
Então ver Godard, por exemplo, era falar sobre a sua (dele) linguagem cinematográfica. Assistir Bergman também. Idem Fellini e Antonioni.
Não estou sugerindo que o cinema perdeu muito com a evolução técnica. Estou dizendo isso com todas as letras e maiúsculas. Salvo as raras e honrosas exceções de sempre, como Wim Wenders, que fez aquela obra-prima Asas do Desejo, como Zhang Yamou que trouxe toda estética oriental para o ocidente, ou como Peter Greenway que também realizou uma obra-prima: The Pillow Book.
Então eu vou ao cinema, sempre um pouco ressabiada e pronta para o que der e vier. No caso de A professora de piano o que veio e deu foi uma enorme vontade de sair no meio do filme, não fosse a minha enorme curiosidade. Idem em Vanilla Ice.
Claro que as Anacondas não me pegam nunca, mas Kill Bill foi inevitável.
Por um motivo muito simples: lá estava David Carradine, que povoou minha imaginação juvenil, quando era Caine e conversava com Mestre Kan, — aquele que lhe dizia para pegar a pedra de sua mão tão rápido quanto possível — e com Mestre Pô, que o apelidou, carinhosamente, de Gafanhoto.
Do alto dos seus sessenta e sete anos, se não estou enganada, Carradine continua tão bonito e sedutor quanto foi quando interpretou o monge shaolin. Claro que debitando o que eu chamo de beleza e sensualidade a um homem da sua idade, e considerando-se que a sua imagem, na minha cabeça, ainda está impregnada do chinês que fugiu para os Estados Unidos.
Foi o único seriado que eu assisti na tevê. Aliás, foi a única coisa, porque, que eu me lembre, só ia para a frente dela, uma vez por semana. Embora aparecessem pouco e em flash-backs, os mestres Kan e Pô eram tão carismáticos quanto Caine, e o garoto que interpretava o jovem Caine, tão profundo quanto o monge.
Lembrando agora que os diálogos e o roteiro de Asas do Desejo foram escritos por Peter Handke, seguramente um dos maiores escritores de língua alemã, embora ele seja austríaco de nascimento, e lembrando de um dos diálogos de Kung Fu, eu me pergunto: onde anda essa gente toda?
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Mestre Pô: Feche os seus olhos. O que você ouve?
Caine: Ouço o som da água. Ouço um pássaro.
Mestre Pô: Ouve o seu próprio coração batendo?
Caine: Não.
Mestre Pô: Ouve o gafanhoto que está aos seus pés?
Caine:(abrindo os olhos e olhando para o chão): Como consegue ouvir essas coisas?
Mestre Pô: Como consegue não ouvi-las?