São Paulo, 02 de agosto de 2004
Kam
(conto)
Diz a lenda que quando uma pessoa morre, um corvo levará sua almapara a terra dos mortos. Mas às vezes, somente às vezes, o corvo pode
trazer essa alma de volta.— O Corvo —
Mata-me com teus beijos, mas depois, um outro dia, uma outra vez, pensei olhando Kam. Ele virou o rosto em câmera lenta, como num filme, deixando de ser um perfil e se tornando Kam. Claro que eu já o conhecia, claro que eu já o havia visto milhares de vezes em vários lugares e países, com diferentes nomes, rostos e roupas. E naquele dia, naquela quinta-feira às onze da noite, vinte e cinco de setembro, ele se despiu de seus outros rostos, nomes e roupas, e se tornou definitivamente Kam. Os cabelos lisos e negros, o corpo grande: alô!Fui além de pensar: mata-me com teus beijos. Disse, ainda que para mim mesma, baixinho, imperceptível, apenas os lábios se movendo: mata-me com teus beijos, Kam. Atravessei o bar, passei pelo balcão, paguei minha conta, que era pouca, entrei na porta giratória e cheguei à rua. Ele saiu atrás. Andei alguns quarteirões chutando tudo que via no chão, como faz a molecada, os olhos vasculhando a calçada à procura de uma pedra arredondada, fácil de ser atirada longe, que descrevesse um semicírculo no ar e sumisse no bueiro. A noite abafada grudava-se à minha pele, entrava pelo vão da minha roupa e desenhava uma gota de orvalho no meu peito. Ao longe, muito ao longe, o som de alguns trovões. Kam me seguia à uma distância razoável, disfarçando que me seguia. Quando parei na porta de um prédio qualquer, acho que ele pensou que eu morasse ali, então deu uma corrida e segurou meu braço de leve: você precisa entrar agora?
Estremeci com o toque e pisquei os olhos lentamente.
Não, não preciso, sorri, girei a catraca do relógio, passei a mão na nuca, puxei um fio da franja e levantei a cabeça: vai chover daqui a pouco. Mas não vai chover para sempre, ele respondeu. O corpo grande, os cabelos lisos, os olhos macios, a boca muito próxima da minha.
Alguns pingos esparsos começaram a cair, passei a mão na nuca de novo, olhei Kam e atrás dele a luz cor-de-rosa de um raio: não gosto de calor, falei. Nem eu, ele respondeu. E cada raio era um fotograma cuidadosamente desenhado, a cada clarão no céu eu me via bem mais jovem, sentada na cama de um quarto de hotel, segurando um cachimbo. Em menos de um segundo o céu se fechava, apagando a luz rosa e eu voltava à rua escura, rodando a catraca do relógio e mexendo na franja. Então começou a chover mesmo, uma chuva forte que ia virar uma tempestade de primavera dali a pouco, Kam sorriu, os dentes brilhantes: vamos dar uma volta por aí? Você se parece com uma moça que eu amava muito e que se matou. Espera que eu vou pegar o carro. Não demoro nada.
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Uma moça que se matou.
Esse é o código de acesso, a identificação, a passagem.
Ficou próximo do verdadeiro.&
Dragões tatuados passeando por pequenas lojas montadas em porões, terminais de ônibus barulhentos e esfumaçados às seis da tarde, telhados e gatos sobre eles, cópias malfeitas de Magritte, uma papoula no centro do universo. Estiquei o braço e aumentei o volume do rádio: pequeno mapa do tempo, Belchior, encostei a cabeça no vidro, distraída, os olhos acompanhando as gotas de chuva que escorriam do lado de fora. Ele guiava devagar e com bastante cautela: aonde você quer ir? A um hotel pequeno e vagabundo. Ele riu.
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Às vezes as madrugadas ficam mais receptivas, mais maleáveis, mais próximas, mais súbitas. Emergem, põem cicatrizes a descoberto, penetram, corrompem. Depois silenciam. Ando por elas com um pássaro no ombro, escalo prédios pelas paredes externas, atiro facas, uso uma capa de chuva cinza-chumbo e um batom vinho que acentua e destaca minha boca bonita recortada no meu rosto pintado de branco. Que parece o rosto de um ator nô ou kabuki. Os cabelos molhados de chuva e gel. Nessas vezes as madrugadas se transformam em outra coisa que não o que são, ou o que deveriam ser, ou o que fingem ser. Alongam-se, espaçam-se, formam superfícies borbulhantes. Atravessam bares, portas giratórias, luzes, ruas escuras e sussurram: a baía e o seu corpo caído no chão, nunca esqueça disso.
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Lembra da baía, Kam? Ele estremeceu e estacionou o carro.
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Olhei para a entrada do hotel, um hotel na parte alta de Pinheiros, perto do Hospital das Clínicas, velho e sujo, com as paredes descascadas e manchadas. Subi a escada devagar, os degraus rangiam a cada passo e da única lâmpada no corredor caíam pequenas gotas de água. Abri a porta do quarto, entrei, e acendi o abajur. Minha sombra tremulou na parede. Brumas, asperezas, umidades, tempos paralelos. Sentei na cama. Kam foi até a janela, abriu uma folha e pôs a cabeça para fora talvez procurando as luzes e a brisa da baía, mas só havia à sua frente a rua estreita e escura. E nela um pássaro voava abrindo suas asas. O pássaro que me trouxe até aqui.
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Os ônibus subindo a Teodoro Sampaio deixavam um rastro de fuligem, chiado e fumaça. Kam acendeu um cigarro e me olhou, indeciso quanto ao que fazer ou dizer. -Fecha a janela, Kam, está começando a esfriar. A minha vontade de deter ou precipitar acontecimentos, o poder que eu gostaria de ter sobre os fatos e a minha extensa duplicidade retransmitindo suas variáveis e artifícios. Kam fechou a janela e sentou-se ao meu lado, na cama, inquieto e tenso.
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Lembra, Kam? Do hotel na baía? Era um lugar parecido com este, cheio de prostitutas, a porta dando direto para a rua, a rua cheia de lixo, de restos de verduras e frutas, de moscas. E acima da porta ficava o letreiro colorido, piscando, a escada que rangia, as lâmpadas amareladas e bruxuleantes, as goteiras no corredor.
Não lembro disso, ele disse, jogando o cigarro no chão e amassando a ponta com a sola do sapato.
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Eu estava com um pijama vermelho de seda, peguei o cachimbo que você havia colocado na mesa de cabeceira e acendi. Um vento quente entrava pela janela e acariciava meu rosto. Meu cabelo estava tão perfumado e macio, enfeitado com uma flor rosa. A baía, lá fora, toda iluminada, eu gostava de ver o movimento dos barcos. Sabe? barcos são transitórios e passageiros, vão e vêm e nunca são os mesmos e nisso está o encanto deles. Então, por curiosidade, eu peguei seu cachimbo e acendi. Eu sabia que era a quantidade exata que você precisava, mas eu apenas acendi. Me deu vontade de fazer isso, de acender. Nada além. Você começou a gritar comigo, desesperado, enlouquecido, mas ninguém se incomodou porque em um hotel como aquele as brigas eram freqüentes. Ninguém prestou atenção. Ninguém entendeu que eu estava pedindo socorro. Nisso a lâmina de um punhal, longa e afiada, brilhou no ar, acima da minha cabeça. Isso é a última coisa que consigo me lembrar. Ou que me é permitido lembrar.
Então me trouxeram de volta.
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Na rua tirei um cigarro do maço e acendi. Subi bem devagar a Teodoro Sampaio. Olhando a fumaça dos ônibus que, na verdade, parecia sair do asfalto. Conforme fui subindo comecei a respirar melhor. De um jeito mais ameno. Atravessei a Dr. Arnaldo inteira, olhei as flores e acabei entrando na faculdade de medicina. Andei por todos aqueles prédios e jardins até me cansar deles. Depois voltei à avenida. As bancas de flores do outro lado da rua, muito iluminadas, continuei andando até chegar à passagem subterrânea da Consolação, onde um pássaro negro, o meu pássaro, grasnou no ar, voou em círculos e pousou no meu ombro.